'Morto há um ano': certidão de óbito por engano trava vida de jovem em Rondonópolis

Desde que foi registrado como falecido, Pablo da Silva Pereira, de 21 anos, não consegue receber benefícios, abrir contas, estudar ou tirar CNH.

O jovem Pablo da Silva Pereira, 21 anos, morador de Rondonópolis (MT), foi oficialmente declarado morto pelo cartório de Primavera do Leste (MT), e tenta há mais de um ano provar que está vivo para levar uma vida normal. Enquanto isso, os planos seguem interrompidos, como trabalhar, estudar e até mesmo fazer a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para realizar o sonho que cultiva de adquirir um carro.

Pablo da Silva Pereira dado como morto mas esta vivo foto marreta urgente
Pablo da Silva Pereira, de 21 anos, foi dado como morto, mas está vivo. – Foto: Marreta Urgente

A mãe de Pablo, Isabel Cristina, descreve um cotidiano de desgaste emocional que tem vivido no último ano devido à situação que o filho de apenas 21 anos tem enfrentado. Eles moram em Rondonópolis.

“Eu tô vivendo um momento que eu nunca imaginei que eu ia viver. Meu filho não pode trabalhar, não pode assinar carteira, tem dinheiro em banco que ele não pode receber. Tudo que ele acessa com CPF, aparece que ele está falecido. A vida do meu filho está travada”, disse ao Primeira Página.

No dia 6 de novembro, a juíza da 4ª Vara Cível, Lidiane de Almeida Anastácio Pampado, determinou que o cartório do 2º Ofício de Primavera do Leste anule a certidão de óbito emitida em nome de Pablo da Silva Pereira. Para a corregedoria do Tribunal de Justiça (TJMT), o cartório informou que já cumpriu a medida, mas a mãe de Pablo nega e afirma que o filho segue dado como morto, mas ele permanece vivo.

Cartorio de Primavera do Leste foto Google Maps
Cartório de Primavera do Leste emitiu certidão de óbito de jovem que está vivo. – Foto: Google Maps

Como tudo começou

A família relata que começou a desconfiar de irregularidades quando Pablo teve dificuldades para validar dados pessoais em serviços básicos, como atualização de cadastro e transferência de número de telefone, sem compreender inicialmente a causa. A

A situação se tornou mais evidente no fim de 2024, quando ele encerrou o contrato de trabalho com uma empresa ferroviária de Rondonópolis, onde ele trabalhou de carteira assinada. Ao tentar solicitar o benefício do seguro-desemprego e movimentar valores bancários após o desligamento, Pablo foi informado de que seu CPF constava como pertencente a uma pessoa falecida, fato que motivou a busca imediata por esclarecimentos na Caixa Econômica Federal, Receita Federal e cartórios.

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Isabel Cristina ao lado do filho Pablo da Silva dado como morto. – Foto: Marreta Urgente

Ao procurar atendimento, a família passou a receber informações conflitantes. A Caixa confirmou que, nos sistemas consultados, Pablo aparecia oficialmente como morto desde 22 de novembro de 2024.

Depois, na Receita Federal, foi orientada a atualizar a certidão de nascimento do jovem para tentar regularizar o CPF. Foi apenas ao consultar o cartório do 2º Ofício de Primavera do Leste, que a mãe teve acesso à informação de que o registro de óbito vinculado ao nome de Pablo havia sido emitido com base em um homônimo falecido, mas que, por erro na pesquisa do sistema, os dados verdadeiros do jovem teriam sido utilizados por criminosos que estavam aplicando golpes em seu nome.

Diante da inconsistência, a mãe procurou a Delegacia de Rondonópolis, onde foi informada de que, anos antes, uma pessoa estava utilizando o CPF de Pablo em diferentes situações, inclusive em ocorrências criminais, o que pode ter contribuído para a confusão no momento de emissão da certidão de óbito do verdadeiro falecido.

“Quando fomos entender o que tinha acontecido, percebemos que os dados do meu filho foram parar no registro de óbito por um erro de vinculação do sistema, e isso passou a travar tudo: documentos, conta bancária e até atendimento em hospital”, explicou Isabel Cristina.

Um ano de angústia

Dona Isabel diz que a situação “tirou a paz” da família e há um ano eles vivem o dilema enfrentado que tem piorado a situação de seu filho, que segundo Isabel, tem dificuldade de socialização.

“Eu fecho os olhos e fico imaginando o que meu filho está enfrentando. Ele já tem dificuldade de socializar, é calado, quieto. Agora está sendo reconhecido como bandido. Isso tá acabando com ele. Dizem que é o sistema, mas quem mexe no sistema é ser humano. Tinha que conferir os dados”, disse.

Impedido de viver mesmo estando vivo, o futuro de Pablo ainda é indefinido. O advogado da família, Adriano César, contou que nessa quinta-feira (4), a justiça emitiu uma intimação para que o cartório cumpra a decisão.

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