MPT move ação contra frigorífico após 144 casos de aborto

Investigação indica exposição a até 93 decibéis e cobra realocação imediata de grávidas.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) instaurou inquérito civil para investigar a conduta do frigorífico MBRF em Lucas do Rio Verde (MT) após a morte de duas bebês gêmeas, filhas de uma trabalhadora venezuelana que sofreu um aborto na portaria da empresa, sem atendimento médico. Durante a investigação, foram constatados 144 casos de aborto ou ameaça de aborto envolvendo empregadas da unidade, dentre eles 77 abortos efetivos.

Segundo o MPT, a funcionária venezuelana que perdeu suas filhas foi liberada das atividades ao apresentar sintomas como enjoo e tontura durante o expediente e permaneceu na sala de pausas aguardando melhora. No entanto, não houve encaminhamento ao serviço de saúde interno, nem atendimento por enfermeiros ou médicos da empresa, tampouco condução ao hospital. A trabalhadora deixou a unidade sozinha e acabou tendo o parto na portaria, onde as duas crianças morreram.

Conforme a promotora Priscila Schvarcz, do Projeto Frigorífero de Rio Grande do Sul, durante a investigação, o MPT analisou documentos apresentados pela própria empresa e identificou, entre 2019 e 2025, 144 casos de aborto ou ameaça de aborto envolvendo empregadas da unidade, dentre eles 77 abortos efetivos.

BRF
MPT abre inquérito para apurar abortos em frigorífero de Lucas do Rio Verde. -Foto: Prefeitura de Lucas do Rio Verde

“Foram constatados 113 casos de trabalho de parto antecipado e 71 registros de problemas de saúde que podem ser agravados por exposição a ruído, como hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, diabetes e restrição de crescimento fetal”, explicou.

Atualmente, a empresa possui 74 gestantes, o que representa cerca de 1,5% dos 4.800 empregados da unidade. Dessas, 55 estão em atividade presencial. Conforme o MPT, apenas três trabalham em setores com ruído abaixo de 80 decibéis, limite considerado nível de ação pela legislação brasileira, enquanto outras atuam em ambientes que chegam a 93 decibéis.

“O MPT pede a realocação dessas trabalhadoras para ambientes que tenham, então, condições compatíveis com a sua situação de saúde. Nós identificamos também pelos documentos da empresa que existem 23 setores hoje em que o ruído é, está abaixo de 80 decibéis, o qual é o nível de ação estabelecido em lei, pela legislação brasileira. Ou seja, existem 23 setores dentro da empresa, em que o ruído é adequado e mesmo assim a empresa se recusa a se readequar”, explicou.

Segundo a promotora, o MPT argumenta que a exposição contínua ao ruído elevado pode causar não apenas danos auditivos, mas também efeitos extraauditivos, como problemas cardiovasculares, distúrbios metabólicos e impactos no desenvolvimento fetal. Estudos científicos e decisões judiciais são citados na ação para embasar o pedido de afastamento das gestantes de ambientes considerados insalubres.

Uma ação semelhante já foi ajuizada contra a mesma empresa na unidade de Marau (RS), onde houve decisão liminar determinando o afastamento das gestantes, mantida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Segundo o MPT, a empresa cumpre a decisão no Rio Grande do Sul, mas resiste em adotar as mesmas medidas na unidade mato-grossense.

Após duas tentativas de acordo extrajudicial sem sucesso, o MPT ingressou com pedido de liminar para que a Justiça determine o afastamento imediato das gestantes de setores com ruído elevado. O órgão aguarda agora a análise do pedido judicial.

O outro lado

Em nota, o frigorífico informou que segue rigorosamente a legislação vigente e reitera seu compromisso com a saúde e segurança dos seus profissionais.

“Sobre exposição a ruídos, a empresa fornece e garante o uso de EPIs certificados pelo Ministério do Trabalho. De acordo com a avaliação médica e com os atestados apresentados, não foi identificada correlação entre os casos citados no processo e as atividades desempenhadas. A empresa ainda irá apresentar a sua defesa na referida ação e, à exceção do número atual de gestantes, não reconhece os dados apresentados pelo MPT à reportagem”, diz trecho da nota.

A companhia reforçou que possui um programa estruturado de acompanhamento às gestantes com suporte médico, adequações de função de acordo com a etapa gestacional e monitoramento contínuo. Enfatizando que desde 2017, a iniciativa já acompanhou mais de 13 mil colaboradoras.

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