Capivara Criminal

O depoimento estranho de testemunha sigilosa da Omertà

Ouvido na Justiça no dia 9 de maio de 2024, homem que teria entregue bilhete com plano de atentado deu declarações confusas e revelou temer por sua vida pela da família

Com a preservação da identidade garantida, testemunha essencial em uma das ações derivadas da operação Omertà prestou depoimento pra lá de confuso no dia 9 de maio de 2024.

Era uma audiência de instrução de processo contra réus por envolvimento em suposto plano de ataque a autoridades de segurança e operadores públicos do Direito em Mato Grosso do Sul.

Veja trecho do depoimento abaixo:

Trecho de audiência realizada no dia 9 de maio

O objetivo da audiência era extrair esclarecimentos sobre anotações em pedaços de papel higiênico, atribuídas à testemunha, dando conta do planejamento de ataque a servidores da segurança pública, da Defensoria e do Ministério Público, que cuidavam da ofensiva ao crime organizado.

Não foi isso o que ocorreu.

Defesa e acusação saíram insatisfeitas, apurou a Capivara Criminal. As falas do depoente não foram assertivas nem para condenar, nem para inocentar as partes.

O plano de emboscada foi descoberto em 2020, no presídio federal de segurança máxima de Mossoró (RN).

Pelo indicado nas anotações a caneta, foram compartilhadas ordens para atentar contra a vida de delegado de Polícia Cívil, defensor público e um promotor de justiça.

São réus neste processo:

  • Jamil Name Filho, preso em Mossoró
  • Marcelo Rios, ex-guarda civil metropolitano, preso em Mossoró
  • Vladenilson Daniel Olmedo, policial civil, preso em Campo Grande
  • Cinthya Name Belli, prima de Jamil Name Filho, em liberdade

Confuso

Condenado por tráfico e outros crimes, o personagem ouvido, de 33 anos, fez declarações truncadas.

Em determinado momento, perguntado se havia entregue o bilhete improvisado à direção do presídio, respondeu “sim”.

Trecho de bilhete apreendido pela operação Omertà
Trecho de bilhete apreendido pela operação Omertà (Foto: reprodução de processo)



Num outro trecho da oitiva, porém, alegou ter sido apresentado aos papéis só quando foi ouvido no Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros), em seu retorno para Campo Grande, vindo de Mossoró.

A unidade policial era a sede da força-tarefa da Polícia Civil responsável pelas investigações ligadas à operação Omertà. Os trabalhos levaram mais de 80 pessoas a prisão, incluindo integrantes da família Name.

Uma das autoridades ameaçadas fazia parte do grupo de delegados da força-tarefa.

“Me sequestraram no presídio. Me pegaram lá, sem comunicação, sem advogado, sem nada.”

Diante da insistência dos promotores do juiz e dos defensores dos réus em entender sobre como o bilhete veio à tona, a testemunha se mostrou ainda mais arredia na audiência.

“Não tem advogado meu na audiência?”, questionou.

Testemunha sigilosa
Kauê durante depoimento
Testemunha sigilosa durante depoimento direto de presídio (Foto: reprodução de processo)


Roberto Ferreira Filho, juiz titular da 1ª Vara Criminal de Campo Grande, presidente dos autos, ressaltou ao homem sua condição de testemunha – não de réu ou investigado – e lembrou o fato de ter sido assegurada a proteção do nome e da imagem.

Alertou também sobre o compromisso de dizer a verdade.

A ressalva não se mostrou suficiente.

“É que não é a família de vocês que está lá fora e pode sofre alguma coisa”, retrucou o depoente.

Na sequência, afirmou que embora nessa audiência a identidade tenha sido protegida, seu nome é de conhecimento público.

Entre muitos “não me recordo” e declarações repetidas sobre medo de sua família ser alvo de algum atentado, a testemunha confirmou a convivência com Marcelo Rios durante o banho de sol no cárcere

Em relação a Jamil Name, contou já ter acionado a direção da penitenciária em busca de remédio para o octogenário.

Sobre a mecânica de passar recados entre uma cela e outra, informou ser possível, não com a mão, mas “com linha”, sem esclarecer o que seria isso.

Em suas respostas pouco claras, o condenado afirmou ter medo tanto da organização sob investigação quanto da polícia.

“Nem de um lado nem de outro”, disse.

Na última pergunta da sessão de depoimento, o juiz indaga à testemunha se tem conhecimento de alguma ameaça dirigida a ela, citando Marcelo Rios ou de Jamil Name Filho.
A resposta é curtíssima, em bom tom.

“Jamil Filho.”

Testemunha sigilosa
Trecho de depoimento de testemunha sigilosa da Omertà

Justifica que quando fugiu do regime semiaberto, em 2021, foi para escapar de uma ameaça de morte. Não detalhou de quem veio.

Na audiência do dia 9 de maio, o preso participou por videoconferência, direto de Bangu, no Rio de Janeiro, cidade onde foi preso depois de escapar do regime semiaberto.

Foi capturado em Copacabana, num domingo de abril de 2022, em razão de um mandado de prisão por porte ilegal de arma. Sua localização ficou a cargo da Desarme (Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos) em hotel de luxo.

A carreira criminosa da testemunha-chave na Omertà é repleta de anotações: de furto a tráfico de drogas, de tentativa de homicídio à participação em organização criminosa dedicada a levar carros roubados para a região de fronteira.

Em decisão recente, foi autorizada a progressão de regime do condenado para o semiaberto, a ser cumprido em Campo Grande.

Diante das insinuações do preso de conduta irregular da polícia, a coluna procurou a defesa dele, para saber se houve alguma denúncia aos organismos que fiscalizam abuso de poder e violência policial.

Em resposta, a declaração recebida indicou que que, por questão de segurança, a defesa não se manifestaria.

Quanto à prospecção feita junto a fontes da força-tarefa, apurou-se que quando o detento foi retirado do presídio da Gameleira em Campo Grande, para ser ouvido sobre o bilhete, houve ofício solicitando a providência, além de exame de corpo de delito no retorno, praxe em situações assim.

Os representantes de Jamil Name Filho foram procurados para comentar a declaração da testemunha sobre ameaça à testemunha e não retorno à coluna.

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Capivara Criminal, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

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