O dinheiro que faltava na Santa Casa: investigação revela bastidores de esquema milionário
Na sexta-feira (11) seis pessoas ligadas ao esquema foram presas em uma ação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul
No dia 3 de setembro de 2026, a Santa Casa de Campo Grande enviou à Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) o comunicado oficial sobre a suspensão temporária das cirurgias cardíacas pediátricas devido à “indisponibilidade da equipe médica especializada necessária à realização segura dos procedimentos”.

Para a imprensa, a nota formal sobre a paralisação do procedimento veio no dia 10. No texto, o hospital reforçou que o motivo era a falta de profissionais – já que dois cirurgiões estavam afastados por motivo de saúde grave e uma terceira havia solicitado a rescisão contratual – e falou de “desequilíbrio econômico-financeiro”, que impactava diretamente a manutenção de equipes, medicamentos, insumos e materiais.
A verdadeira situação “econômica” do hospital veio a público antes disso, em julho, quando a diretora clínica revelou em um vídeo publicado nas redes sociais a falta de insumos, materiais cirúrgicos e o atraso no pagamento de médicos contratados.
No entanto, no dia 11 de setembro, o maior hospital de Mato Grosso do Sul amanheceu com equipes do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) dividindo espaço com pacientes e profissionais.
Era deflagrada a Operação Antidotum, que revelou um esquema de desvios na entidade, com prejuízos superiores a R$ 4,9 milhões à operadora do hospital, e o verdadeiro motivo do caos na entidade.
Neste domingo (13), a Capivara Criminal teve acesso a parte das informações reunidas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) para pedir a prisão de seis integrantes do grupo criminoso responsável pelos desvios de dinheiro público. No centro dele, Alir Terra Lima, eleita em novembro do ano passado, a diretora-presidente do hospital.
A denúncia
Segundo o Ministério Público, desde que assumiu o comando operacional da Santa Casa pela primeira vez, Alir Terra implementou duas frentes de “estrutura fraudulenta”.

Uma delas envolveu o contrato de digitalização de documentos firmado com a empresa Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda.
De acordo com a denúncia, no contrato firmado, o valor por página digitalizada era de R$ 0,05. Entre janeiro e 16 de abril de 2025, os levantamentos apontaram que a empresa digitalizou apenas 1.772.198 páginas, o que equivaleria a R$ 88.609,90. Contudo, a Santa Casa efetuou pagamentos que somaram R$ 750 mil, gerando um prejuízo direto aos cofres públicos de R$ 661.390,10 em serviços não executados.
Dados telemáticos interceptados revelaram que os pagamentos eram alinhados previamente entre os gestores da instituição e o empresário beneficiado, Maurício Aparecido Benites. Em áudio gravado no dia 8 de abril de 2025, o vice-presidente da Santa Casa explicou ao empresário Maurício Aparecido Benites (controlador da Redvalue) que não seria possível liberar o valor combinado por eles, exatos R$ 1,8 milhão, de uma só vez devido à presença de auditorias e órgãos de fiscalização.
“Não tem como pagar um milhão e oitocentos cash… porque eu estou com a fiscalização em cima, estou com o governo em cima, estou com a auditoria em cima”.
Na conversa, o vice-presidente explicou que a verba se tratava de recurso repassado via emenda parlamentar federal com destinação carimbada e vinculada exclusivamente à compra de medicamentos e pagamento de salários médicos.
No áudio, ele ainda garantiu que iria negociar com Rinaldo Romano (Diretor Administrativo e Financeiro e alvo da operação) o parcelamento do repasse a Maurício Benites dentro de cotas futuras da instituição.
“Nós vamos fazer das tripas, coração, pagar algumas partes para você.”
Em 23 de maio de 2025, foi assinado um aditivo contratual com a proposta de reduzir a meta mensal da Redvalue de 3 milhões para 1 milhão de páginas, mas com o mesmo valor mensal, R$ 150 mil.
A alteração representou uma redução de 66% na produtividade e um aumento de 200% no custo por página, sem qualquer economia para a instituição. Em 23 de junho de 2025, a Coordenação de Custos da Santa Casa rejeitou oficialmente a justificativa, destacando a ausência de mapa de cotações e a patente desvantagem econômica da alteração.
Desvio
Enquanto o hospital sucumbia à falta de insumos e pagamentos, os envolvidos no esquema sacavam valores altos.
A quebra de sigilo bancário e fiscal expôs a engrenagem financeira utilizada para dispersar os recursos públicos. Segundo a investigação, a conta bancária da Redvalue funcionava como uma mera “conta de passagem”.
Logo após o recebimento de repasses efetuados pela Santa Casa, o dinheiro era pulverizado e sacado em espécie ou transferido para pessoas físicas e jurídicas ligadas ao grupo.
Para evitar a identificação pelos mecanismos de controle do sistema financeiro, as retiradas eram realizadas em sucessivas parcelas de R$ 49.999,00.
O valor foi estrategicamente fixado logo abaixo do limite legal de R$ 50.000,00, patamar a partir do qual as instituições financeiras são obrigadas a notificar automaticamente o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) sobre operações suspeitas em espécie (conforme o Banco Central).
Paralelo a isso, a investigação identificou que os investigados começaram a adquirir imóveis.
Alir comprou pelo menos dois imóveis: no primeiro, assim que assumiu a presidência, pagou R$ 450 mil. Em 24 de janeiro de 2025, no auge das movimentações investigadas, adquiriu outra residência por R$ 400 mil, pagos integralmente em espécie no ato da assinatura.
Neste domingo, o advogado Murilo Marques afirmou que Alir nega que tenha cometido qualquer crime e está indignada com as acusações e com a prisão.
“Estamos analisando as acusações para apresentarmos os devidos esclarecimentos e pedirmos a liberdade da Alir. Nos próximos dias já devemos fazer o pedido de revogação da preventiva”.
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