O raio-x das audiências de custódia em Campo Grande; entenda como funciona

O Primeira Página acompanhou as audiências de custódia no Fórum de Campo Grande e mostra como elas são feitas

Você já deve ter ouvido, ou lido, bem mais de uma vez, a seguinte frase: o preso passou por audiência de custódia. Isso acontece porque desde 2015 todas as pessoas presas em flagrante precisam passar pela análise de um juiz antes de serem mandadas a um presídio.

Esse contato imediato com a justiça foi criado e pensando para evitar prisões ilegais e ao mesmo tempo “enxugar a massa carcerária”. Antes de chegar na frente do juiz, a pessoa presa passa por toda uma rede de apoio e humanização, uma tentativa de diminuir os problemas sociais escondidos em crimes “rotineiros”.

Em resumo, é uma tentativa de garantir os direitos de todo cidadão, entre eles o de não ser alvo de violência policial ou um erro, se for, a correção vir o mais depressa possível

O caminho percorrido é o tema desta reportagem.

Por uma manhã inteira, o Primeira Página acompanhou as audiências de custódia no Fórum de Campo Grande. E agora, mostra como elas são feitas na capital de Mato Grosso do Sul.

Preso em frente ao juiz durante audiência de custódia
Audiência de custódia acontece no Fórum de Campo Grande (Foto: TJMS)

Ao nascer do dia

A rotina no Fórum de Campo Grande começa cedo, bem antes do expediente normal do judiciário.

Por volta das 6 horas os presos começam a chegar ao prédio na rua da Paz, vindos das delegacias da cidade. A primeira parada são as celas montadas no próprio fórum.

Para receber os presos, todo uma área foi construída ali, é a CPAC-CG (Central Provisória de Audiência de Custódia de Campo Grande).

Uma equipe especifica de policiais penais cuida da segurança dos internos dentro do fórum, mas não só isso, fazem também o cadastro dos presos no sistema e demandam vagas quando os flagrantes são convertidos em preventivas. Também são da Agepen (Agência de Administração do Sistema Penitenciário) as asssistentes sociais e psicólogas que atuam no setor.

Hoje a central é considerada a porta de entrada para o sistema carcerário da capital.

São cinco celas, uma separada para mulheres ou para situações especiais. É dentro delas que os suspeitos recebem um café da manhã assim que chegam: pão, frutas, bebida e um docinho.

Na hora exata, os policiais “sobem” com os presos para o APEC (Atendimento à Pessoa Custodiada). É no espaço com cinco salas que recebem atendimento psicossocial, jurídico e médico.

Humanização

– Oi, qual o seu nome?

– Julio César

– Você veio sem camiseta?

– Vim, não deixaram pegar.

– Vou buscar uma para você.

Com a camiseta branca nas mãos, a psicóloga começa a contar como a audiências funciona. Depois de entregar a peça de roupa, começam as perguntas: nome, idade, se já foi preso.

A história do preso sentado em frente a profissional é parecida com a de muitos outros. Ele vive com a mãe, tem um filho de 15 anos e já foi preso. Passou pela Máxima, estava em liberdade condicional, mas se envolveu em uma briga e matou uma pessoa. Por isso, foi detido de novo.

Acontece que o homem sentado ali, agora um assassino, é usuário de pasta base. Só de olhar para ele, sem camiseta e com o short sujo, é possível ver a exposta a ferida social causa pela droga.

– Você tem interesse em receber tratamento?
– Gostaria muito

preso durante entrevista social no fórum
Ana Cristina durante atendimento (Foto: Tatyane Santinoni)

A lista de perguntas se repete muitas vezes. Cada pessoa tem sua história, mas sempre há situações que se repetem. É o que conta Fernanda de Melo Campidelli e Ana Cristina Nogueira de Barros. São elas que todos os dias conversam com homens e mulheres levados para as audiências.

Nas palavras delas, o que acontece dentro da sala, e narrado acima, é uma entrevista de proteção social. A intenção é tentar levantar a vulnerabilidade de cada um e assim, individualizar a prisão.

É nessa primeira conversa que elas levantas suspeitas de transtorno, detalham dependência química e a necessidade social de cada preso. Todas as informações reunidas são descritas em um relatório enviado ao juiz e anexado no processo.

“Nosso papel é individualizar e tentar potencializar a pessoa além do sistema penitenciário. Ver como uma pessoa. Tenta encaminhar para uma rede de apoio para preencher as lacunas sociais”.

Fernanda Campidelli

Se o preso é usuário de drogas e aceita passar por tratamento, as profissionais sugerem que isso seja determinado na decisão judicial. Se o preso está com frio, elas entregam casacos e calças de abrigo. Se estão sem camiseta ou descalço, recebem roupas e chinelos.

Se ganham a liberdade e precisam de assistência social, saem com o encaminhamento em mãos. “Muitos jovens entram aqui sem emprego. Nós temos uma rede de parceiros no município e fazemos o encaminhamento para uma vaga de emprego. As vezes de cesta básica. Fazemos todo esse processo. Mandamos para tratamento no CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e no Centro POP”.

Todo o atendimento, conta Ana Cristina, foi montado a partir da necessidade. Quando viram que as pessoas chegarem até sem camiseta, a equipe do atendimento psicossocial sugeriu um projeto. Até hoje é dele o dinheiro que se transforma e camiseta, chinelo, calça de abrigo e casaco de abrigo para vestir os presos.

“Fazemos de tudo para humanizar o atendimento. Para que visualizem outras possibilidades”.

Ana Cristina

No mesmo espaço os presos também passam por atendimento jurídico, Uma das salas é destinada a defensoria pública.

É ali que os presos recebem as primeiras orientações, passam os contatos dos parentes, entendem o que é audiência de custódia e o que pode ou não acontecer com eles. É onde muitos entendem de verdade o motivo de estarem presos.

Bastam alguns passos para chegarem a sala da perícia. A cada dia, um médico plantonista vai até o fórum para atender os presos em flagrante. No espaço em que o corpo de delito é feito, nenhum policial entra. Por isso, é quando agressões policiais são reveladas e confirmadas, ou não.

O exame é feito por todo o corpo e se houver lesões, tudo é detalhado em uma área do SIGO (Sistema Integrado de Gestão Operacional); o relatório sobre para o processo, mas também fica no arquivo policial da pessoa.

Só depois das três etapas concluídas que o preso vai para a audiência, de fato.

O que é audiência de custódia?

A audiência de custódia foi instituída pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e tem duas finalidades principais: analisar a necessidade da prisão imediata e verificar se houve violência policial. É o que explica Antônio Elson Queiroz Bezerra, coordenador administrativo da Audiência de Custódia Campo Grande.

“A finalidade desta audiência é em primeiro lugar enxugar a massa carcerária. Antes dela muitos presos ficavam presos no ‘regime fechado’ vários meses até passar por uma audiência e quando julgado, dependendo do delito cometido, pegava um regime menos gravoso do que o fechado, desta forma ele ficava praticamente cumprindo uma pena em um regime mais rigoroso do que de sua pena natural, semiaberto ou aberto”.

Antônio Elson

Quando o preso chega a sala de audiência, o juiz de plantão naquele dia já tem todo o relatório policial, psicossocial e médico em mãos. Por isso, consegue analisar as provas do crime e também que houve algum tipo de violência policial.

Com todas as informações analisadas, decide quem fica preso ou paga fiança para ter liberdade. O juiz também pode determinar medidas cautelares e até tratamentos, conforme a necessidade identificada lá na entrevista social.

Foi o que a Primeira Página presenciou.

O crime analisado era de estupro. A vítima, uma garota de programa que chamou a polícia e acusou um suposto cliente do crime sexual.

O homem foi preso. Ele já tinha passagens por violência doméstica contra uma antiga companheira e por isso, o Ministério Público pediu que ele continuasse na cadeia. O magistrado, no entanto, não encontrou na investigação indícios suficientes para isso.

Em depoimento, o homem contou que se desentendeu com a profissional do sexo bem depois do fim do encontro e que estava em uma lanchonete com a vítima quando foi preso.

Apesar de concordar com a defensoria pública que não tinha como manter o suspeito na prisão e que o caso demandava melhor investigação, o juiz aplicou medidas cautelares:

  • Tornozeleira eletrônica
  • Recolhimento noturno
  • Proibição de frequentar bares de qualquer natureza
  • Afastamento da vítima (presencial ou virtual)
  • Curso reflexivo organizado pela equipe de comportamento e monitoramento dos custodiados, com presença em 16 reuniões voltadas a prática de crimes contra a mulher.
  • Tratamento psicológico para entender o comportamento e possíveis perfil de desrespeito à mulher no CAPS III, que é específico para transtornos mentais.


“Seu histórico é horroroso. Mas o senhor vai ter uma oportunidade. Aparentemente o senhor tem algum problema com mulheres. Seu histórico nos acende um sinal grande de alerta. Mas temos que olhar o que temos agora. O senhor tá tento uma nova chance”.

Juiz plantonista

Outra questão importante nas audiências, como reforça Antônio Elson, é verificar se houve violência ou abuso de autoridade. “Aproveitando assim, algum vestígio da agressão por ocasião do exame de corpo de delito”.

Se foi comprovado qualquer tipo de agressão, o próprio juiz determina o envio de uma cópia integral do auto de prisão ao GACEP (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial) – órgão do Ministério Público Estadual para apuração dessa suposta violência policial – e também a corregedoria onde o policial suspeito do crime é lotado.

Depois de tudo isso, quem ganha a liberdade, a porta de saída é a do próprio fórum. Para quem tem a prisão preventiva decretada, o caminho é um dos presídios da capital.

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Comentários (1)

  • Margareth conceição do Nascimento

    Boom dia
    Creio não ser bom assim,meu filho está preso a 5 meses em 2 irmão do Buriti..e até agora não saiu a conclusão da perícia da quantidade de droga …e é uma dificuldade para eu ir lá…ele é dependente e réu primário ?

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