Pena de morte em praça pública: como eram as execuções que marcaram Cuiabá
Por volta de 1800, ao menos quatro pessoas foram condenadas a morte na capital mato-grossense. O Primeira Página conversou com o mestre em história pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Lauro Portela, sobre os casos.
A pena de morte, também conhecida como pena capital, atualmente é proibida no Brasil pela Constituição Federal de 1988, exceto em casos de guerra declarada, conforme os termos da legislação militar. Contudo, há quase 200 anos, essa punição era aplicada em território nacional e Cuiabá chegou a ter registros de condenados à execução.
Documento importante para a História de Mato Grosso, “Os Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá” mostra que, em 1800, durante a execução e depois decapitação de 4 réus, aquela era a segunda vez que a população cuiabana assistia àquele “espetáculo” desde a fundação da Vila.

Ao Primeira Página, o mestre em história pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Lauro Portela, explicou que quando ocorriam as famosas “execuções em praça pública”, a população era avisada previamente pelas autoridades.
A sentença era lida em voz alta juntamente com o crime cometido. Não é possível precisar a quantidade de pessoas que paravam para ver. No entanto, estes atos públicos eram ‘espetáculos’ para servirem de exemplo. Numa vila pacata no meio da América do Sul, provavelmente, tirava a rotina das pessoas e o boca a boca, além dos editais pregados nas portas de prédios públicos e igrejas serviam para informar sobre execuções.
De acordo com o pesquisador, o condenado à morte vestia uma túnica branca e era acompanhado por irmandades, como a de São Miguel Arcanjo e Almas, e a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, que faziam a leitura de salmos fúnebres.
“O objetivo era pedagógico, não desafiar o poder da Coroa, seja ela Portugal, ou, depois, o Império do Brasil”, acrescentou.
Como funcionava a pena de morte
Para entender como era aplicada a pena de morte, é preciso entender como operava o direito naquela época. Segundo Portela, o período Colonial era regido pelas Ordenações Filipinas, que eram a base legal do direito português e também das colônias na América.
Em 1830, o Livro V foi substituído pelo Código Criminal do Império. Essas legislações detalhavam os rituais que antecediam e deveriam acontecer durante a execução das penas capitais.
⚖️📜 Crimes passíveis de pena capital nas Ordenações Filipinas
As Ordenações Filipinas listavam dezenas de crimes puníveis com a morte. Eles podem ser agrupados em quatro grandes categorias:
Crimes contra o rei e o Estado
Atos de lesa-majestade, traição e outros crimes que ameaçavam a ordem política e a autoridade real eram considerados os mais graves e punidos com morte.
Crimes contra a fé católica
Em Portugal — e também no Brasil Império — vigorava o instituto do Padroado, que não separava Igreja e Estado. Crimes de heresia e blasfêmia eram, portanto, também crimes do Estado.
Crimes de sangue
Assassinatos — agravados quando cometidos por tocaia — e o que hoje se chama de latrocínio (roubo seguido de morte), entre outros crimes violentos com resultado morte.
Crimes morais
Incluíam estupros, sodomia (conjunção carnal anal) e práticas sexuais consideradas não procriativas — condutas vistas como atentatórias à moral cristã da época.
Maioria dos condenados era pobre
Entretanto, na prática, a força da lei não valia igualmente a todos. Conforme o pesquisador, em Mato Grosso, os escravizados e os pobres eram os principais executados. Já os membros da elite, raramente passavam pela punição que custava a vida.
“Não conheço um trabalho sobre o perfil dos executados em Mato Grosso, porém, eram raros os nobres ou aqueles chamados “homens bons”, as pessoas de posse, executados. Era algo tão raro que aqueles que ocorreram ficaram marcados”, descreveu Portela.
Já os executados em 28 de maio de 1800, em Cuiabá, por exemplo, tiveram seus nomes registrados.
🪦📜 Executados em Cuiabá — 28 de maio de 1800
Os condenados à morte nesta data deixaram seus nomes registrados na história. Conheça quem eram e os crimes pelos quais foram executados.
Domingos Teixeira e José Caetano
Pilotos do caminho — provavelmente atuantes na rota das monções —, os dois foram executados por assassinar o cirurgião Francisco de Paula Azevedo.
João Rodrigues, o “Surdo”
Conhecido apenas por sua alcunha, foi executado pelo assassinato de José Barbosa Lima, cometido no sítio do Quilombo — localidade que provavelmente corresponde ao atual Bairro do Quilombo, em Cuiabá.
Manuel Nunes Martins
Escravizado, foi executado pelo assassinato de uma mulher preta — provavelmente livre, pois não é referida como escrava nos registros. O nome da vítima não foi registrado, apagado pela condição de pobreza que a tornava invisível aos olhos da documentação oficial.
Quem condenava?
Lauro explicou que, com base nas Ordenações Filipinas, uma Junta de Justiça formada pelo governador, pelo ouvidor/juiz de fora e o provedor da Fazenda, definia o destino de quem cometesse crime grave.
“Estes homens eram os olhos e ouvidos do rei e agiam em nome dele. Temos que ter em mente que uma Vila portuguesa nessa parte mais central da América do Sul não era um lugar fora do alcance dos poderes da Coroa. Todo arcabouço legal e institucional português funcionava plenamente em Cuiabá”, citou.
Sentenciado o criminoso, o próximo passo era a execução aos olhos do público.
Locais de execuções
De acordo com o documento Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá cita o lugar da execução de 1800 como sendo o Largo entre a entrada da Vila e o caminho para o Porto Geral. Segundo o historiador Lauro Portela, existem muitos indicativos que levam a crer que é na atual Praça Ipiranga.

Ele explicou que, na Avenida Generoso Ponce, passava um córrego que desaguava na Prainha, hoje canalizada e soterrada. Chamado de córrego Cruz das Almas, teria recebido o nome em alusão à Irmandade Cruz das Almas.
Ligada à Igreja a entidade prestava conforto espiritual aos condenados e os acompanhava durante a “caminhada para a morte”, que iniciava desde a cadeia, que ficava no porão do Senado da Câmara do Cuiabá, onde hoje é o prédio dos Correios na atual Praça da República.
De lá, os condenados caminhavam até o cadafalso, no Largo, onde eram enforcados.
Posteriormente, o Campo d’Ourique também foi usado como praça de execução, chamado de “Largo da Forca”. Hoje é a Praça Pascoal Moreira Cabral, onde, em 1909, Marechal Candido Rondon definiu o local como centro geodésico da América do Sul.

Métodos de execução
Embora não se tenha notícia de um trabalho sistemático sobre as execuções em Cuiabá, conforme os documentos lidos pelo historiador, o método mais comum utilizado para as execuções em Cuiabá era a forca. “A forca era tido como um método mais humano”, narra.
Após a morte, o corpo era decapitado e a cabeça era enviada ao local onde ocorreu o crime, como um “recado” para quem tentasse algo semelhante.

O fim da pena de morte
A pena de morte para crimes civis comuns foi abolida apenas em 1890, na República, com o Código Criminal da República. Durante o Império, a última execução ocorreu em 1876. Foi a execução de um escravo chamado “Francisco” por um duplo homicídio que ele cometeu em Alagoas, em 1874.
Na prática, a última execução pública foi em 1876, no Rio de Janeiro. Portanto, embora fosse legal, as execuções públicas não eram tão comuns e foram se escasseando durante o governo de Dom Pedro II.
Já em Mato Grosso, este ainda é um trabalho de pesquisa a ser realizado, pois os registros estão espalhados por diferentes fundos, principalmente, no Arquivo Público.
“É possível que ao longo da primeira metade do século XIX, as execuções tenham ficado cada vez mais escassas, até desaparecerem”, concluiu o pesquisador Lauro Portela.
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