PF cita em decisão do STJ diálogo que indicaria resultado antecipado de julgamento no TJMT
Investigação aponta que interlocutores discutiam medida judicial antes do desfecho do processo, segundo decisão do STJ.
Um diálogo analisado pela Polícia Federal e citado na decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) é apontado pelos investigadores como um dos elementos que levantaram suspeitas sobre a existência de um suposto esquema de venda de sentenças em Mato Grosso.
O trecho consta na decisão do ministro João Otávio de Noronha que embasou a Operação Gemini, deflagrada pela Polícia Federal na segunda-feira (8). Obtido pelo Primeira Página, o documento detalha os indícios reunidos durante a investigação e que motivaram a autorização de buscas e apreensões, quebras de sigilo e acesso a dados digitais dos investigados.
Segundo a Polícia Federal, mensagens extraídas durante a investigação indicariam que pessoas ligadas ao caso teriam conhecimento prévio sobre o desfecho de um julgamento relacionado a uma disputa fundiária que tramita no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT).
Trecho da decisão do STJ cita diálogo analisado pela Polícia Federal.
De acordo com a decisão, um dos diálogos analisados pelos investigadores menciona a necessidade de “organizar” um efeito suspensivo em processo que envolvia a Gleba Santo Expedito, área rural localizada no município de Cláudia.
Segundo a decisão do STJ, os investigadores apontam que o advogado Bruno Oliveira Castro teria solicitado a um interlocutor identificado pelas iniciais R.Z. atuação junto a desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso para obtenção de uma liminar e de um julgamento favorável. Na sequência, R.Z. teria acionado o empresário Luciano Cândido Amaral para que ele “organizasse” o efeito suspensivo. O que levantou suspeitas, segundo a PF, é que a liminar acabou sendo concedida no dia seguinte à troca de mensagens, nos termos pretendidos pelos envolvidos na conversa.
Para a Polícia Federal, um dos elementos mais relevantes da investigação é uma conversa travada dois dias antes do julgamento entre Faissal Calil e um interlocutor identificado como R.Z., que, segundo a decisão do STJ, indicaria possível conhecimento prévio do resultado favorável que seria posteriormente proferido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Veja abaixo:
Trecho da decisão do STJ cita diálogo que, segundo a PF, sugeriria conhecimento antecipado de resultado favorável.
A sequência dos fatos e o conteúdo das conversas levantam suspeitas sobre possível articulação prévia envolvendo o resultado de decisões judiciais. O material foi utilizado como um dos fundamentos apresentados ao STJ para justificar as medidas cautelares autorizadas durante a operação.
Conversas estão entre os indícios analisados
Na decisão, o ministro João Otávio de Noronha ressalta que os diálogos não são analisados isoladamente, mas em conjunto com outros elementos reunidos ao longo da investigação.
Além das mensagens, a Polícia Federal aponta movimentações financeiras consideradas atípicas, relações empresariais entre investigados e transferências de recursos que, segundo os investigadores, justificam o aprofundamento das apurações sobre possíveis crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O que a decisão diz sobre Dirceu dos Santos
A decisão do STJ aponta o desembargador afastado Dirceu dos Santos como um dos investigados na apuração sobre suposta comercialização de decisões judiciais em Mato Grosso.
- PF apura possíveis crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
- Documento cita processos que tramitaram sob relatoria do magistrado.
- Investigadores apontam movimentações financeiras e patrimoniais sob análise.
- STJ autorizou buscas, quebras de sigilo e acesso a dados digitais dos investigados.
As medidas têm caráter investigativo e não representam condenação.
A investigação teve origem em uma denúncia encaminhada à Procuradoria da República em Rondonópolis relatando o suposto pagamento de R$ 1 milhão para obtenção de uma decisão favorável em um processo possessório envolvendo a Gleba Santo Expedito.
Operação Gemini
A Operação Gemini foi deflagrada pela Polícia Federal para cumprir mandados de busca e apreensão e outras medidas cautelares autorizadas pelo STJ.
Entre os investigados citados na decisão estão o desembargador afastado Dirceu dos Santos, o deputado estadual Faissal Calil (PL), o advogado Bruno Oliveira Castro, o empresário Luciano Cândido Amaral, além de outros integrantes do núcleo empresarial e familiar mencionado na investigação.
Além das buscas físicas, o ministro autorizou o acesso a conteúdos armazenados em plataformas digitais vinculadas aos investigados, incluindo serviços da Google, Apple e Microsoft, como e-mails, arquivos em nuvem, fotografias e vídeos.
A decisão destaca que as medidas têm caráter investigativo e foram autorizadas para aprofundar a apuração dos fatos, sem representar conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.
O outro lado
A defesa do deputado estadual Faissal Calil afirmou ter recebido a decisão com tranquilidade e destacou que a investigação está em fase preliminar. Segundo a nota, o parlamentar não recebeu vantagem indevida, não praticou ocultação patrimonial nem participou de operações de lavagem de dinheiro. A defesa também informou que nenhum item ilícito foi encontrado durante o cumprimento do mandado em sua residência e que o único objeto apreendido foi seu aparelho celular.
O advogado Bruno Oliveira Castro negou qualquer irregularidade e afirmou nunca ter praticado ato ilícito no exercício da advocacia. Em nota, declarou que os contatos mencionados na investigação estariam descontextualizados e disse confiar que a apuração demonstrará sua inocência.
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso informou que nenhum mandado foi cumprido na sede do Poder Judiciário e ressaltou que o processo tramita no Superior Tribunal de Justiça. Já a Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT) informou que acompanha os desdobramentos da operação e adotará as providências cabíveis.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa do desembargador Dirceu dos Santos até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestação.
O Primeira Página busca ouvir os outros citados na reportagem.
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