Promotor de Justiça mostra carta de irmã e memorial de mulher trans assassinada em Cuiabá durante julgamento de acusado

Página do memorial virtual com homenagem à Gisa Ribeiro Lima, de 55 anos, foi exibida durante o júri que condenou o réu a 18 anos de prisão.

O promotor de Justiça Vinícius Gahyva exibiu, durante o julgamento que condenou Junio Santos da Silva a 18 anos de prisão pelo assassinato da mulher trans Gisa Ribeiro Lima, de 55 anos, imagens do memorial virtual ‘Em Memória Delas’, do Observatório Caliandra, para reforçar aos jurados o reconhecimento da identidade de gênero da vítima e o contexto de discriminação que envolveu o crime.

Gisa Ribeiro Lima, de 55 anos, teve a história lembrada durante o júri por meio do memorial "Em Memória Delas", do Ministério Público de Mato Grosso.
Gisa Ribeiro Lima, de 55 anos, teve a história lembrada durante o júri por meio do memorial “Em Memória Delas”, do Ministério Público de Mato Grosso. – Foto: MP/Reprodução

Gisa integra a exposição criada pelo Ministério Público de Mato Grosso para homenagear vítimas de feminicídio e de violência de gênero. Durante a sustentação no Tribunal do Júri, realizada nesta terça-feira (5), Gahyva projetou aos jurados a página dedicada à vítima, que reúne uma foto, um relato da irmã e um texto sobre sua trajetória.

No depoimento publicado no memorial, a irmã de Gisa descreve a vítima como uma mulher que enfrentou preconceitos ao longo da vida, mas que permaneceu forte diante das dificuldades.

“Você lutou tanto para ser quem realmente era, carregando no peito a dor de um mundo que muitas vezes não soube te acolher (…). Hoje, você finalmente está em paz, livre de qualquer julgamento”, diz um trecho da homenagem.

Promotor exibiu aos jurados a página do memorial "Em Memória Delas", que reúne a história de Gisa Ribeiro Lima e homenagens da família.
Promotor exibiu aos jurados a página do memorial “Em Memória Delas”, que reúne a história de Gisa Ribeiro Lima e homenagens da família. – Foto: MP/Reprodução

Ao apresentar as imagens, o promotor afirmou que a presença de Gisa na exposição reforça o entendimento do Ministério Público de que ela deve ser reconhecida como mulher, aspecto central para o enquadramento do caso como homicídio praticado por razões da condição do sexo feminino.

“Isso reforça a posição do Ministério Público em reconhecê-la como mulher”, afirmou Gahyva durante o julgamento.

Página do memorial foi apresentada aos jurados durante o julgamento.
Página do memorial foi apresentada aos jurados durante o julgamento. – Foto: MP/Reprodução

Além de Gisa, o memorial reúne histórias de outras vítimas de feminicídio em Mato Grosso. Entre elas está Raquel Maziero Cattani, de 26 anos, assassinada a facadas em julho de 2024, na zona rural de Nova Mutum. Pelo crime, o ex-marido dela, Romero Xavier Mengarde, foi condenado a 30 anos de prisão por planejar o homicídio, enquanto o irmão dele, Rodrigo Xavier Mengarde, recebeu pena de 33 anos, 3 meses e 20 dias de reclusão por executar o assassinato e cometer furto.

Também integra a exposição Emelly Beatriz Azevedo Sena, de 16 anos, morta em Cuiabá. Segundo a investigação, a adolescente foi atraída até uma casa no bairro Jardim Florianópolis pela suspeita Nataly Helen Martins Pereira, sob o pretexto de receber doações de roupas para bebê, onde o crime foi cometido.

Condenação

Os jurados condenaram Junio Santos da Silva a 18 anos de reclusão, em regime inicial fechado, ao reconhecerem todas as qualificadoras apontadas pela acusação: motivo torpe, asfixia, emprego de meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e homicídio praticado por razões da condição do sexo feminino, em contexto de discriminação contra uma mulher trans.

Segundo a denúncia, Gisa foi assassinada na madrugada de 7 de abril de 2024, em um terreno baldio na Rua Professora Tereza Lobo, no bairro Consil, em Cuiabá. Ela sofreu diversos golpes na cabeça e foi asfixiada.

Na sentença, a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira determinou a execução imediata da pena e manteve a prisão do condenado, que já estava preso preventivamente desde novembro de 2024, negando o direito de recorrer em liberdade.

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