STF dá prazo para Congresso criar lei sobre mineração em terras indígenas
Decisão do ministro Flávio Dino estabelece regras provisórias e afeta a Terra Indígena Roosevelt, em Juína.
A exploração mineral em terras indígenas voltou ao centro do debate no Congresso Nacional após uma decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que determinou o prazo de 24 meses para que o Congresso Nacional elabore uma lei específica sobre o tema. A medida tem impacto direto em Mato Grosso, especialmente em áreas marcadas por conflitos históricos envolvendo mineração.
A decisão foi tomada em caráter cautelar a partir de um pedido apresentado por uma entidade indígena do povo Cinta Larga, que vive na região de divisa entre Mato Grosso e Rondônia. No entendimento do ministro, o Legislativo foi omisso ao longo dos anos diante dos conflitos gerados pela exploração mineral em terras indígenas, o que justificou a intervenção do Judiciário. A determinação tem efeito imediato, embora o mérito do caso ainda deva ser analisado pelo plenário do STF.
Ao justificar a medida, Dino destacou que a proteção aos direitos indígenas deve ser ainda mais rigorosa do que aquela prevista em normas comuns do direito civil. Para o ministro, se até o direito de vizinhança impõe limites para evitar prejuízos entre particulares, a salvaguarda dos direitos constitucionais dos povos indígenas exige um nível de proteção muito mais elevado.
Em Mato Grosso, a decisão afeta diretamente a Terra Indígena Roosevelt, em Juína (MT). A área abriga o chamado Kimberley to Roosevelt, considerada uma das maiores jazidas de diamante do mundo, e há décadas enfrenta invasões e exploração ilegal. Mesmo nos casos em que haja autorização das comunidades indígenas, a decisão do STF limita a mineração a, no máximo, 1% do território demarcado.
Além da restrição territorial, a medida determina que órgãos federais intensifiquem a fiscalização de qualquer atividade mineral na região. O Supremo também estabeleceu regras provisórias que deverão ser seguidas enquanto o Congresso não aprova uma legislação específica, entre elas a garantia de que as comunidades indígenas participem dos ganhos financeiros provenientes da exploração mineral.

Durante audiência pública realizada no STF em março de 2025, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas reforçou que a preservação das terras indígenas não depende apenas da proteção interna dos territórios já demarcados, mas também do controle e da fiscalização das áreas ao redor, frequentemente utilizadas como porta de entrada para atividades ilegais.
A decisão reacende o debate sobre o equilíbrio entre exploração econômica, proteção ambiental e os direitos dos povos indígenas, ao mesmo tempo em que pressiona o Congresso a avançar em uma regulamentação aguardada há décadas.
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