Um ano sem Emelly: bebê retirada à força do ventre de adolescente assassinada vive com a avó
Crime brutal que chocou o país completa um ano nesta quarta-feira (12). Enquanto a acusada permanece presa, família da vítima aguarda decisão da Justiça e cria a bebê que sobreviveu ao ataque.
Há exatamente um ano, em 12 de março de 2025, um crime de extrema violência chocou Mato Grosso e ganhou repercussão nacional. A adolescente Emelly Azevedo Sena, de 16 anos, grávida de nove meses, foi atraída até uma casa em Cuiabá com a promessa de receber roupas doadas para o bebê. No local, foi assassinada e teve a filha retirada do ventre.
A acusada pelo crime é Nataly Helen Martins Pereira, atualmente com 26 anos, que permanece presa na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto, na capital mato-grossense, enquanto aguarda pelo julgamento, ainda sem previsão.

Após retirar a criança da barriga da vítima, Nataly foi até um hospital com a recém-nascida, simulando ter acabado de dar à luz. A atitude levantou suspeitas da equipe médica, que acionou a polícia. Horas depois, já no dia seguinte, o corpo de Emelly foi encontrado enterrado em uma cova rasa no quintal da casa da acusada.
Um ano depois, o caso ainda aguarda novos desdobramentos na Justiça. Segundo um dos advogados de defesa, Ícaro Vione, o processo foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) após o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) recorrer da decisão que anulou o júri popular.
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) havia aceitado um pedido da defesa para que fosse realizado exame de insanidade mental da acusada.
“Infelizmente não há previsão. Esse tipo de recurso é bem demorado, mas como ela está presa, entra na fila de prioridade”, afirmou o advogado ao Primeira Página.
Dor que permanece
Para a mãe da vítima, Ana Paula Meridiane, a dor da perda se mistura à angústia pela falta de uma definição judicial.
“Eu acredito na Justiça de Deus porque Ele não falha. Para mim, como mãe, não é fácil conviver com essa dor. É algo que nunca vai sair da minha mente, nunca vou esquecer. É triste ver um crime brutal como esse e não ter uma solução”, disse.
Apesar do luto, a família também encontra um motivo para celebrar: afinal, o dia 12 de março também marca a data de aniversário da filha de Emelly, que completa 1 ano de idade.
A bebê recebeu alta três dias após o crime e hoje vive com a avó materna e o pai, que compartilham os cuidados da criança.
“Ela está bem, graças a Deus, cada dia mais parecida com a mãe. Amanhã faz 1 ano que perdi minha filha e 1 ano que ganhei uma neta”, contou Ana Paula.
Relembre a cronologia do caso
16 anos, grávida, assassinada e teve o bebê retirado à força.
Atraiu a vítima, confessou ter planejado e executado o crime.
? Linha do tempo do caso
Contatos nas redes sociais
Nataly começou a procurar gestantes nas redes sociais.
Chegou a oferecer “adotar” bebês ou disse que seriam para uma amiga.
Nesse período iniciou contato com Emelly, grávida de 9 meses.
A suspeita prometeu doar roupas e enviou a localização da casa.
Emelly vai até a casa da suspeita
Câmeras registraram a adolescente caminhando até o imóvel no bairro Jardim Florianópolis, em Cuiabá.
Emelly morava em Várzea Grande.
A mãe tentou ligar várias vezes, mas as chamadas foram recusadas.
O crime
Segundo a acusada, Emelly foi desmaiada com um golpe “mata-leão”.
As mãos foram amarradas com fios de internet.
A adolescente chegou a recuperar a consciência antes da morte.
Bebê retirada do ventre
A perícia indicou que Emelly ainda estava viva quando a filha foi retirada da barriga.
Lesões em formato de “T” foram encontradas no abdômen.
O corpo foi enterrado em uma cova rasa.
Tentativa de enganar hospital
Nataly foi ao Hospital Santa Helena com a recém-nascida.
Ela simulou dores de parto em cadeira de rodas.
Exames mostraram que ela não havia dado à luz.
Corpo é encontrado
Policiais localizaram Emelly enterrada no quintal da casa.
Nataly confessou o crime.
Velório e alta da bebê
O corpo foi velado em Cuiabá com protestos.
A filha da vítima recebeu alta no dia seguinte.
Indiciamento e denúncia
A Polícia Civil concluiu o inquérito.
Nataly foi indiciada por homicídio qualificado e ocultação de cadáver.
O Ministério Público apresentou denúncia por oito crimes.
Entrevista de familiares
Ex-marido e irmão da acusada disseram não entender o motivo do crime.
Júri popular
A Justiça decidiu levar Nataly a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Júri anulado
O Tribunal de Justiça determinou exame de insanidade mental.
Parecer psiquiátrico
A defesa apresentou laudo apontando possíveis transtornos.
Um ano do crime
Nataly segue presa na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto.
O processo aguarda decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A filha de Emelly completa 1 ano de idade sob os cuidados da avó materna e do pai.
Arte: Primeira Página
Contatos pelas redes sociais
As investigações do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) apontaram que Nataly procurava gestantes nas redes sociais meses antes do crime.
Vídeos e conversas obtidos durante a investigação mostraram que ela tentava contato com mulheres grávidas e chegou a se oferecer para “adotar” bebês, alegando em alguns casos que a criança seria para uma amiga.
Entre o fim de 2024 e o início de 2025, Nataly passou a conversar com Emelly pela internet.
Segundo a família da vítima, a suspeita dizia ser mãe de dois meninos e estar esperando uma terceira filha, motivo pelo qual teria roupas e itens de bebê para doar.
Além das roupas, ela prometeu entregar um protetor de berço e enviou a localização da casa para que a adolescente buscasse os objetos. A Polícia Civil apontou ainda que Nataly chegou a pagar a corrida por aplicativo para que Emelly fosse até o local.
O dia do crime
No dia 12 de março de 2025, imagens de câmera de segurança registraram Emelly caminhando sozinha em direção à casa da suspeita, no bairro Jardim Florianópolis, em Cuiabá. A adolescente morava no bairro São Matheus, em Várzea Grande.
De acordo com a investigação, a mãe de Emelly tentou ligar diversas vezes para a filha naquele dia, mas as chamadas foram recusadas. A adolescente chegou a enviar mensagens dizendo que estava em uma corrida de aplicativo.
Segundo o relato da própria acusada à polícia, ela desmaiou Emelly com um golpe “mata-leão” e amarrou as mãos da vítima com fios de internet.
Em determinado momento, Emelly chegou a recuperar a consciência. Ainda de acordo com o depoimento da suspeita, ela teria pedido desculpas à jovem e prometido que “cuidaria bem da bebê”.
O delegado Caio Albuquerque, responsável pelo caso na época, afirmou que Nataly disse ter cometido o crime porque queria ficar com o bebê após sofrer dois abortos seguidos.
Bebê foi retirada enquanto a vítima ainda estava viva
A perícia indicou que Emelly ainda estava viva quando a filha foi retirada de seu ventre. O perito Jacques Trevizan relatou que havia lesões em formato de “T” no abdômen da adolescente.
Segundo a análise, sacolas plásticas foram usadas para abafar os gritos da vítima, que acabou morrendo por perda de sangue. Depois do crime, o corpo foi enterrado em uma cova rasa no quintal da residência.
Tentativa de enganar o hospital
Ainda no mesmo dia, Nataly foi até o Hospital e Maternidade Santa Helena, em Cuiabá, levando a recém-nascida. Imagens registraram a mulher sendo empurrada em uma cadeira de rodas enquanto simulava sentir dores de parto. Ao lado, uma acompanhante carregava a bebê.
A equipe médica estranhou a situação e acionou a polícia. A mãe de Emelly, que havia registrado um boletim de ocorrência relatando o desaparecimento da filha grávida, também foi até o hospital, após a polícia indicar que o caso poderia estar relacionado à adolescente. Exames realizados na unidade constataram que Nataly não havia passado por parto recentemente.
Enquanto isso, o então marido da acusada chegou a publicar nas redes sociais uma foto da recém-nascida com a legenda: “Bem-vinda, minha filha”.
Corpo foi encontrado no dia seguinte
No dia 13 de março, policiais localizaram o corpo de Emelly enterrado no quintal da casa da suspeita, com sinais de estrangulamento com fios de internet e cortes na barriga.
Nataly, o então marido, um amigo e o irmão dela foram levados à delegacia para prestar esclarecimentos. A acusada confessou ter cometido o crime sozinha e os três homens foram liberados após os depoimentos.
Velório e protestos
O corpo da adolescente foi velado em 14 de março, em Cuiabá. Durante o velório, familiares e amigos protestaram contra o crime e exibiram cartazes pedindo justiça.

No dia 15 de março, a filha de Emelly recebeu alta médica e passou a viver com a avó materna e o pai, que dividem a guarda atualmente.
Denúncia por oito crimes
O inquérito foi concluído em 24 de março, e Nataly foi indiciada por homicídio quadruplamente qualificado e ocultação de cadáver.
Dois dias depois, o Ministério Público denunciou a acusada por oito crimes:
- feminicídio
- tentativa de aborto
- subtração de recém-nascido
- parto suposto
- ocultação de cadáver
- fraude processual
- falsificação de documento particular
- uso de documento falso
Para o promotor Rinaldo Segundo, o crime caracteriza feminicídio porque a vítima foi tratada “como um mero objeto reprodutor”.
Familiares da acusada
Em 15 de abril de 2025, a TV Centro América exibiu com exclusividade uma entrevista com o então marido de Nataly, Christian Albino Cebalho de Arruda, e com o irmão dela, Cícero Martins Pereira Junior.
Christian afirmou não entender o motivo para a ex-mulher ter cometido o crime. “Era uma pessoa boa para todo mundo, brincalhona, um ser humano normal. Me pergunto todo santo dia: por que a Nataly fez isso?”, disse.
Já o irmão da acusada afirmou que nunca imaginou que ela seria capaz de cometer um crime tão violento.
“Era uma pessoa muito carinhosa e carismática. Nunca imaginei que poderia ser capaz de fazer uma coisa tão bárbara. Imagino a dor da família da vítima e peço em oração que Deus conforte o coração deles. Nada que for feito vai trazer a vida da Emelly de volta”, afirmou.
Defesa tenta provar insanidade mental
Em julho de 2025, a Justiça determinou que Nataly fosse levada a júri popular. No entanto, em novembro, a decisão foi anulada após a 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça aceitar o pedido da defesa para instaurar um exame de insanidade mental.
No mesmo mês, o MPMT entrou com recurso especial contra a decisão de anulação e contestou o pedido de exame.
Em 20 de janeiro de 2026, os advogados apresentaram um parecer psiquiátrico para reforçar o pedido.
O documento aponta possíveis diagnósticos, entre eles:
- transtorno psicótico relacionado ao uso de substâncias
- transtornos psicóticos agudos e transitórios
- transtorno de personalidade borderline
Segundo o laudo, familiares relataram que Nataly apresentava desde a infância pensamentos fantasiosos e comportamento considerado difícil.
Durante entrevistas clínicas, a acusada afirmou ouvir vozes e disse acreditar que estaria “possuída”.
Os peritos, porém, ressaltaram que é necessário aprofundamento pericial para determinar se havia ou não transtornos mentais capazes de afetar sua responsabilidade criminal.
Caso a insanidade mental seja comprovada, a acusada poderá cumprir medida de segurança fora de um presídio comum.
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