Viúva de PM morto em conveniência pede por justiça após júri adiado

Para Walkuiria, todos esses recursos e adiamento do juri causa um desânimo e descrença já justiça.

Familiares do policial militar Thiago de Souza Ruiz, morto a tiros em uma conveniência próximo da praça 8 de abril, pelo policial civil Mario Wilson Vieira da Silva Gonçalves, continuam pedindo que a justiça seja feita e o caso seja julgado. O júri do policial foi adiado ao menos quatro vezes.

Ao Primeira Página, Walkiria Corrêa, viúva de Thiago Ruiz e investigadora de polícia, contou que os dois foram casados por quase 11 ano e tiveram uma filha. Ela disse ainda que conheceu o marido antes dele se tornar policial e que Thiago sempre honrou a farda. 

“O Thiago tinha sofrido um acidente de carro em serviço na época que estava na P2 e lhe deu uma cicatriz na barriga. E essa cicatriz que ele foi mostrar para o Mário, que segundo depoimento, estava alcoolizado desde às 18h. Já o Thiago saiu de casa por volta de meia-noite. Ele não queria ir. Ele cancelou o Uber três vezes. E parecia que ele estava sentindo algo estranho”, contou ela.

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 Thiago de Souza Ruiz foi morto por ao menos 7 tiros em uma conveniência. Foto: Arquivo Pessoal

Na época, Thiago estava passando por alguns problemas de saúde, inclusive depressão, devido à perda recente do pai, e foi chamado até a conveniência por outro policial civil que sabia que Thiago era PM. 

“Todo policial espera ser alvejado em combate por um inimigo, por quem ele tem que combater. A gente não tá aqui para matar polícia. Quando eu cheguei no hospital, a médica me disse assim: ‘Ele queria viver. Eu tentei reanimar ele por muito tempo, mas eu tô exausta, eu não consegui’”, afirmou.

Ainda no hospital, Walkiria descobriu que o marido havia sido atingido por 7 disparos de arma de fogo. Sendo três no peito, um na mão e dois tiros nas costas, em uma tentativa de fugir dos tiros. 

“Eu vou parafrasear o juiz de primeiro que recebeu a denúncia. O doutor, disse assim: ‘Foi um exibicionismo de machismo’. O Mário dizia você se for PM, todo PM é um merda. Todo PM é vagabundo”. Tiago nunca foi vagabundo”, relembra Walkiria. 

Ela explica que neste caso a legítima defesa é uma causa excludente, já que o policial civil estava de pé com duas armas e que a única reação do Tiago foi tentar dar um mata-leão para tentar desarmar o Mário, já que segundo Walkiria, essa é a intenção de um policial, que age num momento de crise.

“Eu tenho uma filha de 13 anos com ele, na época ela tinha 10. Eu comi o pão que o diabo amassou. Dentro de todos os lugares que você possa imaginar. Trabalho, família, amigos, fofocas, mentiras. Eu busco pela justiça. Tive vontade de fazer algo quando vi minha filha chorando várias e várias vezes, a minha filha mandava mensagem para o pai, no WhatsApp, até o dia em que o WhatsApp dele foi desligado. Ela dizia: ‘Papai, fala comigo’, contou emocionada.

Mário ficou preso 4 meses e foi solto por uma pelo Tribunal Justiça através de um habeas corpus. Na sequência, ele foi entrando com diversos recursos, até que por unanimidade foi levado a júri. 

Linha do tempo do júri

Caso com sucessivos adiamentos e nova data marcada para 15 de dezembro de 2025.

Crime: 27 de abril de 2023

4 de julho de 2025

Primeiro júri marcado pelo Tribunal de Justiça. Sessão acabou não ocorrendo porque o promotor não poderia atuar.

1

25 de junho de 2025

Júri foi antecipado para o plenário da Justiça Militar. Defesa pediu redesignação por conflito de agenda.

2

7 de outubro de 2025

Terceiro júri marcado no Fórum da Capital. Sessão não ocorre após renúncia dos advogados do réu.

3

30 de outubro de 2025

Júri remarcado para 28 de novembro de 2025. Audiência adiada porque o novo advogado estaria de férias.

4

15 de dezembro de 2025

Nova data do júri. Juíza comunica que a Defensoria deverá comparecer para garantir a defesa caso o advogado do réu não esteja presente.

5

Em decisão, a juíza Monica Catarina Perri Siqueira afirmou que “a nomeação da Defensoria Pública não viola o direito do acusado à escolha de advogado de sua confiança, tampouco usurpa as atribuições do defensor constituído. Trata-se de medida acautelatória que apenas garante a continuidade do ato caso sobrevenha nova renúncia próxima à data do julgamento, situação que o histórico processual indica como provável”.

Para Walkiria, todos esses recursos e adiamentos do júri causa um desânimo e descrença na justiça, já que a família espera por tanto tempo para que isso aconteça. “Eu consigo imaginar que ele talvez esteja com medo de cumprir uma pena, se é que ele vai cumprir e está fugindo da responsabilidade, inclusive, sendo um policial”, contou.

Ela conta que ainda Mário trabalha a 200 metros da casa dela, na Polícia Civil, e que ela e a filha sofrem com essa proximidade. Walkiria já fez boletim de ocorrência e pediu para que ele fosse transferido, o que não aconteceu, fazendo com que ela veja o policial toda semana. 

“Hoje eu tenho a síndrome do pânico e depressão, não tenho mais uma vida que eu tinha antes. Eu estou afastada para cuidar de mim, mas eu não consigo enquanto a justiça não for feita, eu clamo pela condenação do Mário Wilson. Um policial precisa ter uma conduta diferente. Naquela situação ele não se preocupou com as câmeras, com os presentes, apenas com o ego dele e um ódio que eu não sei da onde ele tirou”, conta. 

Ela ainda afirma que quem sofre com essa situação são os entes queridos, que ficam sem assistência do estado, que não é capaz de ser célere e levar a sério a vida de uma pessoa. Walkiria atua como assistente de acusação e tem sua defesa realizada pelo advogado Rodrigo Pouso.

Como forma de protesto, familiares de Thiago vão fazer uma vigília no domingo (14), às 17h na Praça Santos Dumont.

“Deus é maior e a justiça vai ser feita, eu acredito muito, porque eu vou até o fim para que a justiça seja feita. Pela minha filha e pela pessoa com quem eu vivi, pela minha sogra, por todos que estamos sofrendo. Como o Tiago tá em um caixão, ele também tem que estar em uma cadeia, que é o lugar dele”, finalizou.

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