"A xenofobia saiu do armário", diz Oscar Nakasato na Flib 2026
O escritor é autor da trilogia formada por "Nihonjin" e vencedor do Prêmio Jabuti de melhor romance
O escritor Oscar Nakasato, autor da trilogia formada por “Nihonjin”, vencedor do Prêmio Jabuti de melhor romance, “Dois” e “Ojiichan”, conversou com o público da Flib 2026, nesta quinta-feira (9), sobre migração, xenofobia e a complexidade de construir uma identidade nikkei no Brasil.

Nakasato explicou que os três romances, embora independentes, dialogam entre si. “Nihonjin” acompanha a imigração japonesa para o Brasil; “Ojiichan”, o mais recente, trata da terceira idade; e “Dois”, o do meio, segundo o próprio autor, é “o filho do meio de quem todos esquecem”. “São livros com temáticas diferentes, embora o primeiro e o terceiro falem da comunidade nipo-brasileira mais diretamente”, disse.
“Nihonjin” acompanha a saga de Hideo Inabata, imigrante orgulhoso de sua origem que desembarca no Brasil no início do século 20 para trabalhar nas lavouras de café do interior de São Paulo — romance que rendeu a Nakasato o Prêmio Benvirá, o Prêmio Bunkyo e o Jabuti, além de uma adaptação para longa-metragem de animação.
Já “Dois” muda de registro e de época: o livro é narrado por dois irmãos idosos, Zé Paulo e Zé Eduardo, com vozes e temperamentos opostos. Enquanto o mais velho permanece a vida inteira em Maringá, o mais novo migra para São Paulo, entra para a guerrilha urbana durante a ditadura militar e é exilado — o reencontro entre os dois, já na velhice, expõe o quanto a aproximação afetiva entre eles se tornou impossível.
Em “Ojiichan” — que significa “avô” em japonês —, Nakasato acompanha a vida de Satoshi a partir da aposentadoria compulsória, aos setenta anos. Enquanto colegas e alunos celebram sua despedida, ninguém percebe a dor da mudança de rotina; em casa, ele passa a cuidar da esposa Kimiko, cuja memória se deteriora, e sua rotina se redesenha com a chegada de novos vizinhos e de uma cuidadora. Escrito numa prosa contida, o romance propõe a velhice não como fim de linha, mas como um caminho ainda a ser percorrido.

Migração e o que “saiu do armário”
Para o autor, o tema da imigração, central em “Nihonjin”, segue atual. “Esse tema da migração é um tema que está em pauta no mundo todo. A xenofobia eu não acho que tenha voltado, mas acho que saiu do armário em muitos lugares. É importante a gente conversar sobre migração”, afirmou, estendendo a reflexão para além da comunidade japonesa: “o tema se estende para todas as migrações existentes.”
A mediadora Karina Kristiane Vicelli compartilhou sua própria experiência de identidade, neta de avó indígena e avô japonês, e de ascendência polonesa e italiana por parte de pai, para perguntar sobre a construção identitária dos personagens de “Nihonjin”. Nakasato respondeu apontando uma diferença histórica na experiência migratória japonesa no Brasil: diferentemente de italianos e alemães, que compartilhavam religião e uma língua mais próxima do português, os imigrantes japoneses viveram durante décadas em relativo isolamento, com pouco contato com outros grupos da sociedade brasileira, o que, segundo ele, tornou a formação da identidade nipo-brasileira um processo particularmente complexo.
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