Cultura popular de Campo Grande é a inspiração do livro Ibirocai

A obra Ibirocai de Leonn Gondin foi lançada em 2017, financiada pelo Fundo Municipal de Investimento à Cultura, e entregue em todas as bibliotecas das escolas da Capital

“Eu vi, eu e mais dois piá, a noite tava quente e estrelada, os insetos tudo inquieto, mas nós não parava pra escutar, a gente ria sem parar, até, até o assobio, assubiá, fui eu que ouvi primeiro e fiz eles tudo aquietar, o barulho foi longo e agudo, assustei de arrepiar, os matos se mexeram, nossos olhos tudo arregalou, os insetos, os insetos aquietaram, mas o coração, o coração acelerou, nós vimos as oreias do bicho, era arto pra danar, pois nós tudo a disparar, mas quando olhamos pra trás, meu primo ainda tava lá, já dizia a minha avó que esse bicho podia hipnotizar”.

Trecho do livro Ibirocai, de Leon Gondin

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Autor do livro, Leon Gondin (Foto: Arquivo Pessoal)
Autor do livro, Leon Gondin (Foto: Arquivo Pessoal)

Esse é um trecho do livro “Ibirocai”, do autor Leonardo Vieira, artisticamente conhecido como Leon Gondin. Ele é um apaixonado pelo folclore brasileiro que decidiu se aprofundar nos estudos da cultura popular de Campo Grande. A linguagem é envolvente e muito divertida, voltada para as crianças.

Questionado sobre o título da obra, Leon explica se tratar de uma referência à cultura indígena Guarani, muito presente no estado. “A gente usa essa terminologia Ibirocai, que significa águas que rolam, para fazer uma referência à cidade de Campo Grande na época do seu desenvolvimento, que foi a partir dos córregos prosa e segredo. Então nós trazemos essa referência tanto para valorizar a cultura indígena, quanto para mostrar o desenvolvimento dessa cidade, que a partir dessa cultura indígena que já estava por aqui, outras culturas vieram e somaram. E hoje a gente tem essa terra multicultural e linda para se viver”.

O livro foi lançado em 2017, financiado pelo Fundo Municipal de investimento à Cultura, e entregue para todas as bibliotecas das escolas municipais e estaduais de Campo Grande.

“Eu li, quando era garotinha, que numa fazenda de Campo Grande, tinha um menino que mentia. Um livrinho bem antigo, das páginas amarelas, que conta a lenda do Saci e suas gambiarras. Lia antes de dormir essa história de dar medo, do gurizinho peralta que não sabia guardar segredo. Caco era pequeno, mas não se fazia demorar; quando ouvia prosa alheia, ia ligeiro espalhar. Que nem quando viu a moça Chica namorar, foi logo contando pro pai dela e não é que fez a menina apanhar?”

Trecho do livro Ibirocai, de Leon Gondin

São quatro histórias com referências da cultura campo-grandense, uma delas fala do tereré.

“A partir dessas pesquisas, descobri esses detalhes curiosos sobre a cultura daqui, como por exemplo, o momento do tereré, qual que seria. O momento onde a maioria das pessoas está bebendo esse tereré pra gente poder colocar como referência no livro. Em Campo Grande, é muito forte a relação do tereré tomado somente com água. Lá na minha cidade, eles têm mais costume de tomar com suco de limão, e o suco de limão doce. Então, quando eu cheguei aqui e vi o pessoal tomando só com água, eu falei, gente, como assim vocês conseguem tomar isso só com água? É muito mais gostoso com suco. E aí, todo mundo, Deus me livre! Como assim você tá tomando tereré com suco doce? Não! Não é assim. Então, acaba sendo uma prática que em cada lugar você vai encontrar um jeito diferente de ser, um jeito diferente de se experimentar. E eu acho isso muito rico, né? Porque cada lugar tem a sua história”, comenta o autor.

“Tava com medo, apavorado só queria poder fugir, mas meu primo abestalhado não conseguia correr dali. Nós teve que voltar, para acudir aquele piá. Se o guri ficasse ali, o bicho faminto ia devorar. Corremo com a lanterna para o caminho alumiar, mas quando bateu no olho do bicho, ele danou-se a recuar. Diz que o olho é o ponto fraco e a luz deve machucar. O monstro correu para longe e fez meu primo se abundar. Para aquelas bandas ninguém voltou, mas as pegadas continuavam lá. Mês depois de muito tempo, nós fez o mito perpetuar. Nós sentia medo, mas fazia o povo gargalhar. A história do pé de garrafa que fez meu primo se abundar”.

Trecho do livro Ibirocai, de Leon Gondin

Um dos contos do livro foi a inspiração para o curta-metragem Mulher do Algodão, produzido em agosto de 2018.

Natural de Barra do Garças, em Mato Grosso, Leon está na cidade Morena desde 2010. “Nossa, eu acabei vivendo, tendo essa oportunidade de viver muito a cultura de Campo Grande assim. Várias festas, todas as referências inclusive que a gente coloca no livro sejam elas as mais pontuais possíveis, né, porque inclusive foram vários anos aí pro lançamento desse livro inclusive por conta dessa presença que eu queria que a gente tivesse nas festas e nos momentos, as pessoas, né, a gente queria ter a certeza de que esse material seria o mais completo e vivo possível daquele momento da cultura de Campo Grande, né, descobrir esses detalhes curiosos sobre a cultura daqui”, comenta o autor.

“Saci, o assobio havia ditado? Saciiiii, pensou o menino com os olhos arregalado. Procurou o gorro vermelho, olhando em sua volta descontrolando. Onde o negrinho pentelho? Onde está aquele danado ? Pois pôs-se a correr e o assobio cada vez mais perto, com a escuridão daquela noite não se via o caminho certo. Caco se perdeu e foi parar na encruzilhada, aí o Saci apareceu e caiu na gargalhada”.

Trecho do livro Ibirocai, de Leon Gondin

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