Livro narra investigação que revelou serial killer por trás de 16 mortes em MS

Escrito pela delegada Aline Sinnott Lopes, que investigou o caso, ‘A Jornada dos Esquecidos’ será lançado em maio

O rastro de violência espalhado por um dos maiores serial killers de Mato Grosso do Sul inspira livro que será lançado no próximo dia 28 de maio, em Campo Grande. “A Jornada dos Esquecidos” traz o olhar da delegada de polícia Aline Sinnott Lopes sobre a investigação que revelou os 16 assassinatos atribuídos a Luiz Alves Martins Filho, o Nando, entre 2012 e 2016. As vítimas, em geral, tinham em comum a ligação com as drogas e o crime; foram mortas de maneira brutal e enterradas em área de mata na região da Vila Danúbio Azul.

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Capa do livro escrito por Aline. (Foto: Divulgação)

“Eram pessoas que a maioria quer esquecer”, resume a delegada de polícia Aline Sinnott Lopes.

O livro é baseado nas memórias, relatos e emoções vividos pela delegada durante a investigação, que foi um divisor de águas em sua carreira. Para além de delegada, Aline é formada em Direito, Psicologia e Letras.

“Foi um caso, uma investigação, que impactou muito a minha vida e as pessoas ao redor depois que tudo veio à tona. Logo em seguida, tivemos outros dois casos de bastante repercussão, então era necessário colocar aquilo para fora de alguma forma, até mesmo pela forma visceral como tudo aconteceu.”

Aline Sinnott.
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Delegada Aline, autora do livro. (Foto: Divulgação)

Conforme a autora, “A Jornada dos Esquecidos” é um resgate histórico que se mistura a elementos ficcionais, ao que aconteceu nos bastidores e às vivências da equipe de investigação. Um material que foi sendo documentado de forma minuciosa pela delegada durante o tempo em que esteve à frente da força-tarefa de investigação.

“Eu comecei escrevendo isso num caderno, em folhas aleatórias, e foi se formando a ideia. Assim, fui elaborando todas aquelas emoções que nós fomos vivendo ali: a vivência da descrença, a vivência da tristeza de ver aquelas pessoas sendo exploradas, de ver a miséria ser explorada de uma maneira inimaginável.”

Aline Sinnott.

O caso Nando

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Nando durante julgamento (Foto: TJMS/Reprodução)

O caso Nando começou a vir à tona a partir do sumiço de um jovem procurado pelo irmão, Lucas, um adolescente envolvido com crimes. Além de seu irmão, havia relatos de desaparecimento de outras pessoas no bairro.

“Aquelas pessoas estavam sumindo e ninguém estava fazendo nada, nem nós estávamos fazendo nada. Até porque muitos casos sequer foram registrados e, afinal de contas, as vítimas, em sua maioria, eram criminosos que furtavam no bairro, usuários de drogas, garotas de programa; não havia nenhuma menina ou menino de posses ali, um jovem branco de olhos azuis.”

Aline Sinnott.

O medo e até mesmo o descaso dos moradores do Danúbio Azul em revelar o que sabiam sobre a conduta criminosa de Nando foi outro aspecto intrigante com o qual a polícia se deparou.

“A imprensa não teve acesso ao que acontecia nos bastidores de fato, mas nós tínhamos que fazer com que aquelas pessoas compreendessem que aqueles jovens mortos também eram vítimas, que o autor tinha que ser preso, que aquilo era errado, que elas podiam falar, confiar na polícia. (…) A dificuldade da informação ali era absurda, e nossas testemunhas eram criminosos e suas famílias apenas. Nós tínhamos que, de fato, firmar um rapport muito íntimo com criminosos, com garotas de programa, para conseguir avançar.”

Aline Sinnott.

As vítimas de Nando

As investigações desvendaram que Nando foi o culpado pela morte de jovens de 18, 22 e 25 anos e até adolescentes: 13, 16 e 17 anos. Nando chegou a ser chamado de “Justiceiro”, devido à escolha das vítimas, que já viviam à margem da sociedade. Sobre as manifestações de apoio a um indivíduo tão cruel, Aline desabafa:

“Mas vem o questionamento: o quanto a sociedade evoluiu se a gente precisa de pessoas se colocando no lugar de um executor de vidas? Então o sistema está todo falido e nós vamos colocar a justiça na mão de uma única pessoa que foi diagnosticada com uma psicopatia, com um transtorno de personalidade antissocial, um psicopata? Ver as pessoas louvando uma pessoa dessa, isso realmente me assusta.”

Aline Sinnott.

Com o livro, a delegada e, agora, escritora Aline expõe um sistema de exploração e propõe uma reflexão sobre o direito à vida.

“Acho que a principal mensagem que quero deixar com esse livro é que os seres humanos estão aí para acertar, para errar, para aprender ou não, mas eles têm direito à sua existência sem que ninguém interrompa esse processo pessoal. (…) Tem um momento que me marcou muito, que foi quando a gente encontrou o [corpo do] irmão do Lucas, demos a notícia, e o pai falou: ‘meu filho tinha mesmo que ter morrido’. Aquilo me chocou, me impactou, mas ele virou para mim e disse: ‘se meu filho não tivesse partido, o irmão dele não teria falado com a polícia e vocês não teriam encontrado o meu filho, nem teriam encontrado os filhos dos outros’. Então, toda pessoa tem um porquê nessa existência.”

Aline Sinnott.

Pelos crimes, Nando foi condenado a cerca de 175 anos de prisão.

Lançamento

Data: 28 de maio de 2026, às 18h30
Local: ADEPOL – Rua Dr. Robison Benedito Maia, 321 – Carandá Bosque, Campo Grande
Link de pré-venda: https://editoraoeste.com.br/a-jornada-dos-esquecidos/

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