O amor pode resistir sem a sorte? Questionamento faz parte de livro

Em 196 páginas, a obra da autora Melissa Macenas Oshiro mostra como um processo de dor pode ter um novo significado de vida

Até que ponto a sorte pode interferir no sentimento que as pessoas têm por nós? E será que o amor pode resistir sem a sorte? Esses são questionamentos presentes na obra 29 de Fevereiro e Outros Contos de Melissa Macenas Oshiro. Autista superdotada, bacharel em direito e autora de cinco livros publicados, entre eles, ficção, romance e contos.

Foto do arquivo pessoal de Melissa Mecenas Oshiro (Foto: Reprodução)
Foto do arquivo pessoal de Melissa Mecenas Oshiro (Foto: Reprodução)

Confira a reportagem completa sobre a obra no podcast literário da Morena FM: ?

“O 29 de fevereiro surgiu no processo de luto, da perda da minha avó materna, Nésia. Então, como minha avó foi uma mulher de muitos enfrentamentos na vida, passou por muitas dores, muitos traumas, como violência doméstica, doenças na família. Então, eu imaginei criar uma personagem que fosse o oposto dela, como você imaginasse, como seria a vida da minha avó, se ela tivesse tido sorte na vida, se ela tivesse tido uma vida mais leve”.

Melissa Macenas Oshiro, autora do 29 de Fevereiro e Outros Contos

Abaixo você confere um trecho da obra:

“A lona preta era a mesma, tudo em volta era morto, o solo e as plantas. Havia lixo por todos os lados, não havia ninguém. Ao longe, viu dois velhinhos andando curvados com o saco na mão. Ao vê-la, correram até ela. Filha, filha, você voltou. Mamãe, papai, que saudade. Onde estava? O que fizeram com você? Como está diferente? Perdoe-me, eu precisei sair e conhecer o mundo lá fora e tornei-me prisioneira das pessoas que viviam aqui. E por que estão aqui? Perdemos tudo, filha. Foi tudo tão de repente. Trabalhamos para os monstros daquele castelo. Veja como estamos fracos. E desnutridos. Acordamos bem cedo e voltamos para casa bem tarde, com o mínimo de comida”.

Bela Nina é uma personagem que chega no dia 29 de fevereiro, ano bissexto, e conhece uma família em um barraco de lona. E o que antes era difícil e sem vida, se torna um caminho cheio de felicidade.

“E a partir do momento que a Bela Nina chega, tudo começa a se transformar. Tudo que era feio, fica belo, tudo que era pobre, fica próspero, então daí a história se desenrola até chegar assim, grandes questionamentos entre a sorte, o azar e onde está o amor entre tudo isso”, complementa a autora.

Melissa Oshiro

Confira outro trecho do livro:

“Nina, notou como mudei? Tarcísio mostrava ali seu queixo olhando para o teto. Sim, vejo que se alimenta bem, fico feliz. Me alimento bem, fico feliz. Nina ouvia saudável, mas já estava da última vez que ouviu. Talvez fosse algo que ainda não havia notado. Não, estou bem melhor. Mal sabia falar, era um tonto. Agora vivo nesse lindo castelo. Sou um homem indigno de você. Ele arfou o peito, admirou-se de si mesmo. Não se sentia digno antes? Nina tentava entender. Não. Como alguém que não consegue nem mesmo alimentar a avó pode ser digno? Tarcísio duvidava que ela houvesse gostado deles de verdade antes. Tivera apenas pena. Ah, Tarcísio, não sabe o que fala. Nada há de indigno em ter fome ou ter sede, ou frio. Quando se vê uma maçã no pé e a agarra e sacia a fome, quando passa pelo rio, bebe da água e ao ver alguém passando frio, a cobre com a manta, mas se não há comida, nem água e nem mantas, não há culpa. Culpa é de tê-los e não usá-los”.

A obra contém 21 contos que tratam de temas como maternidade, luto e superação.

Confira mais um trecho da obra:

“Estava coberta de neve, uma linda cestinha de Natal, como se houvesse cruzados os trópicos e parado na porta do pobre casal de catadores de lixo. A pobre velhinha que andava curvada não percebeu que suas costas andavam retas como há 30 anos. E por onde passava ia repondo feiura em beleza, mau cheiro em perfume e morte em vida. Nasceu Bela Nina em 29 de fevereiro. Desde aquele dia tudo na vida do casal passou a dar certo, como num passe de mágica. A menina lhes dava sorte. A cada 29 de fevereiro, Nina fazia mais um ano de idade e seu crescimento era lento como se a eternidade fosse o seu próprio tempo, e eles continuavam cada vez mais conhecidos no mundo”.

Ao todo, são 196 páginas que mostram como um processo de dor pode ter um novo significado de vida.

“Eu acredito que a sorte e o amor podem, sim, andar de mãos dadas, mas o amor sempre será a prioridade, mesmo em face do azar”, finaliza a autora.

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