Água e esgoto tratados: o sonho de quem não tem o básico

Em Campo Grande, o abastecimento de água alcança 99% da população e mais de 86% dos moradores contam com o tratamento de esgoto de forma integral

O caminho das caixas de gordura e do banheiro até a rede que trata o esgoto fica escondido embaixo do solo, assim como a vida de pessoas em situação de rua, invisibilizadas pelas circunstâncias e sem acesso ao básico. Para elas, o saneamento é um sonho, ainda que, nem sempre, elas tenham consciência disso.

Morador em situação de rua vive sob ponte e às margens de córrego (Foto: Renata Fontoura)
Morador em situação de rua vive sob ponte e às margens de córrego (Foto: Renata Fontoura)

Há mais de uma década, barracos improvisados próximo ao córrego entre as avenidas Ernesto Geisel e Thyrson de Almeida servem de lar para homens e mulheres em situação de rua.

“W.”, de 38 anos, é um deles. Por “circunstâncias da vida”, acabou debaixo de uma ponte, em meio a entulhos e objetos descartados que viraram lixo. O espaço embaixo do concreto serve de abrigo, mas é incapaz de proteger contra doenças que podem ser levadas pela água. Esta segurança só pode vir do saneamento básico.

Roupas lavadas com água sem tratamento (Foto: Renata Fontoura)
Roupas lavadas com água sem tratamento (Foto: Renata Fontoura)

Em Campo Grande, o abastecimento de água alcança 99% da população e mais de 86% dos moradores contam com o tratamento de esgoto de forma integral. Mas esse crescimento não alcança os invisíveis, como W, porque não se trata de uma questão de infraestrutura, mas social.

A visão de W. e de tantas outras famílias que vivem embaixo da ponte (Foto: Renata Fontoura)
A visão de W. e de tantas outras famílias que vivem embaixo da ponte (Foto: Renata Fontoura)

“Uso essa bacia aqui e pego essa água, bebo, me lavo, lavo umas roupas”, afirma o homem, agachado e enchendo uma garrafa. Ele então retorna ao barraco e completa: “Sou doente, tenho asma”, revela. “Uso bombinha e não tenho mais”, completa sentando na cama improvisada.

Questionado sobre a água em meio ao calor extremo de Campo Grande ele alega que não consome do córrego. “Povo das casas ajuda”, diz, carregando uma garrafinha pet cheia de água tratada e gelada.

Em meio a conversa, W. sai de sua toca e adentra o espaço, para mais debaixo da ponte. O local, de mais de 4 metros, e com o córrego abaixo, comporta mais lixo, roupas, colchão e cobertas. Sentando na cama improvisada, abre sua marmita e começa a comer, deixando claro que não há mais o que conversar.

Fonte de onde W e outros pegam água (Foto: Renata Fontoura)
Fonte de onde W e outros pegam água (Foto: Renata Fontoura)

A história de W. não é um caso isolado. Outras pessoas que vivem ali ingerem aquela água e ainda a utilizam para lavar seus pertences, ignorando, por falta de opção, o fato de estarem mais suscetíveis a doenças.

“Principalmente em locais onde o esgoto não é tratado (…) Mas o que pode conter dentro dessa água imprópria? Microrganismos nocivos à saúde humana e ao animal: bactérias, vírus, protozoários e parasitos”.

Everton Lemos, Doutor em Doenças Infecciosas e Parasitárias

O especialista lista algumas doenças que podem surgir em razão do consumo de água contaminada:

  • Leptospirose – Conhecida como “doença do rato”. Os sintomas são: vômito, indisposição e febre alta.
  • Hepatite A e E – Causadas por vírus e que provoca inflamação no fígado. Os principais sintomas são: cansaço (fadiga), desconforto abdominal, náuseas e vômitos.
  • Diarreia infecciosa – Entre as diarreias infecciosas comuns, estão as por bactérias (escherichia coli ou a salmonela), outras causadas por vírus (enterovírus); e parasitas (ameba e giárdia).


“Essas doenças podem trazer complicações e risco de vida, principalmente para crianças e idosos. As diarreias, por exemplo, podem trazer desidratação severa, dor abdominal importante e presença de sangue nas fezes”, salienta Everton.

A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) diz “não ser possível mensurar as internações em decorrência de doenças que possam ter sido provocadas por falta de saneamento básico”.

Segundo eles, Campo Grande registrou, desde 2020, três casos confirmados de leptospirose, sendo um em 2021 e outros dois neste ano. A respeito da Hepatite A, há apenas um caso confirmado dentro deste recorte, sendo ele em 2021.

O baixo número de casos pode ter relação com a melhora no saneamento. Conforme a concessionária de abastecimento, Águas Guariroba, o abastecimento de água está disponível em todas as regiões da cidade e a rede coletora de esgoto alcança mais de 86% da cidade.

O caminho e a qualidade da água

A água em Campo Grande percorre um extenso caminho através da infraestrutura de abastecimento da concessionária antes de chegar às torneiras. Esse percurso compreende uma rede com 3.952 quilômetros de extensão.

Espaço onde ocorre várias etapas do tratamento da água em Campo Grande (Foto: Maressa Mendonça)
Espaço onde ocorre várias etapas do tratamento da água em Campo Grande (Foto: Maressa Mendonça)

Mais de 34% desse recurso hídrico vem da captação do Córrego Guariroba que, por meio de um sistema de bombeamento, percorre mais de 30 quilômetros nas adutoras antes de chegar à estação de tratamento. O restante da água é captada do Córrego Lageado (16%) e de 150 poços profundos.

A água bruta obtida dos córregos e poços passa por várias fases de tratamento antes de ser encaminhada aos reservatórios e finalmente distribuída à população.


“Em Campo Grande, temos uma entrega de água com qualidade. O que é importante destacar a população é de manter os reservatórios, como caixa d’água, sempre limpos e fechados para garantir que se mantenha com qualidade”, opina o doutor doenças infecciosas.

O tratamento do esgoto

Além do tratamento da água, todo o esgoto coletado pela concessionária é tratado antes de ser lançado nos córregos. Campo Grande conta, atualmente, com duas estações de tratamento de esgoto (ETEs). A maior, ETE Los Angeles, trata 900 litros por segundo. Já a ETE Imbirussu trata 120 litros por segundo.

O Coordenador de Operações de Esgotamento Sanitário na Águas Guariroba, Renato Vilela resume como funciona o sistema de tratamento de esgoto. Confira no vídeo abaixo.

Coordenador de Operações de Esgotamento Sanitário na Águas Guariroba, Renato Vilela (Imagens: Maressa Mendonça)

A extensão da rede de esgoto em Campo Grande é de 2717,53 quilômetros com 318.151 economias de esgoto, ou seja, ligações.

A região central foi a primeira a receber o esgoto em Campo Grande há muito tempo, ainda antes da divisão do estado. Já com a concessão à iniciativa privada se iniciou o programa Sanear Morena I, com várias frentes de serviços, em outros bairros.

Atualmente, estão em andamento várias frentes de serviços, alguns dos bairros que receberam a rede de esgoto são:

  • ?Lageado,
  • ?São Conrado,
  • ?Coophavila II,
  • ?Tiradentes
  • ?Los Angeles.

Quando um bairro recebe a rede de esgoto, o setor de Responsabilidade Social agenda uma reunião com os moradores para explicar como é o processo de ligação à rede. Os moradores também são comunicados por meio de faixas e panfletos.

Investimentos em saneamento resultam em economia na saúde pública. Isto porque à medida que as doenças e internações diminuem há uma redução nos gastos com saúde pública e esse dinheiro pode ser aplicado em outras ações, inclusive de prevenção.

Dados do Datasus (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde), apontam que mais de 100 doenças podem ser evitadas quando os serviços de saneamento estão presentes nos municípios. A Organização Mundial da Saúde estima que a cada US$ 1 investido em saneamento são poupados US$ 4 em saúde pública.

Estação de Tratamento de Esgoto em Campo Grande (Foto: Maressa Mendonça)
Estação de Tratamento de Esgoto em Campo Grande (Foto: Maressa Mendonça)


Mas o tratamento de esgoto também tem uma importância ambiental. Dados da Semadur (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano) apontam que, do 2º trimestre do ano passado para o 2º trimestre deste ano houve um aumento de 22% na classificação de qualidade boa nos córregos em Campo Grande. Esse aumento tem relação com o avanço da rede de esgoto na cidade.

Quem comemora a chegada do esgoto no bairro é Mário Pires Santos, de 58 anos. O aposentado foi encontrado sentado em frente de casa, na rua da Praia, no Coophavilla II. Por lá, é possível ver os recortes no asfalto e os canos anexados nas calçadas, realizados por equipes da Águas Guariroba.

“Tem uns vinte dias atrás que fizeram [o esgoto] aqui. Era fossa. Agora o negócio ficou bom demais”, comemora o aposentado.

Mário Pires Santos, de 58 anos
Mário Pires Santos, de 58 anos (Foto: Renata Fontoura)

Assistência Social

A reportagem entrou em contato com a SAS (Secretaria Municipal de Assistência Social) sobre a situação dessas pessoas que vivem perto do córrego citado. Em nota, informaram que a pasta desenvolve trabalhos e abordagens, assim como oferece serviços e acolhimentos.

“Para as pessoas que aceitam nossa intervenção, é ofertado encaminhamento para o Centro POP, onde é possível realizar alimentação, higienização, emissão de documentação e acompanhamento psico jurídico social, bem como, encaminhamento às Comunidades Terapêuticas e unidades de acolhimentos institucionais”, responderam.

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