Ameaçado de extinção, pintado pode entrar em acordo internacional de proteção na COP15

Brasil apresentou proposta de inclusão do peixe em plano internacional de conservação da espécie

Especialistas ambientais e representantes do governo brasileiro apresentaram, nesta terça-feira (24), a proposta de inclusão do peixe pintado em um plano internacional de conservação da espécie, ameaçada de extinção.

Conservação do pintado é depatida durante COP15 em Campo Grande
Conservação do pintado é depatida durante COP15 em Campo Grande (Foto: Ana Karla Flores)

O encontro ocorreu durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens, realizada em Campo Grande.

A medida busca ampliar a cooperação entre países da América do Sul e estruturar um plano de conservação que garanta a sobrevivência da espécie, considerada ameaçada de extinção no Brasil desde 2022.

O objetivo do país é que o reconhecimento internacional fortaleça ações coordenadas entre Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, regiões onde o pintado ocorre naturalmente.

Segundo especialistas, por se tratar de uma espécie migratória de água doce, a conservação depende de estratégias conjuntas que ultrapassem fronteiras.

A pesquisadora do ICMBio, Anielly Galego de Oliveira, explicou que o declínio das populações do pintado está relacionado principalmente à fragmentação dos rios, provocada por barragens e alterações no regime natural das águas.

De acordo com ela, essas estruturas interrompem rotas migratórias essenciais para o ciclo de vida do peixe, incluindo a subida dos adultos para reprodução e o deslocamento de ovos e larvas ao longo dos rios.

Pintado é peixe típico em Mato Grosso do Sul (Foto: Reprodução/Redes sociais)
Pintado é peixe típico em Mato Grosso do Sul (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Além disso, a regulação artificial do fluxo reduz o ciclo natural de cheias e secas, processo fundamental para a manutenção dos habitats de desova e desenvolvimento dos juvenis.

“Quando ocorre falha no desenvolvimento inicial, isso impacta diretamente o recrutamento da espécie, ou seja, menos indivíduos entram na população para garantir sua reposição”, destacou a pesquisadora.

Especialistas também ressaltaram que o pintado exerce papel fundamental nos ecossistemas aquáticos. Como predador de topo de cadeia, funciona como indicador da saúde ambiental dos rios e áreas úmidas, como o Pantanal.

A construção de barragens, a poluição da água e projetos que alteram a dinâmica hidrológica de grandes bacias podem comprometer o ciclo migratório da espécie e de outros peixes que realizam a piracema.

Outro fator considerado crítico é a hibridização entre espécies do gênero Pseudoplatystoma, comum em sistemas de aquicultura. Esse processo pode causar erosão genética e comprometer populações naturais do pintado.

A pesca também aparece como pressão adicional sobre a espécie, especialmente em bacias onde já foram observados maiores declínios, como no Alto Paraná e no rio São Francisco.

Apesar disso, especialistas ressaltam que ela não é a principal causa da redução populacional, mas contribui para agravar o cenário, sobretudo quando ocorre a captura seletiva de indivíduos maiores, importantes para a reprodução.

Peixe Pintado
(Foto: Reprodução/ GOV)

Plano de recuperação

Para enfrentar esses desafios, o plano de recuperação do pintado, coordenado pelo ICMBio, busca integrar ciência, gestão pública e participação das comunidades ribeirinhas e pescadores.

Entre os eixos estão a organização de dados científicos, o monitoramento participativo e a articulação com o setor elétrico para adequar a gestão de barragens, incluindo regimes de cheias que favoreçam a reprodução da espécie.

A analista ambiental do ICMBio, Carla Polaz, destacou que a proposta apresentada na COP15 busca ampliar o esforço de proteção para além do território brasileiro.

Segundo ela, o pintado percorre diferentes países ao longo do seu ciclo de vida, o que torna inviável garantir sua conservação apenas com ações nacionais.

“O pintado não respeita fronteiras. Por isso, precisamos do apoio dos países onde a espécie ocorre para construir um plano regional de conservação, com troca de informações e definição conjunta de estratégias para reduzir ameaças”, afirmou.

Além do valor ecológico, o pintado também possui grande importância econômica e cultural, especialmente no Pantanal, onde é um dos peixes mais pescados e valorizados pela pesca artesanal e esportiva.

No âmbito da convenção, o Brasil propôs a inclusão da espécie no Anexo II da CMS, categoria destinada a animais migratórios que necessitam de cooperação internacional para sua conservação.

Sem proibição da pesca

O diretor do Departamento de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Bráulio Dias, explicou que essa classificação não implica proibição total da pesca, mas cria mecanismos de coordenação entre os países.

Segundo ele, a intenção do governo brasileiro é buscar consenso entre as nações envolvidas, evitando conflitos diplomáticos e fortalecendo um acordo regional.

“A inclusão no Anexo II permite priorizar a espécie internacionalmente, facilitar a cooperação entre os países e ampliar o acesso a recursos financeiros para ações de conservação”, afirmou.

De acordo com o diretor, o primeiro passo é aprovar a proposta durante a conferência em Campo Grande.

Em seguida, o próximo objetivo será elaborar e apresentar, em uma futura reunião da convenção, um plano de ação internacional envolvendo todos os países da área de ocorrência do pintado.

Caso a proposta seja aprovada na COP15, o Brasil passará a liderar a articulação internacional para estruturar o plano de conservação da espécie até a próxima conferência da CMS, prevista para ocorrer em 2029.

O objetivo é garantir a recuperação das populações e manter o pintado presente nos rios sul-americanos e na atividade pesqueira das futuras gerações.

FALE COM O PP

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso do Sul, mande uma mensagem pelo WhatsApp. Curta o nosso Facebook e nos siga no Instagram.

Leia também em Meio ambiente!

  1. Recuperação dos rios foi parcial e não reverteu o déficit hídrico dos últimos anos. (Foto: Raquel Brunelli)

    Pantanal: cheia de 2026 permanece abaixo da média histórica

    Mesmo com recuperação parcial dos rios, nível das águas no Pantanal segue...

  2. Ibama combate extração ilegal de madeira em terra indígena

    Extração ilegal de madeira em terra indígena Kadiwéu é recorrente; entenda

    Fiscalizações desde 2023 tentam conter a extração ilegal de madeira na região,...

  3. Rio Paraguai

    MT atualiza mapa hidrográfico após 20 anos; Rio São Lourenço perde quase mil km²

    A Secretaria de Meio Ambiente (Sema-MT) atualizou a divisão das bacias hidrográficas...

  4. Uma ariranha no Parque Iberá, na Argentina

    Ariranha reaparece após quase 50 anos e inspira megaprojeto para unir 4 biomas

    Uma ariranha extinta há 50 anos reapareceu sozinha em um rio durante...

  5. Foto: Agência Pública

    Seis municípios de MT estão no topo do ranking de exploração seletiva de madeira na Amazônia

    O corte seletivo de madeira, método de extração onde apenas árvores específicas...