Após queimadas, câmeras mostram animais resistindo em áreas devastadas

Cerca de 20 armadilhas fotográficas acompanham a fauna na região que há anos sofre com incêndios florestais

Desde 2024, a terra indígena Kadiwéu, em Porto Murtinho, vem sofrendo com constantes queimadas, que já destruíram mais de 360 mil hectares de mata nativa. Apesar disso, câmeras instaladas por especialistas mostram que a vida animal na região resiste em meio às perdas causadas pelo fogo. 

Vídeo: projeto Vidas e Vozes Kadiwéu

Cerca de 20 armadilhas fotográficas foram instaladas de forma estratégica na área, conforme escolha de profissionais da Associação de Brigadistas da Reserva Indígena Kadiwéu (ABINK). 

“Nós conhecemos onde os animais passam, onde tem água, onde eles deixam sinal. A gente vai olhando pegadas, trilha batida, onde o bicho circula mais, principalmente perto das aguadas. Foi assim que escolhemos os pontos para instalar as câmeras”, explica o brigadista Laercio Ramos, da Brigada Kadiwéu 3, da aldeia Tomázia, que acompanhou a equipe durante as instalações”, explicou um dos brigadistas. 

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Pesquisador instalando armadilha fotográfica (Foto: Alicce Rodrigues)

O monitoramento já passou pelas aldeias Alves de Barros, Campina e Tomázia, reunindo mais de 21 mil imagens ao longo de seis meses. No destaque estão as antas, espécie que mais aparece nos registros. 

“O número de antas registradas é maior até do que espécies mais comuns como cotia ou lobinho. Isso é impressionante e mostra a importância do território na proteção de espécies ameaçadas”, afirmou Diego o médico veterinário e pesquisador pantaneiro, Diego Viana. 

Outro ponto observado nas gravações é a existência de catetos e queixadas, que atuam com papel direto na regeneração ambiental, dispersando sementes e recompondo a vegetação. 

“O que mais me surpreendeu foi ver a quantidade de animais silvestres. Eu sabia que tinha, mas não tanto assim. Saber que aqui ainda existe essa riqueza, enquanto em outros lugares eles estão quase desaparecendo, dá um sentimento de responsabilidade maior. Isso motiva a gente a proteger ainda mais a nossa terra”, disse a brigadista Eneiza Rodrigues, da Aldeia Tomázia. 

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Anta registrada por uma das câmeras (Foto: Alicce Rodrigues)

Os registros vão dar origem a uma cartilha educativa bilíngue, na língua Kadiwéu, e em português, voltada para escolas das aldeias. 

“Isso é muito importante, porque muitas crianças já não falam mais a língua. Eu entendo porque cresci com meus avós, mas também não falo fluentemente. Ver esse material chegando para os mais novos vai ajudar a fortalecer a cultura e a mostrar os animais que vivem junto com a gente e que, muitas vezes, não são vistos”, afirma Eneiza.

O monitoramento segue até 2028 e, na próxima etapa, as câmeras serão instaladas nas áreas baixas do território, próximas ao Pantanal, onde há relatos de presença de onças-pintadas. O projeto Vidas e Vozes Kadiwéu é uma realização do Instituto Terra Brasilis em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.

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Terra Indígena Kadiwéu em MS (Foto: Alicce Rodrigues)

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