Crédito verde cresce em MT e estimula práticas sustentáveis no Pantanal
Linhas de financiamento chegam a R$ 394 milhões em sete meses em Mato Grosso, priorizam municípios pantaneiros e financiam de energia solar a recuperação de áreas degradadas
Na cheia, o Pantanal se transforma em um mar de água doce que percorre lentamente a planície; na seca, o solo racha e se torna combustível para incêndios que se espalham com velocidade. A alternância extrema entre abundância e escassez, intensificada pelas mudanças climáticas, expõe a vulnerabilidade do bioma e desafia gestores públicos a buscar instrumentos capazes de conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Nesse cenário, programas de crédito sustentável ganharam força em Mato Grosso, impulsionando investimentos em reflorestamento, turismo de natureza, energia renovável e recuperação de áreas degradadas.
Do mar de água doce ao chão rachado
Arraste para comparar as imagens de Cheia e Seca.
Uma das principais engrenagens desse movimento é o FCO Verde, linha do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste voltada a práticas produtivas com responsabilidade ambiental. Desde 2019, o programa passou a incorporar de forma mais efetiva ações direcionadas à conservação e ao uso sustentável dos recursos naturais. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso (Sedec-MT), o crédito pode ser aplicado em sistemas agroflorestais, integração lavoura-pecuária-floresta, aquisição de bioinsumos, geração de energia renovável e recuperação de áreas degradadas.
As condições são consideradas atrativas: financiamentos de até 22 anos, com carência variável, juros pré-fixados de 8,60% ao ano ou pós-fixados em 1,71% + FAM (Fator de Atualização Monetária), com bônus de adimplência de 15%. Segundo dados da Sedec-MT, a evolução tem sido rápida. Em apenas sete meses de 2025, o volume contratado se aproxima do total de 2024 e é quase três vezes superior ao de 2019. Em seis anos, o montante quadruplicou. Desde 2019, o FCO Verde já movimentou mais de R$ 1,9 bilhão em Mato Grosso, com crescimento expressivo sobretudo a partir de 2023, quando ultrapassou a marca de R$ 500 milhões em contratações.
FCO Verde e FCO Pantanal
Crédito sustentável em MT: crescimento das contratações, condições atrativas e apoio à recuperação pós-queimadas.
Em 2025, nos primeiros 7 meses, o volume quase igualou todo 2024.
Com reforço de capital de giro e condições estendidas para reconstrução de atividades.
Além das linhas federais e regionais, Mato Grosso ampliou o papel da Agência de Fomento do Estado (Desenvolve MT) como facilitadora do crédito sustentável. A instituição atua no repasse de financiamentos e na orientação técnica aos empreendedores. Entre 2020 e 2025, foram cerca de R$ 32 milhões destinados a empreendimentos turísticos — principalmente pousadas e hotéis em Cáceres e Poconé — e R$ 6,6 milhões em projetos de energia fotovoltaica.
Contratações do FCO Verde em Mato Grosso R$ milhões
Série histórica 2019–2025; 2025 considera o período de janeiro a julho.
* 2025 considera o período de janeiro a julho.
Os financiamentos chegam a até R$ 1,5 milhão, com juros de 1,12% ao mês para pagamentos em dia, prazos de até 120 meses e carência de até 12 meses. Segundo a agência, a parceria com Sebrae, Senai e Empaer ajuda a reduzir entraves técnicos e a orientar pequenos negócios interessados em migrar para modelos mais sustentáveis.
Desenvolve MT: a porta de entrada do crédito sustentável
A Agência de Fomento do Estado de Mato Grosso (Desenvolve MT) atua como parceira no repasse do crédito e na orientação técnica dos empreendedores. Entre 2020 e 2025, a agência financiou cerca de R$ 32 milhões em empreendimentos turísticos, incluindo pousadas e hotéis em Cáceres e Poconé, além de R$ 6,6 milhões em projetos de energia fotovoltaica.
As condições são consideradas vantajosas: até R$ 1,5 milhão em financiamento, taxas de 1,12% ao mês para pagamento em dia, prazos de até 120 meses e carência de até 12 meses. O suporte técnico é garantido em parceria com Sebrae, Senai e Empaer, para orientar o uso correto dos recursos.
Hotel troca luz por sol e vira case de energia limpa
A decisão de instalar energia solar mudou o fluxo de caixa do Hotel Porto Bello. Em 2022, Alessandra Castillo recorreu à Desenvolve MT, contratou o financiamento em 60 parcelas e colocou o projeto para rodar. O resultado apareceu imediatamente nas contas. “Hoje pago em média R$ 9,7 mil por mês nas parcelas. Sem as placas, a fatura de energia ficaria em torno de R$ 20 mil”, afirma.
Ela destaca que o processo foi ágil e com custo competitivo. “Fui muito bem atendida, o juro era o menor do mercado na época e a equipe que executou o projeto veio por indicação da própria Desenvolve. Pagando em dia, tenho 30% de desconto no valor da parcela. Não achei burocrático, o depósito do financiamento saiu corretamente e tudo foi bem tranquilo”, diz.
Hotel com energia limpa
Estrutura moderna e sustentável, abastecida por energia renovável com apoio da Desenvolve MT.
O perfil majoritário de hóspedes do hotel, fundado há 23 anos, é de turismo de trabalho e moradores da região, e a redução de despesas fixas permitiu direcionar recursos para modernização da estrutura. “Energia limpa virou diferencial competitivo. Muitos hóspedes valorizam a preocupação ambiental. Assim que terminar esse contrato, quero fazer outro financiamento para a ampliação do hotel”, planeja Alessandra.

FCO Pantanal: resposta às queimadas
Diante das estiagens e incêndios históricos, o FCO Pantanal foi lançado em setembro de 2024, com regras diferenciadas para a planície pantaneira. Ele permite financiar até 100% do projeto, ampliar carência em um ano e alongar prazos em dois anos, além de reforçar o capital de giro em até 40%.
O foco é apoiar desde a recuperação de áreas produtivas e reposição de rebanhos até a aquisição de equipamentos para combate a incêndios, além da retomada de atividades ligadas ao turismo, pesca e comércio afetados pelas queimadas.
Crédito emergencial para reconstrução e prevenção
Valorização da pecuária pantaneira
A Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), que representa mais de 15 mil pecuaristas no estado, defende que o crédito verde é essencial para fortalecer a imagem da pecuária pantaneira. “Há inúmeras demandas relacionadas à recuperação de pastagens e áreas degradadas, bem como à prevenção e ao combate aos incêndios florestais”, pontua a entidade.
Pecuária no Pantanal (2014–2023)
Área de pasto cresceu 3%, o rebanho bovino aumentou 8% e a produtividade atingiu 0,84 cabeças por hectare, representando avanço de 5% no período.
Fonte: Famasul
Para a Acrimat, porém, os entraves burocráticos ainda são um gargalo. “A validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), a titulação de áreas e as restrições em imóveis embargados dificultam o acesso ao crédito. Hoje, os pecuaristas enfrentam uma demora significativa na análise dos processos, o que atrasa a implementação de medidas urgentes”, afirmou a associação.
Ao mesmo tempo, a entidade vê no crédito verde um aliado para valorizar a pecuária de Mato Grosso. “O cumprimento das regras e exigências estabelecidas pelos bancos comprova a regularidade ambiental do produtor. Isso ajuda a melhorar a imagem da carne pantaneira e abre portas em mercados mais exigentes”, completa a Acrimat.
Alerta para a inclusão social
O WWF-Brasil, braço nacional da maior rede independente de conservação ambiental do planeta, alerta que o crédito verde precisa chegar também a ribeirinhos, pequenos produtores e comunidades tradicionais.
“O crédito verde é um avanço importante, mas ainda é acessado majoritariamente por médios e grandes produtores. Para comunidades tradicionais, o processo é praticamente inacessível diante das exigências técnicas e documentais”, afirmou o especialista em Conservação do WWF-Brasil, Pablo Majer.
“É preciso criar mecanismos que permitam o acesso dos pequenos, ao mesmo tempo em que se reduz a inadimplência.”
Majer defende que os programas sejam acompanhados de políticas complementares. “É preciso criar mecanismos que permitam o acesso dos pequenos, ao mesmo tempo em que se reduz a inadimplência. Só assim conseguimos usar melhor o crédito e gerar benefícios reais para quem vive no bioma”, disse.
O especialista também lembra da interdependência entre biomas. “O ciclo de cheias e secas depende do Cerrado, que abastece o Pantanal com água. Então, o crédito sustentável não pode se restringir à planície, precisa chegar às cabeceiras.”
Para o WWF-Brasil, o Pantanal tem potencial de se tornar um laboratório nacional de soluções financeiras sustentáveis, mas Majer alerta: “Se o produtor acessa o crédito e mantém práticas antigas, como desmatamento e pecuária extensiva de baixa produtividade, perde-se o caráter verde. É fundamental atrelar monitoramento, assistência técnica e metodologias que assegurem responsabilidade ambiental”.
Vitrine de práticas sustentáveis
O Polo Socioambiental Sesc Pantanal mostra na prática como a sustentabilidade pode ser incorporada à rotina de instituições e comunidades. Nenhuma unidade usa copos descartáveis: todos os colaboradores recebem canecas reutilizáveis. O lixo reciclável, cerca de cinco toneladas anuais, é destinado à cooperativa Cooponé, em Poconé, gerando renda para dezenas de famílias.
Sustentabilidade em prática
A instituição também mantém ecopontos em bairros e comunidades rurais, coleta óleo de cozinha usado em troca de detergente e inclui crianças e jovens em atividades educativas sobre reciclagem.
No campo da energia limpa, o Hotel Sesc Porto Cercado conta com uma usina solar fotovoltaica de 1.320 placas, que gera 39.600 kWh por mês e supre 40% do consumo, evitando 3,28 toneladas de CO₂ mensais. Desde 2024, a frota começou a ser substituída por veículos elétricos, alinhando-se a uma mobilidade mais limpa.
Se os mecanismos se consolidarem, Mato Grosso pode transformar o Pantanal em um modelo vivo de conciliação entre crédito, economia e preservação. O bioma, tantas vezes marcado por estiagens e incêndios, tem agora a chance de mostrar que o dinheiro público e privado pode florescer junto com a natureza.
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