Cuiabá ainda sente impactos na arborização mais de uma década após retirada de 2,5 mil árvores para o VLT, dizem especialistas

Levantamento mostra que a capital perdeu 52% da vegetação nativa entre 1985 e 2024; especialista afirma que árvores adultas removidas ainda não foram substituídas em sua função ambiental.

A retirada de cerca de 2,5 mil árvores para a implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), iniciada em 2014, ainda provoca reflexos na arborização de Cuiabá, segundo especialistas. Passados 14 anos desde o início da retirada das árvores para as obras, a cidade enfrenta os impactos da redução da cobertura vegetal, em um cenário em que já perdeu mais da metade da vegetação nativa existente na área urbana nas últimas quatro décadas.

Dados do MapBiomas, analisados pelo Instituto Centro de Vida (ICV), mostram que Cuiabá perdeu 7.211 hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024. A redução representa 52% da cobertura vegetal existente no início da série histórica e corresponde a uma área equivalente a aproximadamente 10 mil campos de futebol.

vlt arvores
Foto de 2012 mostra árvore sendo arrancadas para as obras do VLT. – Foto: Iara Vilela/g1

Segundo o coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV, Vinícius Silgueiro, a retirada de árvores adultas produz efeitos que não são compensados imediatamente pelo plantio de mudas.

“As árvores adultas removidas prestavam serviços de sombreamento, equilíbrio climático e ajudavam a reduzir os efeitos das ondas de calor. As mudas que são plantadas são importantes, mas vão levar muitos anos para oferecer os mesmos benefícios”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, dependendo da espécie, uma árvore pode levar entre 10 e 15 anos para atingir um porte capaz de proporcionar sombra significativa e contribuir para o conforto térmico da população.

Além do avanço da urbanização, com a abertura de novos loteamentos e obras de infraestrutura, a implantação do VLT é apontada como um dos marcos da perda de cobertura vegetal na capital. As árvores retiradas ao longo do traçado deram lugar ao corredor do modal, cuja obra permaneceu inacabada por anos e atualmente passa por reestruturação para implantação do BRT.

Calor sentido na prática

Os efeitos da redução da arborização podem ser percebidos no dia a dia dos moradores. Em um teste realizado pela TV Centro América, um termômetro registrou 40,1°C na superfície do solo exposta ao sol. Poucos metros adiante, em uma área sombreada por árvores, a temperatura caiu para 36,6°C, uma diferença de quase cinco graus. Assista abaixo:

Cuiabá perdeu 52% da arborização nos últimos 40 anos. – Vídeo: TVCA

Para especialistas, as árvores urbanas desempenham papel importante na redução da temperatura, melhoria da qualidade do ar e aumento do conforto térmico, especialmente em cidades de clima quente como Cuiabá.

Recentemente, outro episódio reacendeu o debate sobre arborização na capital. Cinco figueiras foram retiradas da Rua Baltazar Navarros após autorização da Prefeitura de Cuiabá. As imagens do antes e depois da via repercutiram entre moradores nas redes sociais.

Prefeitura prevê ampliar cobertura arbórea

Imagens da Avenida Historiador Rubens de Mendonça em 2011, antes das obras do VLT, e em 2026. - Fotos: Google Maps
Imagens da Avenida Historiador Rubens de Mendonça em 2011, antes das obras do VLT, e em 2026. – Fotos: Google Maps

A Prefeitura de Cuiabá informou que incluiu a arborização urbana entre os eixos estratégicos do planejamento da cidade até 2050. Entre as metas está ampliar em 5% ao ano a cobertura arbórea do município.

Segundo a secretária municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, Elisangela Fernandes Bokorni, todo empreendimento que recebe licença ambiental e necessita retirar árvores é obrigado a realizar compensação ambiental.

“Quando a gente faz as licenças ambientais e há retirada de árvores, existe a compensação da massa verde. Essa é uma ação permanente para cada empreendimento”, afirmou.

O diretor de Planejamento Ambiental, Fábio Moura, explicou que o Horto Florestal produz mudas destinadas ao plantio em áreas previamente mapeadas pela equipe técnica da secretaria.

“Nós identificamos os locais onde é possível realizar o plantio, avaliamos quais espécies são mais adequadas para cada área, selecionamos as mudas no Horto Florestal e executamos o plantio”, disse.

Preservar árvores adultas

Apesar da importância do plantio de novas mudas, pesquisadores defendem que preservar árvores adultas deve ser prioridade nas intervenções urbanas.

Segundo Vinícius Silgueiro, quando a retirada é inevitável, o transplante de exemplares adultos deve ser considerado sempre que houver viabilidade técnica.

“É fundamental plantar novas árvores, mas elas vão demorar anos para oferecer os benefícios climáticos que uma árvore adulta já proporciona. Sempre que possível, devemos preservar essas árvores ou realizar o transplante para locais onde elas continuem exercendo essa função”, destacou.

VLT em Mato Grosso

Mais de R$ 1 bilhão dos cofres públicos foram gastos com a obra do VLT. - Foto: Prefeitura de Cuiabá
Mais de R$ 1 bilhão dos cofres públicos foram gastos com a obra do VLT. – Foto: Prefeitura de Cuiabá

Os trens foram comprados por Mato Grosso ainda para a Copa do Mundo de 2014, mas nunca chegaram a funcionar em Cuiabá e Várzea Grande. Depois de anos paradas nas proximidades do Aeroporto Marechal Rondon, as composições foram vendidas ao Governo da Bahia.

Ao todo, Mato Grosso adquiriu 40 composições, divididas em 280 vagões. Após a decisão de substituir o VLT pelo BRT, os trens foram negociados com a Bahia por R$ 793,7 milhões. A última composição deixou Várzea Grande em julho de 2025, encerrando oficialmente a passagem do modal pelo estado.

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