Menor do bioma, Pantanal reúne maior números de animais do Brasil; especialistas explicam motivo
Geógrafo e biólogo detalham como a formação da planície e o ciclo de cheias e vazantes favorecem a abundância da fauna.
Apesar de ser o menor bioma brasileiro, o Pantanal abriga grandes populações de onças-pintadas, jacarés, aves, peixes e outros animais. Essa abundância, que ajuda a tornar os encontros com a fauna mais frequentes, está ligada principalmente ao movimento das águas, capaz de transformar a paisagem e distribuir alimento ao longo do ano.

Um vídeo publicado nas redes sociais pelo diretor-executivo Bruno Watanabe, apresenta essa característica como um “paradoxo do Pantanal” e afirma que o bioma teria a maior densidade de espécies de mamíferos por quilômetro quadrado do planeta. Especialistas ouvidos pelo Primeira Página explicam, no entanto, que a realidade é mais complexa: o bioma não lidera em quantidade de espécies, mas se destaca pelas grandes populações de animais que ainda consegue sustentar.
A explicação começa muito antes da chegada da água à planície e envolve a formação da Cordilheira dos Andes, o relevo quase plano, os sedimentos carregados pelos rios e um fenômeno conhecido como pulso de inundação.
Uma planície formada lentamente
O geógrafo e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Cleberson Ribeiro explica que o Pantanal é um dos sistemas biogeográficos mais recentes em formação e uma das maiores planícies de sedimentação do planeta.
A origem dessa estrutura está relacionada ao soerguimento da Cordilheira dos Andes, provocado pelo encontro entre as placas tectônicas de Nazca e Sul-Americana. O processo começou há dezenas de milhões de anos e contribuiu para a formação de uma grande área rebaixada no centro da América do Sul.

Essa bacia continua passando por um processo de subsidência, isto é, um rebaixamento gradual que permite o acúmulo constante de sedimentos transportados pelos rios.
Apesar de o processo geológico ser antigo, a configuração atual do Pantanal como área úmida é muito mais recente. Segundo o biólogo Gustavo Figueirôa, a paisagem inundável conhecida hoje possui menos de 10 mil anos.
A água que demora meses para atravessar o Pantanal
A baixa declividade é uma das principais características da planície. Em algumas regiões, a diferença de altitude é de poucos centímetros por quilômetro, fazendo com que a água avance lentamente e os rios formem curvas, conhecidas como meandros.
Diferentemente do que ocorre em áreas com corredeiras e cachoeiras, a água não encontra grandes desníveis para escoar rapidamente. Por isso, espalha-se pelas áreas mais baixas e pode permanecer nelas por longos períodos.
Grande parte desse volume não vem das chuvas que caem diretamente sobre a planície, mas das regiões mais altas da Bacia do Alto Paraguai. A água desce dos planaltos e chega gradualmente ao Pantanal.
A água que demora meses para atravessar o Pantanal
A maior parte da água vem das regiões mais altas da Bacia do Alto Paraguai. Como a planície possui pouca inclinação, o avanço ocorre lentamente e em períodos diferentes.
01 O percurso começa no alto Toque para entender
Grande parte da água que abastece o Pantanal vem das chuvas registradas nos planaltos da Bacia do Alto Paraguai.
02 Chegada à região central Toque para entender
A baixa declividade torna o deslocamento lento. Conforme estudos citados pelo geógrafo, a água pode levar cerca de 30 dias para alcançar Corumbá.
03 Avanço para o sul Toque para entender
De Corumbá até Porto Murtinho, o percurso pode demorar mais 30 ou 40 dias. Nesse intervalo, outras regiões já podem estar na vazante ou na seca.
Conforme Cleberson, estudos indicam que a água das chuvas registradas nas regiões mais altas de Mato Grosso pode levar cerca de 30 dias para alcançar a área de Corumbá (MS). Depois, pode demorar mais 30 ou 40 dias até chegar a Porto Murtinho (MS).
Isso significa que, enquanto uma região ainda está recebendo a cheia, outra pode já estar entrando no período seco.
Pantanal não tem apenas cheia e seca
Esse deslocamento gradual forma o chamado pulso de inundação. Embora seja comum dividir o ciclo pantaneiro entre cheia e seca, o geógrafo explica que existem quatro períodos: enchente, cheia, vazante e seca.
Na enchente, o nível dos rios começa a subir e a água avança sobre a planície. A cheia corresponde ao período de maior inundação. Depois vem a vazante, quando as águas recuam, até chegar à seca.
Pantanal não tem apenas cheia e seca
O ciclo das águas possui quatro fases. Selecione cada uma para acompanhar a transformação da paisagem pantaneira.
Enchente
Os rios começam a subir e a água avança lentamente sobre as áreas mais baixas. O processo ocorre gradualmente e não ao mesmo tempo em toda a planície.
Cheia
O nível dos rios alcança o ponto mais alto e amplia as áreas inundadas. Rios, lagoas e campos alagados ficam conectados, favorecendo a circulação de nutrientes.
Vazante
A água recua e concentra peixes e outros organismos em canais, baías e poças. É um período de maior disponibilidade de alimento para diferentes animais.
Seca
O nível dos rios fica mais baixo e grandes áreas de terra reaparecem. A fauna passa a utilizar os ambientes que permanecem com água e os refúgios secos da planície.
O processo não ocorre simultaneamente em todo o bioma nem mantém a mesma intensidade todos os anos. Por isso, a afirmação de que até 80% do Pantanal fica inundado precisa ser contextualizada. A extensão da cheia varia conforme o volume de chuvas, a região analisada e o recorte territorial utilizado.
O Pantanal também não está restrito ao Brasil. A planície se estende por áreas da Bolívia e do Paraguai, integrando um sistema hídrico que ultrapassa as fronteiras nacionais.
A cheia prepara; a vazante oferece alimento
O pulso de inundação é considerado o principal processo ecológico do Pantanal. Contudo, a cheia não representa fartura imediata para todos os animais.
Segundo Gustavo, quando a água se espalha pela planície, os alimentos e os peixes ficam distribuídos por uma área muito maior. Nesse momento, a profundidade aumenta, a água pode ficar mais turva e a disponibilidade de oxigênio também pode diminuir.
A cheia funciona como uma fase de investimento: transporta nutrientes, conecta rios e lagoas e transforma áreas alagadas em locais de crescimento para peixes jovens. É durante a vazante que boa parte desse alimento se concentra.

Com o recuo das águas, peixes e outros organismos ficam reunidos em canais, baías e poças. Essa concentração facilita a alimentação de tuiuiús, jacarés, ariranhas e outros predadores. “O motor da produtividade não é a água parada, é o vaivém”, explicou o biólogo.

A importância da alternância pode ser observada no Rio Taquari, onde áreas permanentemente alagadas devido ao assoreamento perderam parte da produtividade. Sem a cheia e a vazante, a reciclagem de nutrientes diminui e a abundância de peixes pode ser reduzida.
Mais animais não significa mais espécies
Figerôa explicou que embora o vídeo afirme que o Pantanal possui 0,74 espécie de mamífero por quilômetro quadrado, a unidade correta do levantamento científico utilizado como referência é de 0,724 espécie a cada mil quilômetros quadrados.
De acordo com Gustavo, a própria publicação científica apresenta uma inconsistência: a tabela utiliza a medida por mil quilômetros quadrados, enquanto o texto menciona quilômetro quadrado. O vídeo reproduziu o número, mas perdeu a referência aos mil quilômetros.
Mais animais não significa mais espécies
O Pantanal se destaca pelas grandes populações de animais que ainda consegue sustentar, mas isso não significa que possua o maior número de espécies.
Entenda de onde veio a diferença entre as unidades
Segundo o biólogo Gustavo Figueirôa, a própria publicação científica apresenta uma inconsistência: a tabela utiliza a medida por mil quilômetros quadrados, enquanto o texto menciona quilômetros quadrados. O vídeo reproduziu o número, mas perdeu a referência aos mil quilômetros.
A divisão entre quantidade de espécies e extensão territorial favorece naturalmente os ambientes menores. Por isso, o índice não pode ser usado isoladamente para concluir que o Pantanal possui a maior biodiversidade do planeta.
Riqueza e abundância não são a mesma coisa
Riqueza
Representa o número de espécies diferentes encontradas em determinado ambiente.
Abundância
Indica a quantidade de indivíduos dessas espécies que vivem em determinada área.
É na abundância que o Pantanal se destaca: o bioma conserva grandes populações de animais em áreas ainda relativamente preservadas.
O Pantanal possui menos espécies de mamíferos do que a Amazônia e a Mata Atlântica. Durante a vazante, porém, o recuo das águas concentra os animais em espaços menores e aumenta a possibilidade de observá-los.
O biólogo também explica que a divisão entre quantidade de espécies e extensão territorial favorece naturalmente os ambientes menores. Por isso, o índice não pode ser usado isoladamente para concluir que o Pantanal possui a maior biodiversidade do planeta.
A riqueza representa o número de espécies existentes em determinado ambiente. A abundância indica quantos indivíduos dessas espécies vivem no local. É neste segundo aspecto que o Pantanal se destaca.
O bioma possui menos espécies de mamíferos do que a Amazônia e a Mata Atlântica, mas ainda mantém grandes populações de animais em áreas relativamente preservadas. Durante a vazante, a concentração em espaços menores também aumenta a possibilidade de observá-los.
Onças, jacarés e aves
Segundo Gustavo, a mesma diferença entre população e densidade aparece quando o vídeo trata das onças-pintadas. De acordo com o biólogo, maior população da espécie está na Amazônia, enquanto o Pantanal possui a segunda maior.
Por outro lado, a maior densidade de onças já registrada cientificamente foi identificada na Estação Ecológica de Taiamã, no Pantanal Norte: 12,4 animais a cada 100 quilômetros quadrados.

A grande disponibilidade de presas, principalmente jacarés e capivaras, ajuda a sustentar essa concentração.
O Pantanal brasileiro também abriga uma das populações naturais de crocodilianos mais vigorosas do mundo, com densidades que podem superar 100 jacarés por quilômetro quadrado em determinadas áreas. Isso não significa, porém, que não existam concentrações semelhantes ou superiores em outros lugares.

Nas aves, a referência mais atual aponta 617 espécies na planície pantaneira. O número superior a 650, citado no vídeo, considera toda a Bacia do Alto Paraguai, incluindo as áreas de planalto.
Já a estimativa de aproximadamente 270 espécies de peixes na planície está de acordo com os levantamentos científicos citados pelo especialista.
Animais acompanham o movimento das águas
As espécies não “aprenderam” a ler as águas, como sugere o vídeo. Biologicamente, a sincronia resulta da seleção natural ao longo de milhares de gerações.
Animais que se reproduziram ou buscaram alimento nos períodos mais favoráveis tiveram mais chances de sobreviver e deixar descendentes. Com o tempo, sinais como chuva, nível dos rios e duração dos dias passaram a desencadear determinados comportamentos.
Os peixes migradores, por exemplo, sobem os rios para se reproduzir durante a piracema. O tuiuiú faz seus ninhos principalmente durante a vazante e a seca, quando os peixes ficam concentrados e são capturados com mais facilidade.

Levantamentos realizados durante mais de uma década mostraram que 72% da variação no número de ninhos de tuiuiú pode ser explicada pela extensão da inundação.
“O Pantanal não fabricou essas adaptações, ele as recrutou”, resumiu Gustavo. Isso ocorre porque muitos animais chegaram à planície trazendo características desenvolvidas anteriormente em outros ambientes inundáveis.
A fauna pantaneira também é formada, em grande parte, por espécies compartilhadas com o Cerrado, a Amazônia e o Chaco. A juventude do sistema e a conexão com outros biomas ajudam a explicar o baixo número de espécies exclusivas.
Um calendário que pode mudar
O pulso de inundação funciona como um calendário para a fauna, mas não como um relógio de precisão. A época das cheias e vazantes apresenta certa previsibilidade, enquanto a intensidade varia bastante entre os anos.
Períodos prolongados de seca, incêndios, desmatamento nas cabeceiras dos rios, assoreamento e barragens podem modificar a quantidade, a velocidade e o momento em que a água chega à planície.
Segundo Cleberson, a retirada da vegetação das nascentes e das áreas mais altas aumenta a erosão e o transporte de sedimentos para os rios. Já a construção de pequenas centrais hidrelétricas em sequência pode alterar o volume de água e o funcionamento natural dos cursos d’água.
Essas mudanças atingem especialmente os peixes migradores, as aves aquáticas e os animais que dependem de áreas inundadas para se alimentar ou se reproduzir.
O Pantanal, portanto, não precisa ocupar o primeiro lugar em um ranking mundial de espécies para ser considerado extraordinário. Sua singularidade está na capacidade de manter grandes populações de animais e processos ecológicos que desapareceram ou foram reduzidos em outras partes do continente.
Mais do que o tamanho, é o movimento das águas que sustenta essa abundância. E a continuidade desse ciclo depende de que o caminho entre os planaltos, os rios e a planície permaneça conectado.
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