Por que o Rio das Mortes e o Rio Araguaia não se misturam? Entenda
Especialistas explicam por que as águas do Rio das Mortes e do Rio Araguaia correm lado a lado sem mistura imediata em São Félix do Araguaia.
Um vídeo publicado nas redes sociais pela Prefeitura de São Félix do Araguaia (MT), nesta quinta-feira (12), mostra um fenômeno que chama atenção: as águas do Rio das Mortes e do Rio Araguaia correndo lado a lado, com cores diferentes e sem se misturar por um trecho.

Mas por que isso acontece? O Primeira Página ouviu dois especialistas que explicam o contraste e revelam que a resposta envolve densidade, temperatura, sedimentos e até a formação geológica da região. As imagens mostram uma faixa nítida separando os dois cursos d’água, um efeito visual raro, mas cientificamente conhecido. Confira o vídeo completo abaixo:
Diferença de composição impede mistura imediata
De acordo com Sérgio Figueiredo, coordenador de monitoramento da água e do ar da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), cada rio chega ao ponto de encontro com propriedades físicas distintas. “Um dos rios possui uma densidade maior de matéria orgânica e sedimentos e uma temperatura diferenciada. Isso não permite uma mistura instantânea das águas”, explica.
Segundo ele, a diferença de densidade e temperatura funciona como uma barreira temporária entre os dois fluxos. “A questão pode ser explicada por questões de densidade e temperatura. Mas conforme a temperatura e a densidade se equilibram, por osmose, as águas se misturam, rio abaixo”, completa.
Estrutura geológica define o trajeto
O fato de os rios seguirem praticamente paralelos antes do encontro também tem explicação geológica. O professor Cleberson Ribeiro de Jesuz, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), afirma que o comportamento do Rio das Mortes é controlado por uma estrutura formada há milhões de anos.
De acordo com o professor, “o caso do Rio das Mortes e Araguaia tem a ver com o controle estrutural do Rio das Mortes. Ele foi concebido por um graben (afundamento do solo) do período Cretáceo”, afirma.

O docente detalha que a região passou por intensa atividade tectônica entre cerca de 150 milhões e 60 milhões de anos atrás, com abertura de fraturas profundas na crosta terrestre.
Houve a abertura de rifts, como se fossem fissuras. Esse movimento gerou áreas rebaixadas e blocos elevados. O graben é como um vale em fendas que foi se abrindo e depois sendo preenchido por sedimentos ao longo do tempo”, explica Cleberson.
Segundo ele, essa estrutura acabou direcionando o curso do rio. “Quando o Rio das Mortes entra nessa parte do antigo graben, ele se torna estrutural e passa a seguir condicionado por essa formação. Isso ajuda a entender por que ele corre paralelo ao Araguaia por um trecho antes de desaguar”, diz.
Cor da água depende da origem e da bacia
A diferença de cores entre as águas também tem múltiplos fatores, ligados à origem e ao ambiente de cada bacia hidrográfica. “A coloração da água pode ter vários fenômenos envolvidos. Tem a ver com o material de origem do próprio rio e com a bacia de captação”, afirma o professor.

Ele explica que rios que nascem em áreas com mais vegetação tendem a carregar mais matéria orgânica dissolvida, enquanto rios com maior erosão transportam mais sedimentos minerais. “Você pode ter um aporte de sedimento maior em um rio com bacia maior. Se ele erode mais, vai carregar mais material em suspensão e isso muda a cor”, destaca.

O especialista lembra que encontros com contraste de cores também são observados em outros pontos do país, o que transforma o registro feito no município em um exemplo didático de como geologia, clima e composição da água moldam a paisagem é pura dinâmica natural dos rios.
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