Projeto contra ampliação de áreas de reserva no Pantanal ameaça pesca e turismo, alertam especialistas
Pesquisadores da Unemat afirmam que a área protegida ajuda a repor estoques pesqueiros, preservar espécies e movimentar a economia no Pantanal; proposta de Coronel Fernanda pode ser votada diretamente no plenário da Câmara.
Especialistas em ecologia e biodiversidade alertam que a suspensão da ampliação da Estação Ecológica de Taiamã, entre Cáceres e Poconé, pode prejudicar a reprodução dos peixes, a conservação de espécies e atividades econômicas ligadas à pesca e ao turismo no Pantanal mato-grossense.
O debate ganhou força após a Câmara dos Deputados aprovar, na terça-feira (14), o regime de urgência para o Projeto de Decreto Legislativo apresentado pela deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT). A proposta busca suspender o decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que ampliou a unidade de conservação de aproximadamente 11,5 mil para 68.502 hectares.

Com a urgência aprovada, o projeto não precisa passar pelas comissões da Câmara e pode ser analisado diretamente pelo plenário. Ainda não há previsão para a votação.
Para a professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) Solange Ikeda-Castrillon, doutora em Ecologia e Recursos Naturais, a ampliação é necessária diante da perda de água, do avanço dos incêndios e da baixa proporção de áreas protegidas no Pantanal.
“O Pantanal está ameaçado pela perda das águas e pelas mudanças climáticas. Temos resultados de estudos, como os do MapBiomas, que demonstram mais de 50% de perda da superfície de água nos últimos anos”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, a redução das áreas alagadas aumenta a vulnerabilidade do bioma a incêndios de grandes proporções, como os registrados em 2020 e 2024. O risco pode se agravar durante períodos de El Niño.
Área protegida ajuda a preservar peixes do rio Paraguai
Solange explica que unidades de conservação como a Estação Ecológica de Taiamã funcionam como áreas de abrigo, alimentação e desenvolvimento para espécies que vivem no rio Paraguai e em toda a planície pantaneira.
“O Pantanal também é um dos biomas menos protegidos por unidades de conservação. Temos menos de 5% de proteção, quando o importante seria ampliar”, declarou.

A professora destacou que os ambientes preservados servem como verdadeiros repositórios de biodiversidade. Campos inundáveis, lagoas, corixos e baías permitem o crescimento e a reprodução de grande parte das espécies de peixes encontradas na região.
Essa proteção, conforme Solange, não beneficia apenas a fauna. A conservação dos peixes e de outros animais também sustenta atividades econômicas importantes para Cáceres, Poconé e municípios vizinhos.
“Essa área precisa ser ampliada e protegida porque contribui para a comunidade do entorno e para o turismo. Sem essas unidades de conservação, poderíamos não ter muitas espécies de peixes e animais que hoje potencializam o turismo na região”, ressaltou.
A pesquisadora também criticou a possibilidade de uma votação acelerada na Câmara e afirmou que a sociedade deve acompanhar a tramitação da proposta.
“É importante que a sociedade não aceite um decreto que seja aprovado para beneficiar um pequeno grupo”, disse.
Taiamã contribui para reposição dos estoques pesqueiros no Pantanal
O professor e pesquisador da Unemat Claumir Cesar Muniz, doutor em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, reforçou que a Estação Ecológica de Taiamã exerce uma função estratégica na manutenção dos estoques de peixes de Mato Grosso.
Localizada em um dos principais trechos do rio Paraguai, a unidade protege ambientes essenciais para alimentação, reprodução, crescimento e abrigo de espécies com importância ambiental, social e econômica.
“A Estação Ecológica de Taiamã desempenha um papel estratégico para a conservação da biodiversidade e para a manutenção dos estoques pesqueiros do estado de Mato Grosso”, afirmou.
De acordo com Muniz, os processos ecológicos preservados dentro da unidade contribuem diretamente para a reposição natural dos peixes. Os benefícios alcançam tanto os profissionais da pesca artesanal quanto os praticantes da pesca esportiva em diferentes pontos da Bacia do Alto Paraguai.
O pesquisador ressaltou que a proteção de Taiamã se torna ainda mais importante porque o Pantanal possui a menor proporção de áreas protegidas entre os biomas brasileiros, considerando unidades de proteção integral e de uso sustentável.
“Essa reduzida representatividade torna indispensável a manutenção e o fortalecimento das unidades de conservação existentes, especialmente daquelas que exercem papel fundamental na conservação dos ambientes aquáticos”, explicou.
Além da pesca, esses ambientes garantem serviços ecológicos relacionados à qualidade da água, à biodiversidade e ao bem-estar das comunidades que dependem dos recursos naturais do Pantanal.
Para Muniz, Taiamã e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense constituem um patrimônio natural de valor inestimável para Mato Grosso.
“A Estação Ecológica de Taiamã, juntamente com o Parque Nacional, é essencial para assegurar a sustentabilidade da atividade pesqueira, a conservação dos ecossistemas pantaneiros e os processos ecológicos que garantem a produtividade do rio Paraguai e de toda a planície alagada do Pantanal”, afirmou.
Segundo o pesquisador, essa proteção ocorre “sem que isso gere qualquer ônus econômico para Cáceres e região”.
Deputada alega falta de consulta pública e impactos econômicos

No projeto apresentado à Câmara, Coronel Fernanda sustenta que o decreto presidencial é ilegal por supostamente ter desrespeitado uma lei federal que exige consulta pública antes da formalização da ampliação.
A parlamentar também argumenta que a nova delimitação provoca insegurança jurídica para pecuaristas e pescadores, cria risco de desapropriações e pode prejudicar atividades econômicas, investimentos e empregos em Cáceres e Poconé.
A ampliação, oficializada pelo governo federal em março de 2026, recebeu críticas de representantes do setor produtivo, entre eles a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato).
Estação passou de 11,5 mil para 68,5 mil hectares
Criada em 1981, a Estação Ecológica de Taiamã é uma das principais áreas de conservação do Pantanal brasileiro. Antes do decreto federal, a unidade possuía aproximadamente 11,5 mil hectares. Com a ampliação, passou a abranger 68.502 hectares.

A região reúne campos inundáveis, lagoas, corixos e baías diretamente influenciados pelo ciclo de cheias do rio Paraguai. Desde 2018, a estação é reconhecida internacionalmente como Sítio Ramsar, título concedido a áreas úmidas consideradas relevantes para a conservação mundial.
Levantamentos registram mais de 130 espécies de peixes na região, além de centenas de aves, incluindo espécies migratórias, e diferentes mamíferos e répteis ameaçados de extinção.

Taiamã também abriga a maior densidade conhecida de onças-pintadas do mundo. Estudos identificaram na região as chamadas “onças-pescadoras”, animais que se alimentam principalmente de peixes e jacarés e apresentam comportamento mais sociável do que populações observadas em outras partes do país.
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