A homenagem ao presidente do Brasil que inaugurou um dos ritmos mais populares do país

Você que já teve medo de levantar a mão pra fazer uma pergunta vai repensar isso depois de ler esse texto.

Todo brasileiro sabe cantar pelo menos um trecho dessa música, mas nem todos gostam desse presidente.

Pra essa música nascer, foram necessários dois paulistas, dois mineiros e um goiano. Não, essa não é uma piada do Ary Toledo.

Um desses mineiros estava dedilhando um instrumento musical e acabou inventando um ritmo novo. Ele criou um jeito de fazer música que não existia antes no Brasil.

Então ele mostrou esse novo ritmo para dois amigos de São Paulo. Os dois paulistas adoraram o ritmo, acharam quente, animado, e acabaram dando um nome para ele. Batizaram o novo ritmo.

Algum tempo depois, esse mineiro que criou o novo ritmo fez uma melodia e pediu para os dois paulistas escreverem uma letra.

É aí que entra o segundo mineiro na história.

Juscelino Médico
O segundo mineiro da história, com touca de médico.

Esse outro mineiro era médico e, em certa altura da vida, resolveu entrar para a política.

As coisas foram dando certo para ele e, vinte anos depois, ele se candidatou a presidente da República.

O primeiro comício da campanha dele foi numa cidade do interior de Goiás chamada Jataí, que na época tinha uns 10 mil habitantes.

Estava chovendo no dia, e então estacionaram um caminhão no pátio de uma oficina mecânica, abriram um dos lados da carroceria e o mineiro subiu lá para falar com o povo.

Esse discurso de cima do caminhão, no interior de Goiás, mudou a história do Brasil para sempre. E mudou também a história da música brasileira.

Quem começou a mudar a história foi um vendedor de seguros de 29 anos, que estava na plateia ouvindo o mineiro discursar.

O goiano que mudou a história do Brasil

Esse goiano, vendedor de seguros, se chamava Toniquinho. Toniquinho queria muito passar num concurso público e na época estava estudando a Constituição Federal.

O mineiro que estava na carroceria discursando falava toda hora que, se fosse eleito presidente, faria com que a Constituição Brasileira fosse cumprida integralmente.

Toniquinho ficou ouvindo aquilo e pensou: agora eu pego esse cara. Levantou a mão para fazer uma pergunta.

Comicio Jatai
Foto do comício em Jataí-GO em 1955

O mineiro parou o discurso e disse: “pois não, senhor.

Então Toniquinho fez a pergunta:

“Já que Vossa Excelência anuncia o propósito de cumprir a Constituição, queria saber se, eleito fosse, construiria a capital do Brasil no Planalto Central, como prevê a Constituição.”

A primeira Constituição da República, de 1891, já previa a transferência da capital para uma área de 14.400 km² no Planalto Central. Como a Constituição não tinha nenhum prazo para isso, foi ficando para depois.

Mas o Toniquinho não ia deixar passar.

Depois da pergunta, Juscelino Kubitschek, que estava na carroceria do caminhão, nem titubeou e respondeu:

Juscelino Kubitcheck
Juscelino Kubitschek, segundo mineiro da história

“Acabei de prometer que vou cumprir a Constituição integralmente, não vejo motivo para ignorar essa parte. Durante o meu quinquênio presidencial, farei a mudança da sede do governo e construirei a nova capital.”

Juscelino nunca tinha pensado nisso até o Toniquinho perguntar. Construir Brasília não estava no plano de governo dele.

Toniquinh
Toniquinho ficou conhecido como “Toniquinho JK”. Morreu em 2019

JK terminou o discurso em Jataí e foi fazer campanha em Anápolis, também em Goiás.

Já em Anápolis, anunciou que a meta mais importante do seu governo seria a construção de uma nova capital do país. E ele conseguiu. Assumiu a presidência do Brasil em 1956 e, três anos e meio depois, estava inaugurando Brasília.

INAUGURANDO BRASILIA
Inauguração de Brasilia em 21 de abril de 1960

Aqueles dois paulistas, que tinham recebido a missão de colocar uma letra naquele ritmo novo, acharam isso incrível. Um cara construir uma cidade em menos de quatro anos e mudar a capital do Brasil para lá? Tem que ter peito.

Então fizeram uma letra para homenagear Juscelino Kubitschek:

Quem tem mulher que namora quem tem burro empacador
Quem tem a roça no mato me chame que jeito eu dou
Eu tiro a roça do mato sua lavoura melhora
E o burro empacador eu corto ele de espora
E a mulher namoradeira eu passo o couro e mando embora

Os paulistas Teddy Vieira e Lourival dos Santos estavam claramente elogiando JK.

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Teddy Vieira e Lourival Dos Santos, os doi paulistas

A letra de Pagode Em Brasília conta a história de um sujeito que resolve qualquer problema:

“Tem prisioneiro inocente no fundo de uma prisão
Tem muita sogra encrenqueira e tem violeiro embrulhão
Pro prisioneiro inocente eu arranjo advogado
E a sogra encrenqueira eu dou de laço dobrado
E os violeiro embrulhão com meus versos estão quebrados

Não precisava exagerar com a sogra também.

Depois, escolhem figuras ilustres da Bahia, do Rio Grande do Sul, de Minas e de São Paulo para darem destaque:

“Bahia deu Rui Barbosa Rio Grande deu Getúlio
Em Minas deu Juscelino de São Paulo eu me orgulho”


Repare que de São Paulo são eles mesmos, né?

E depois, mencionam uma qualidade de cada um desses brasileiros. A inteligência do baiano, a bravura do gaúcho, o sucesso deles mesmos, e terminam colocando o mineiro no lugar mais alto. Os dois duvidam que exista outra pessoa, além daquele mineiro, capaz de fazer o que ele fez pela capital do Brasil.

Bahia deu Rui Barbosa Rio Grande deu Getúlio
Em Minas deu Juscelino de São Paulo eu me orgulho
Baiano não nasce burro e gaúcho é o rei das coxilhas
Paulista ninguém contesta é um brasileiro que brilha
Quero ver cabra de peito pra fazer outra Brasília

O mestre Tião Carreiro, criador do pagode de viola, disse que foi ele quem criou essa melodia.

Tião Carreiro
Tião Carreiro, criador do pagode de viola.

Mas que na época, ele não quis colocar o nome dele como compositor da música, mas se arrependeu amargamente depois que ela estourou no Brasil inteiro.

Ouça Pagode Em Brasília:

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