A lenda da música brasileira que só fez sucesso depois dos 60
Pra quem ainda não acredita que o sucesso pode vir na velhice, esse artista brasileiro se une a turma de Coronel Sanders e prova o contrário.
Esse cara gravou o primeiro álbum seis anos antes de morrer. Mas esses poucos anos de carreira como cantor foram suficientes pra transformar esse cara numa lenda.
O avô dele foi cozinheiro do presidente da república. Morava no palácio e trabalhava diretamente com o presidente.
Ele era o primeiro neto. O avô só vestia ele nos melhores panos. Criancinha, usava terno de linho, sapatos de alta qualidade e chapéu. Também o menino vivia brincando ali pelo palácio da presidência, tinha que estar bem arrumado.
Como o avô ganhava muito bem trabalhando com o presidente, garantia que o menino tivesse tudo do bom e do melhor. Mas o pai dele também ganhava bem. Era um excelente carpinteiro.
Eles moravam na zona sul do Rio de Janeiro e foi lá que ele pegou gosto pela música.

O pai tocava violão e cavaquinho e gostava de sair nos blocos de carnaval em Laranjeiras. Ele, a mãe e os irmãos sempre iam juntos. Ele não podia encostar nos instrumentos. Mas quando o pai saía pra trabalhar, ele corria pra tocar eles.
A morte do avô mudou completamente seu destino
Antes dele completar 12 anos, o avô morreu.
A essa altura ele já tinha 7 irmãos, e o pai dele estava se apertando pra conseguir manter o padrão de vida da família. A coisa foi ficando difícil até que ele não conseguiu mais pagar o aluguel na zona sul.
Nessa época começou a surgir uma conversa de que tinha uma galera indo pra um morro do outro lado da cidade onde o aluguel era muito barato. Tinha gente até morando em barraco de madeira por lá pra nem pagar aluguel.
Eles foram morar nesse morro, mas numa casa de alvenaria.
O moleque chegou no morro usando as roupas que o avô dava. Quando saía na rua, destoava muito das outras crianças que viviam por ali.

Mas o choque de realidade não demorou a chegar.
O tempo foi passando e, mesmo morando ali no morro, o pai dele não estava conseguindo sustentar aquela família com 9 bocas pra alimentar.
Ele era o filho mais velho e o pai colocou ele logo pra trabalhar, com 11 anos, numa gráfica, e à noite, o pai dele ainda colocou ele pra estudar.
No final do ano, descobriu que o moleque tinha reprovado por falta. O pai deixava ele na sala de aula e buscava, todos os dias.
Mas assim que o pai deixava ele pra estudar, ele saía pra bater perna na rua e só voltava na hora de ir embora.
A primeira expulsão de casa
O pai dele expulsou ele de casa por conta do episódio com a escola e outras mau criações. Ele ficou uns dias fora, mas a mãe implorou pra que deixasse ele voltar e ele voltou.
Nessa época ele começou a entrosar com a molecada do morro e com a galera da música. Nessa época também, ele resolveu parar de trabalhar na gráfica e foi ser servente de pedreiro.
Ele andava na rua e achava legal aqueles caras trabalhando nos andaimes e mexendo com a mulherada. Achou que pudesse ser um trabalho divertido.
No primeiro dia ele já ficou muito incomodado porque o cabelo dele ficava todo sujo de cimento. Ele tinha que dar um jeito nisso.
O jeito que ele encontrou pra resolver esse problema fez ele ganhar um apelido dos colegas de obra e foi com esse apelido que ele se tornou um ícone da música brasileira.
A segunda expulsão de casa
Quando ele fez 17 anos, a mãe dele morreu enquanto estava dando à luz ao décimo primeiro filho. O filho também morreu.
O pai dele ficou transtornado com o que tinha acontecido e expulsou ele de casa de novo.
Ele saiu, estava sem emprego, e acabou dormindo nos trens da Central do Brasil. Depois arrumou serviço como ajudante de um pai de santo. Era ele que deixava os despachos nas encruzilhadas.
O perrengue na rua estava muito grande. Até que ele resolveu voltar pra casa do pai pra pedir perdão e abrigo. Quando ele chegou lá não tinha ninguém na casa. O pai e os 9 filhos tinham se mudado.
Mas o pai mandou entregar um recado pra ele:
“Vou-me embora desse morro, mas deixo aqui um filho para fazer vergonha da família.”
Com 17 anos, o neto preferido do cozinheiro do presidente, estava sem pai, sem mãe e sem lugar pra morar. Algum tempo depois ele conseguiu alugar um barraco, com o dinheiro dos bicos que ele fazia, e foi levando a vida.
Ele e os amigos do morro que gostavam de música queriam entrar em algum bloco de carnaval, mas, nos blocos que eles conheciam, só entrava gente com reputação ilibada e profissão definida. Gente que vivia de bico, igual a eles, não podia entrar.
Cansados dessa rejeição, eles resolveram montar o próprio bloco de carnaval. Eles ainda não sabiam que esse bloquinho dos rejeitados se tornaria uma das maiores escolas de samba do Brasil: Estacão Primeira de Mangueira.
E começaram a fazer as próprias músicas. As músicas que ele fazia começaram a se destacar. Até nos carnavais fora do morro elas estavam tocando. E aí ele se tornou compositor de verdade. Um monte de artista queria gravar as músicas dele.
Sobreviveu muitos anos assim, compondo músicas pros outros e cantando no rádio.
Nos anos em que ele viveu sem a família, arranjou uma esposa. Quando essa esposa dele morreu, ele desapareceu do morro, por quase 10 anos. Afundou na bebida e quase desistiu da música.
Nessa época todo mundo achou que ele tivesse morrido.
Até que um dia ele resolveu voltar pro morro pra reencontrar um parceiro de composição e conheceu uma mulher que deu um rumo na vida dele.
Nessa fase muitos artistas gravaram músicas dele e ele ganhou status de grande compositor no meio.
A transformação de um homem de 65 anos em ídolo nacional
Ele já tinha 65 anos quando um produtor de uma gravadora colocou na cabeça que ele tinha que gravar um álbum cantando.
Nenhuma gravadora queria apostar num cantor de 65 anos gravando o primeiro disco.
Depois de implorar muito pro diretor artístico, conseguiu convencer a gravadora a gravar o primeiro disco dele.
O primeir disco até que foi bem, mas foi o segundo disco que ele gravou, com 66 anos, que o colocou na lista dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos.
A música que abriu esse disco, ele fez pra consolar um amigo que se apaixonou por uma mulher mais nova, montou uma casa pra ela e foi abandonado logo depois. Se chama “O Mundo É Um Moinho”.
Outro grande sucesso desse disco, ele fez pra mulher que deu rumo pra vida dele.
Eles cuidavam juntos de uma roseira no quintal de casa e um dia ela ficou impressionada e perguntou como aquela roseira dava tanta rosa assim.
Ele respondeu que não sabia, que até conversava com as rosas, mas “As Rosas Não Falam”.
Estamos falando do que é considerado o maior sambista da música brasileira.
O cara que só foi conhecer o verdadeiro nome depois dos 50 anos. Quando ele se casou com a dona Zica, depois de ficar viúvo, foi olhar os documentos e descobriu que se chamava Angenor e não Agenor, como tinha sido chamado a vida inteira.
Angenor de Oliveira, o mestre Cartola.

Assista e ouça a história sendo contada e cantada:
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