A mulher que revolucionou o Carnaval
Se essa carioca não tivesse tido a ousadia de se divorciar duas vezes no século XX, talvez não teríamos carnaval no Brasil. Pelo menos não do tamanho que é.
Essa mulher merece ser lembrada em todos os carnavais. Não só porque ela adotou o próprio marido e compôs o primeiro sucesso do carnaval brasileiro.
Mas porque ainda hoje quase ninguém sabe que foi uma mulher, neta de escravizados, que compôs a primeira música feita exclusivamente para o carnaval brasileiro.

Desde pequena, ela teve o temperamento muito forte. Tão forte que os pais obrigaram ela a casar com 16 anos, acreditando que o casamento ia dar um jeito nela.
Teve o primeiro filho com 16, com 17 o segundo.
Só que ela não era muito chegada na vida doméstica. Cuidar da casa, do marido, dos filhos…
O negócio dela mesmo era o piano.

O marido dela estava na esperança de que, quando ela tivesse filhos, largaria a música pra ficar só cuidando dos meninos, mas isso não aconteceu. E ele foi ficando incomodado.
A coisa ficou tão feia que ele falou pra ela: a música ou eu.
E ela respondeu:
“Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia.”
Largou dele e voltou pra casa.
Os pais dela não apoiaram o divórcio e fizeram pressão pra ela voltar com o marido.
No meio disso, ela descobriu que estava grávida do terceiro filho e aí acabou voltando com o marido.
Mas depois que o filho nasceu, o cara continuou pegando no pé dela até que ela injuriou e largou do marido de vez.
Divorciada em 1870
O pai dela a considerou morta. Não deixaram nem ela criar os filhos. Um ficou com o pai e os outros dois com a família dela.
Um tempo depois, ela começou a ficar com um engenheiro e resolveu mudar de cidade pra evitar o escândalo.
Ficou grávida do engenheiro, o ex-marido descobriu e processou ela por adultério e abandono de lar. E ela foi condenada.
Quando a menina nasceu, ela descobriu que o engenheiro estava traindo ela. Largou o engenheiro e voltou pro Rio de Janeiro.
Divorciada outra vez e o caminho pro sucesso
Sozinha, sem pai, sem marido, sem filhos, foi morar num quarto em São Cristóvão e precisava achar um jeito de sobreviver.
Começou a dar aula de piano e a compor. O nome dela começou a rodar até que chamaram ela pra fazer música pra peça de teatro.
Quando as composições dela começaram a fazer sucesso, as famílias dos ex-maridos ficavam indo atrás das partituras para rasgar e não deixar ninguém comprar.
Mas não adiantou. Logo ela começou a reger as orquestras dos teatros e se tornou a primeira maestra do Brasil.

Começou a usar o dinheiro que ganhava na música pra acabar com a maior injustiça da época. Começou a comprar a liberdade de escravizados.
Mas o dinheiro começou a não sobrar mais porque tinha muita peça de teatro usando as músicas dela sem pagar. E aí ela se tornou a primeira pessoa do Brasil a lutar pelos direitos autorais. Fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, só tinha ela de mulher.
Com 50 anos, ela já estava famosa e bem-sucedida. Nessa época conheceu um menino português chamado Joãozinho, de 16 anos.
O Joãozinho trabalhou com ela por um tempo até que ela chamou ele pra morar na casa dela.
Pra evitar mais um escândalo na sociedade, ela resolveu adotar o menino, no papel, e apresentar ele como filho da porta de casa pra fora. Mas da porta pra dentro…
O momento em que ela escreveu o sucesso do carnaval
No carnaval de 1899, ela estava morando no Andaraí e o cordão Rosa de Ouro passava pela rua dela.
Enquanto o cordão ensaiava, ela ficou observando toda aquela multidão se movimentando e teve uma ideia.
Naquela época o carnaval não tinha música própria. A turma só ficava gritando junto com uns batuques.
Então ela pensou em criar uma música que pudesse representar aquele momento, o clima daquelas pessoas fazendo festa nas ruas.
“Ó abre alas!
Que eu quero passar (bis)
Eu sou da lira
Não posso negar”
Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a maestra Chiquinha Gonzaga, tinha acabado de fazer a primeira música de carnaval do Brasil.
A partir de “Ó Abre Alas”, a música passou a ser indispensável no carnaval brasileiro.
Na carta testamento, 15 anos antes de morrer, Chiquinha Gonzaga escreveu: “Com minha triste vida de trabalho e injustiça, adeus.” Sofri e chorei. Chiquinha Gonzaga morreu no Rio de Janeiro em 1935.
Ouça “Ó Abre Alas”:
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