A música brasileira é um reflexo da sociedade ou nossa sociedade é um reflexo da música?

Há quem culpe a música por alguns traços tóxicos da sociedade brasileira quando olham pro nosso top 50 do Spotfy. É só o nosso espelho.

A internet trouxe de volta a divisão por tribos.

Desde o advento das comunidades do Orkut, quando as pessoas que odiavam acordar cedo puderam refletir em comunidade sobre essa frustração, os seres humanos passaram a se dividir mais facilmente em subgrupos, em tribos, e perceberam o ponto central de toda rede social: nenhuma experiência é individual.

Hoje é possível se reunir virtualmente com outras pessoas que são aficionadas por ônibus ou com pessoas que adoram trocar experiências sobre banheiros públicos (sommelier de mictório).

Avaliador de banheiro
Mais de 100 mil pessoas acompanham o avaliador de banheiros que tem até patrocinador.


Por mais estranha que seja a sua paixão ou o seu hábito, pode ter certeza absoluta de que, em algum lugar do mundo, existe outra pessoa tão estranha quanto você. Repito: nenhuma experiência é individual.

Fiz essa introdução antropológica digital para tentar te convencer sobre uma teoria que criei para explicar o que acontece com a música contemporânea brasileira:

A música digital é mais tribal do que nunca

Antes da internet, se alguém dissesse que tinha interesse em visitar e avaliar banheiros públicos por hobby, essa pessoa seria completamente ignorada e provavelmente taxada de louca. Dessa forma, o projeto dela não prosperaria.

Se alguém, nos anos 90, tivesse a ideia de ampliar o conceito da maçã do amor para outras frutas, como o morango, provavelmente não teria sucesso. Seria difícil encontrar outras pessoas que apoiassem um pensamento tão peculiar.

Mas, na internet, as pessoas peculiares se encontram com muita facilidade, formam comunidades e se fortalecem.

Antes da era digital, para colocar uma música no mundo — gravar em disco e disponibilizar para apreciação do público — era um processo muito complicado.

Primeiro de tudo, era preciso convencer grandes corporações de que sua música poderia agradar a uma grande fatia do público, para justificar o investimento.

Vencida essa etapa, o repertório passava por uma curadoria e por ajustes para se adequar ao status quo.

Depois começava um processo de produção e gravação musical em grandes estúdios, com profissionais que, diariamente, lançavam novas músicas para o mercado.

Se conseguisse passar por isso, ainda seria preciso convencer as rádios a tocarem a música. Para isso acontecer, o som precisava estar dentro dos padrões das músicas que já tinham feito sucesso: determinada duração, certa sonoridade etc.

O processo era apurado, feito a várias mãos e submetido a diversos crivos.

Na era digital, se alguém, sozinho no quarto, tiver uma ideia de música em dez minutos, ele próprio (ou com ajuda de uma I.A.) consegue disponibilizar o som para o mundo inteiro ouvir.

Se alguma coisa inusitada acontecer e o universo se alinhar, essa música pode virar um sucesso mundial em menos de 24 horas. Isso é possível com a internet.

O processo de criação musical perdeu todos os filtros. A conexão entre o criador e o público é feita em linha direta.

A música se tornou tão diversa quanto o ser humano

Segundo o Spotify, mais de 100 mil músicas são lançadas por dia no mundo — isso apenas dentro dessa plataforma.

Um relatório da MusicRadar mostrou que, em todo o ano de 1989, foram lançadas apenas 44 mil músicas.

Diante desses dados, podemos dizer que a diversidade musical aumentou em 829.000% (oitocentos e vinte e nove mil por cento).

Por ano e por dia
O que se lançava de música por ano em 1989, agora lançamos em 10 horas.

A música foi descentralizada: não precisa mais ser feita para agradar a todos. Ela é feita para agradar a uma pequena tribo. É claro que a música sempre teve segmentação, mas agora a segmentação ficou muito mais precisa com a ajuda dos algoritmos das redes sociais.

Mesmo assim as pessoas ainda criticam as músicas “tribais” como se tivessem sido feitas para todo mundo.

Não é que essa música seja ruim, é que ela não pertence à sua tribo.

E por que existe tanta crítica em relação à música atual produzida no Brasil?

Existe quase um consenso de que manifestações artísticas tidas como menos virtuosas — como o funk proibidão, o sertanejo “da cachaça e do paredão” e o pop vulgar — podem levar a sociedade brasileira a um colapso.

Dizem que nossos jovens vão ouvir esse tipo de música e serão influenciados por ela.

O menino que não bebe, vai beber depois de ouvir o sertanejo da cachaça.
A menina que era heterossexual, vai se tornar lésbica depois de ouvir um pop vulgar sobre duas mulheres que se beijam.
O jovem trabalhador que ouviu um funk proibidão, vai pedir demissão e entrar para o crime.

Agora, se essas tribos que gostam de músicas menos virtuosas devem ter seu comportamento reforçado com dinheiro público, aí já é outra discussão, não é disso que eu estou falando.

A cultura emana do povo ou o povo emana da cultura?


A sociedade produz a música ou a música produz a sociedade?

Se, no Brasil, existe uma grande tribo que gosta de ficar bebendo no bar e ouvindo som alto, a indústria musical vai produzir música para esse público. Há ouvintes, e dentro dessa tribo existem compositores.

Se 16% dos jovens brasileiros, segundo o INAF, eram analfabetos funcionais em 2024, esses milhões de jovens vão precisar de música para ouvir e muitos deles também vão produzir música.

Se o Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, com quase 1 milhão de presos, alguém vai se organizar para produzir música para essas pessoas e elas também vão escrever.

Se mais da metade dos jovens brasileiros da geração Z (1995 a 2010) afirmam não querer relacionamento monogâmico (segundo dados da Ashley Madison), haverá compositores dessa tribo que escreverão sobre pegação e promiscuidade, e haverá ouvintes para consumir.

mUSICA BRASILEIORA
A produção musical de um país reflete o pensamento do seu povo

As pessoas ouvem música para afirmar sua identidade.
Elas ouvem o que querem, não passam a querer o que ouvem. Se as pessoas passassem a se comportar de acordo com o que é dito na música que ouve, todos os problemas seriam resolvidos com uma caixa de som.

As pessoas compram livros pensando em que tipo de pessoa querem se tornar, e acabam se transformando. Mas ouvem música para agradar a pessoa que já são.

A música só vai “bater” se você sentir. E você só vai sentir se se identificar, se aquilo já estiver na sua alma.

A música não serve pra nada

E é justamente por isso que ela é tão especial.
Ela foi feita para o deleite da alma.
A não ser quando é um jingle comercial, ela não tem serventia prática. É como uma vista pro mar, um cheiro bom.

Ainda assim, a música tem o poder de transformar emoções e alterar o humor. Ela exerce uma influência instantânea e momentânea, como uma dose de dopamina.

Se no Brasil houver uma transformação na educação, se zerarmos a taxa de analfabetismo, se os índices de criminalidade caírem, tenho certeza de que as nossas playlists, com o tempo, vão mudar. Assim como a qualidade da ciência produzida aqui.

Agora, se as nossas playlists mudarem de uma hora para outra, mesmo que só tenhamos músicas virtuosas, o país não será transformado.

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Toca Raul, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.