O dia em que Zé Ramalho foi de iate com Roberto Carlos para emplacar uma música

Recusada pelo Rei, essa música acabou na voz de Fagner e é considerada uma das composições mais complexas do Zé Ramalho.

Uma vez, o Zé Ramalho foi passear de iate com o Roberto Carlos para tentar convencer o Rei a gravar uma música dele. Essa música virou um grande sucesso, é uma das músicas mais complexas que o Zé Ramalho já escreveu, e só agora eu fui entender o verdadeiro significado dela.

Isso foi em 1980. O Zé Ramalho, como qualquer compositor da época, queria ter uma música dele gravada pelo Roberto Carlos.

Para não ter erro, o Zé Ramalho resolveu compor uma música sob medida para ele, do jeito que ele gostava. Pegou uma passagem bíblica como tema. A música ficou linda, e o Zé Ramalho já estava imaginando aquele arranjo grandioso e a voz do Rei Roberto Carlos interpretando aquela letra.

Para tentar chegar no Roberto Carlos, o Zé Ramalho mostrou a música para o Beto Ribeiro, que era executivo da gravadora do Roberto Carlos. O Beto ficou louco com a música, falou que era a cara do Roberto Carlos. Então o Beto resolveu articular um encontro do Zé Ramalho com o Roberto Carlos.

O passeio no Lady Laura

O Roberto já tinha marcado com os executivos da gravadora um passeio no iate dele, saindo do Rio de Janeiro para Angra dos Reis. E aí o Beto organizou e conseguiu que o Zé Ramalho também fosse nesse passeio, para ele ter o contato com o Roberto Carlos.

Lady laura
Iate Lady Laura, barco de Roberto Carlos.

Conhecendo bem o Roberto Carlos, o Beto falou para o Zé não tocar a música para ele ao vivo ali no iate. A ideia era o Zé Ramalho levar a música gravada numa fita e entregar essa fita para o Roberto lá no iate, para ele ouvir a música depois com mais atenção.

E lá foram eles. Embarcaram no iate Lady Laura, na Marina da Glória, no Rio, e zarparam para Angra dos Reis. No iate, o Zé Ramalho pegou o violão, tocou algumas das músicas dele para o Roberto, ele adorou… E, no final, o Zé entregou a fita para ele com a música que ele tinha feito para o Rei sob medida.

Alguns dias depois, o Beto falou para o Zé Ramalho que o Roberto Carlos tinha achado a letra da música assustadora. Que a letra era muito carregada, cheia de imagens de destruição, e que, por isso, não ia gravar.

O Zé Ramalho ficou muito desapontado. Foi desabafar com um amigo dele. Mostrou a música, contou a história, disse que o Rei não quis gravar… Aí o amigo dele, compadecido, falou: “Zé, eu posso gravar essa música.”

O cenário apocalíptico na voz de Fagner

Aí, no ano seguinte, Raimundo Fagner deu voz ao cenário apocalíptico que Zé Ramalho pintou.

Quanto tempo temos antes de voltarem
Aquelas ondas
Que vieram como gotas em silêncio
Tão furioso

Zé Ramalho usou a metáfora das ondas como símbolo do dilúvio, para dizer que, se a humanidade continuar no caminho que está seguindo, o pior pode acontecer de novo.

Derrubando homens entre outros animais
Devastando a sede desses matagais
Derrubando homens entre outros animais
Devastando a sede desses matagais

Muita gente acha que o Zé Ramalho estava criticando a onda de autoritarismo do governo militar, que estava acabando, mas que poderia voltar e arrastar as multidões pela repressão.

E se teu amigo vento não te procurar
É porque multidões ele foi arrastar
E se teu amigo vento não te procurar
É porque multidões ele foi arrastar

Tem gente que fala que é um alerta do Zé sobre o aquecimento global… Mas a única coisa que saiu da boca de Zé Ramalho foi a história do dilúvio que ia chegar para colocar a humanidade na linha de novo.

Ouça: “Eternas Ondas” na voz do compositor Zé Ramalho:

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