A resposta ácida de Caetano Veloso à um jornalista da Folha que virou sucesso
Um grande sucesso de Maria Bethânia nasceu de uma treta entre Caetano Veloso e Paulo Francis
Caetano disse que essa música foi feita pro tipo de gente que quer desrespeitar o que é ser brasileiro. Agora, sabendo disso, a letra fez muito mais sentido.
Em 1983, o Caetano Veloso foi convidado pela TV Manchete para entrevistar o Mick Jagger em Nova York. Na entrevista, o Caetano fazia perguntas longas, com bastante contexto, e o Mick Jagger respondia de maneira mais direta, às vezes meio irônico. Foi uma entrevista interessante.

Mas Caetano Veloso já tinha hater em 1983
Um jornalista brasileiro, chamado Paulo Francis, que era correspondente da Folha de São Paulo em Nova York, não gostou muito e escreveu um artigo sobre a entrevista. Acabou deixando o Caetano muito irritado.

O título do artigo foi Caetano, pajé doce e maltrapilho.
O Paulo Francis disse que o Caetano simbolizava a miséria raquítica do baiano e interiorano brasileiro.
Que as perguntas de Caetano só serviam pra seminários de comunicação no interior da Bahia.
Que a juventude brasileira se rendia a Caetano porque a intelectualidade oficial do Brasil era fraca.
O Caetano ficou muito furioso quando leu o artigo.
Deu uma entrevista esbravejando, falando que o Paulo Francis escreveu tudo aquilo usando um tom de bicha amarga, enquanto bebia whisky em Nova York.
Que ele contou uma história mentirosa no artigo e que tudo o que o Paulo falou no texto tava errado.
Falou que o Paulo Francis tinha inveja dele e que, apesar de morar em Nova York, não escrevia pra nenhum jornal de lá.
O Paulo Francis assistiu essa entrevista e escreveu outro texto.
Falou que a resposta do Caetano depois das críticas culturais que ele fez foi chamar ele de bicha amarga e recalcada. E falou que essa reação de Caetano era puro Brasil.
O rancor de Caetano ficou guardado por 6 anos até que desabrochou
Caetano ficou remoendo toda essa história até que, seis anos depois, ele foi fazer um show em Roma, na Itália.
Em belo dia, ele acordou e viu os carros empoeirados, todos cobertos com um pó bem fino. Ele achou muito curioso e perguntou pros italianos por que aquilo acontecia.
Explicaram pra ele que aquilo era areia do deserto do Saara e que, em determinada época do ano, as tempestades traziam essa areia pra Itália.

Caetano achou isso muito interessante e na hora sentiu que aquilo poderia ser um começo da resposta a Paulo Francis e a todo mundo que diminuía a cultura brasileira:
Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
sobre os automóveis de Roma
E depois, Caetano puxa a orelha de Paulo Francis:
Você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
E na sequência, Caetano meio que chama Paulo Francis de sem cultura, colocando um monte de referências na letra que ele não reconheceria:
Quem não rezou a novena de Dona Canô
quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
quem não amou a elegância sutil de Bobô.
E finaliza com uma sacada genial usando a região da Bahia onde ele nasceu, pra criticar aqueles que não são capazes de entender as próprias raízes e nem sabem reconhecer as identidades culturais de fora:
Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo
Ouça “Reconvexo”:
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