Homem foi rejeitado por 50 anos pela mesma mulher: a história triste e real de "Mercedita"

Um dos clássicos do folclore latino-americano que muita gente jura ser brasileiro, esconde uma história de amor surpreendente.

Pouca gente sabe que a história que Mercedita conta é real e muito mais triste do que parece.

Em 1939, um grupo de teatro chegou para se apresentar numa cidadezinha do interior da Argentina. Entre os artistas, Ramón, um poeta de 27 anos que também tocava violão.

Ramón Sixto Rios
Ramón Sixto Rios

A peça começou, e Ramón ficou olhando, lá de cima do palco, uma menina loirinha que estava assistindo. Quando deu o intervalo, ele desceu e chamou a menina para dançar. E a menina aceitou.

Essa menina era Mercedes Strickler, filha de colonos suíços. O pai dela morreu quando ela tinha sete meses, e ela precisou aprender a trabalhar na roça muito cedo para ajudar a mãe. Com quatro anos já estava mexendo com gado. Adolescente, já cuidava do sítio, viajava sozinha de moto e virou uma mulher autossuficiente.

Mercedes Strickler
Mercedes Strickler, a verdadeira Mercedita

Ramón se encantou com ela, e os dois acabaram ficando juntos nesses dias em que o grupo de teatro estava na cidade. Ele foi embora, mas eles continuaram se falando por cartas. Ficaram dois anos namorando só por carta.

Até que um dia ele decidiu viajar até a cidade dela de surpresa e a pediu em casamento. Mercedes também estava apaixonada por ele, mas nesse momento, quando ele fez o pedido, ela se desapaixonou, na hora. Tudo o que ela sentia por ele foi embora, e ela recusou o pedido de casamento.

RAMON E
Ramón e Mercedes

Ela não queria compromisso. A ideia de ter que ficar junto com ele para sempre acabou apagando o fogo de uma hora para outra.

Ramón voltou para a cidade dele triste, mas mesmo assim não parou de mandar cartas para ela. Continuou amando Mercedes loucamente, mesmo sem ser correspondido.

Ela seguiu respondendo, mas um dia resolveu parar. Já estava com pena dele. As cartas eram tão tristes que ela chorava quando lia. Para não alimentar uma esperança nele, não respondeu mais. Ele continuou mandando, mesmo sem receber resposta.

O nascimento de Mercedita

Quando finalmente Ramón percebeu que aquele amor só ia existir na memória, resolveu eternizar numa música as frases que costumava dizer para ela.

Que dulce encanto tienen
Tus recuerdos, Merceditas
Aromada florecita
Amor mío de una vez

Depois de compor esse clássico para a amada Mercedes, que não queria nada com ele, Ramón acabou casando com outra mulher, só que dois anos depois ficou viúvo.

Mercedes ouviu a música no rádio e reconheceu na hora as frases inteiras que Ramón escrevia para ela.

Así nació nuestro querer
Con ilusión, con mucha fé
Pero no sé por qué la flor
Se marchitó y muriendo fué

O último pedido

Depois do lançamento da e Mercedita, os dois não se falaram mais, e aquela história toda parecia ter acabado.

Mais de quarenta anos se passaram quando, nos anos 80, Mercedes deu uma entrevista para uma revista de Buenos Aires, e Ramón leu. Ele entrou em contato com ela e a convidou para ir a Buenos Aires. Ele já estava com 80 anos, e ela, com 76. Mercedes nunca tinha casado, não teve filhos.

Então Ramón a pediu novamente em casamento, e ela disse não, de novo. E Ramón ficou mais apaixonado ainda.

Ramón e Mercedes nos anos 80, no último encontro dos dois.
Ramón e Mercedes nos anos 80, no último encontro dos dois.

A partir desse momento, Ramón começou a escrever para ela uma carta por dia, e fez isso até o Natal de 1995, quando morreu.

Ramón deixou para Mercedes todos os direitos autorais de “Mercedita” e, seis anos depois, Mercedes morreu sem nunca ter se casado.

Amándola con loco amor
Así llegué a comprender
Lo que es querer, lo que es sufrir
Porque le dí mi corazón

Ouça “Mercedita”

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Toca Raul, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.