"Nossa voz é uma flecha viva": 1º grupo de rap indígena do país é de MS e conquistou o mundo
Em entrevista exclusiva ao Primeira Página o grupo Brô Mc’s conta detalhes da carreira e resistência
Eles surgiram em Dourados e se tornaram referência nacional e internacional ao unir rap, cultura indígena e a língua guarani em suas músicas. Há 17 anos, o grupo Brô Mc’s faz do rap uma ferramenta de resistência, denúncia e valorização dos povos indígenas.
O grupo Brô Mc’s, formado por Bruno Veron, Clemerson Batista, Kelvin Mbaretê, Jhonis e CH MC, é reconhecido como o primeiro coletivo de rap indígena do Brasil. Desde 2009, os integrantes utilizam a música para contar a própria realidade, combater estereótipos e mostrar ao país a cultura dos povos Guarani e Kaiowá.
Com sucesso internacional, eles já passarem pelo Grammy Latino, G20, Global Citizen, Rock in Rio e projetos internacionais ligados à preservação ambiental e tecnologia ancestral.

A trajetória começou de forma simples, ouvindo fitas gravadas em rádios locais e acompanhando artistas nacionais e internacionais do hip hop. Aos poucos, os jovens perceberam que o rap poderia ser muito mais do que entretenimento.
“Eu me identifiquei com o rap, porque ele fala da sua realidade local, também como as paradas sociais, essas paradas aí. Então, a partir disso eu me identifiquei com o rap”, relembra um dos integrantes, Kelvin Mbaretê
Na época, segundo eles, a imagem dos indígenas era frequentemente distorcida pela sociedade e pela mídia. O grupo enxergou na música uma oportunidade de apresentar a própria versão da história.
“Quando acontecia alguma coisa, a realidade era contada por outras pessoas. Nós entendemos que precisávamos falar por nós mesmos”, afirmam.
Rap em guarani conquistou indígenas e não indígenas
Uma das principais marcas do Brô Mc’s é a utilização da língua guarani nas composições. O diferencial chamou a atenção tanto de indígenas quanto de pessoas de fora das aldeias.

Segundo os artistas, o uso da língua materna ajudou a fortalecer a identidade cultural e permitiu que outros povos indígenas se reconhecessem nas músicas.
“A nossa língua, a nossa cultura que a gente leva em cima do palco, eu acho que isso fez com que os nossos parentes e outros indígenas se identificassem com isso”, explicam.
Ao longo dos anos, o grupo percebeu que as canções despertavam interesse não apenas pela sonoridade, mas também pelas mensagens sobre território, cultura, ancestralidade e direitos indígenas.
Em 2026, o grupo recebeu diversos elogios do rapper Xamã, um dos principais nomes da cena no país, e referência para muitos artistas.
O rapper contou que conheceu o grupo em 2021, em uma premiação de igualdade racial, e já produziram músicas e rimas, trocaram experiências de “flow”. Em 2022, o grupo de apresentou no palco do Rock In Rio a convite do Xamã, levando a importância indígena para o palco do festival.
Superando preconceitos
Mesmo com reconhecimento nacional e internacional, os integrantes afirmam que o preconceito ainda existe. No entanto, acreditam que a situação mudou significativamente desde o início da carreira.
“Foi um desafio tão grande pra nós, porque em alguns casos a galera não aceitava, porque a gente era indígena. Hoje em dia a galera já está mais ciente sobre a realidade dos povos indígenas. Teve muito preconceito no começo”, avaliam.
Para eles, a trajetória do grupo ajudou a ampliar o debate sobre os povos originários e a combater visões estereotipadas.
A resistência, segundo os artistas, também veio do apoio da própria comunidade e da família. Alguns integrantes são descendentes de famílias de rezadores tradicionais, que sempre incentivaram o trabalho realizado através da música.
Ferramenta de resistência
Mais do que um gênero musical, o rap é definido pelos integrantes como uma ferramenta de luta e transformação social.
“A gente escolheu o rap pra isso, né? É uma ferramenta pra gente mostrar o nosso protesto, mostrar sobre algo que incomoda a gente, né? Passar a visão”, afirmam.
Além das letras, os artistas incorporam elementos da cultura tradicional indígena nas apresentações, incluindo cantos e referências à espiritualidade e à cosmologia Guarani Kaiowá.
“O rap indígena hoje é uma ferramenta de resistência.”
Legado para novas gerações
Passados 17 anos desde a formação do grupo, os integrantes observam o surgimento de novos MCs indígenas em diferentes regiões do país.
Para eles, esse movimento demonstra que a música ajudou a abrir caminhos para que outras vozes indígenas ocupassem espaços antes inexistentes.
“Quando o Bro MC’s surgiu, praticamente não existia uma voz indígena dentro do rap brasileiro. Hoje vemos parentes de várias etnias fazendo música, contando suas histórias e ocupando esses espaços.”

Além das apresentações artísticas, o grupo também realiza oficinas de rap e hip hop originário, movimento que hoje mobiliza uma nova geração de jovens indígenas em diferentes regiões do país.
A atividade é uma experiência coletiva de criação, reunindo rimas, batidas e diferentes línguas indígenas em um verdadeiro exercício de rap ancestral, demonstrando como a cultura hip hop pode se tornar uma ferramenta de fortalecimento identitário, intercâmbio cultural e preservação das línguas originárias.
O grupo acredita que seu principal legado é mostrar às novas gerações que a identidade indígena não deve ser vista como obstáculo, mas como força.
“E o mais importante, eu sempre falo pra galera, a nossa voz, a nossa fala, é uma flecha viva, eu sempre falo”.
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