O compositor esquecido de "O Rei Leão" que morreu pobre e deixou a família na miséria

Essa é uma das músicas mais conhecidas do mundo e fez parte da trilha sonora de um dos filmes mais assistidos da história. Mas um movimento de racismo e apropriação cultural transformou uma expressão africana num fenômeno da música pop, e o compositor, negro, não viu a cor do dinheiro.

Em 1939, um trabalhador braçal sul-africano começou a cantar num coral chamado Evening Birds. Eles participaram de uma competição de corais e tiveram a oportunidade de gravar uma música numa gravadora, a primeira gravadora da África, chamada Gallo.

O nome dele era Solomon Linda.

Solomon Linda
Solomon Linda

Gravaram uma composição dele, que tinha uma palavra só, repetida várias vezes. Era uma palavra que, para ele, representava coragem.

Finalizaram a gravação em três takes e, na terceira vez, ele pegou o microfone e começou a improvisar uma melodia com a voz, cantarolando em cima da palavra que o coral estava cantando. Ele não sabia que esse improviso se tornaria uma das melodias mais conhecidas do mundo.

Essa gravação acabou tendo um impacto tão grande na música africana que inaugurou um novo gênero musical, chamado Isicathamiya.

Da África para Nova York

Dez anos depois, um musicólogo inglês que morava na África do Sul garimpou uns discos que estavam num depósito de uma gravadora e mandou esses discos para Nova York.

Os discos chegaram em Nova York e ninguém deu muita bola, porque pareciam cânticos tradicionais africanos, não tinham apelo popular para os americanos.

Até que um músico de folk chamado Pete Seeger ouviu um desses discos e se apaixonou por uma das músicas. A música de uma palavra e um improviso, de Solomon Linda, cantada pelo coral Evening Birds.

Evening Birfds
Evening Birds

O Pete gravou essa música, errou a pronúncia da palavra, mas mesmo assim a música fez muito sucesso. Mas a jogada de milhões de dólares veio 12 anos depois.

Uma banda resolveu regravar a música do Pete, mas pediu para o grande compositor George David Weiss escrever uma letra para aquela parte de melodia improvisada:

In the jungle, the mighty jungle
The lion sleeps tonight
Na selva, a poderosa selva
O leão dorme esta noite

O George Weiss escreveu essa letra e registrou a música toda no nome dele e dos produtores parceiros. Ignoraram o verdadeiro compositor, Solomon Linda. Na cabeça deles, aquela era só uma música exótica que veio da África, e o compositor poderia ser alguém que morava na selva.

Como o racismo apagou o compositor

Quano a música foi gravada pela primeira vez nos estados unidos, ligaram pra gravadora Gallo, do Evening Birds, na Africa do Sul. Mas como era um coral formado por homens negros que viviam sob um regime de apartheid, nenhum dos executivos se importou em passar os créditos corretos da música.

Disseram que era uma música cantada por alguns corais tradicionais da cidade. E por isso os americanos trataram a música como sendo uma canção de domínio público.

Mas quando a gravadora Gallo percebeu que a música estava começando a fazer sucesso nos Estados Unidos, chamaram Solomon Linda – que era analfabeto e empacotador de discos da gravadora, e o fizeram assinar um contrato cedendo todos os direitos autorais da música para a Africa Do Sul.

A miséria do verdadeiro autor do sucesso de O Rei Leão

A essa altura, na África do Sul, morria o verdadeiro compositor, o trabalhador sul-africano Solomon Linda, com 10 dólares na conta, deixando a família na miséria.

30 anos depois, enquanto a família de Solomon passava fome na África, Hans Zimmer e Elton John escolheram a música para ser trilha sonora de um dos filmes mais assistidos da história: O Rei Leão.

Rei Leao
Capa do filme “Rei Leão” lançado em julho de 1994.

Originalmente, a palavra que Solomon escreveu para essa música foi Mbube, que significa “leão” em zulu. Os americanos, por algum motivo, gravaram Wimoweh, que não tem significado nenhum.

The Lion Sleeps Tonight gerou mais de 15 milhões de dólares em direitos autorais entre 1991 e 2000, e a família de Solomon passando dificuldades.

Em 2005, um jornalista sul-africano chamado Rian Malan expôs a história de injustiça numa reportagem à revista Rolling Stone, e aí advogados e ativistas começaram disputas judiciais para reaver os direitos de Solomon Linda para a família.

Em 2006, conseguiram um acordo, mas dizem que até hoje a família não recebeu nem 10% do que era de direito.

Pelo menos hoje o nome de Solomon Linda aparece nos créditos da composição.

Ouça “The Lion Sleeps Tonight” na versão do filme, adaptada por George Weiss e na sequência, a versão original cantada pelo compositor Solomon Linda:

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Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Toca Raul, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

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