O feminicídio que virou sucesso no Brasil nos anos 70

Nos anos 70, casais rodaram pistas de baile e salões de casamento embalados por uma música que ninguém entendia e que, na verdade, narrava um crime brutal

Nos anos 70, o Brasil inteiro cantou a confissão de um feminicídio achando que estava cantando uma música romântica. Essa música tocou em muitos casamentos, e os casais dançavam coladinho sem nem sonhar que estavam sendo embalados pela história de um crime brutal.

Muita gente até hoje não sabe que é um brasileiro que canta essa música.

Brasileiros com nome americano

É que, nos anos 70, as gravadoras no Brasil começaram a apostar em cantores brasileiros cantando em inglês, porque a música internacional dominava as paradas. Só que era caro trazer o catálogo internacional para vender aqui. Ficava mais barato colocar brasileiro cantando música em inglês.

A censura estava pegando forte, então era bem mais simples lançar músicas em inglês: os censores não traduziam as letras.

Fábio Jr. virou Mark Davis. O Feghali, do Roupa Nova, virou Richard Young. O Ralf, do Christian e Ralf, virou Don Elliot.

Antes dessa onda começar, um grupo de músicos de São Paulo já tinha montado uma banda para cantar músicas internacionais. E eles começaram a fazer o maior sucesso nos bailes de São Paulo.

Quando as gravadoras descobriram, assinaram com eles para gravar um disco todo em inglês, com músicas inéditas. Em três meses eram disco de ouro. Estavam vendendo igual ao Roberto Carlos.

A música de maior sucesso desse disco é essa que todo mundo achava que era romântica, mas na verdade era a confissão de um assassinato.

Um livro de frases e uma tragédia

Quando eles foram fazer a música, nem imaginavam que ia fazer sucesso. Eles tinham uma melodia, mas não falavam inglês fluentemente.

O pai de um dos integrantes da banda tinha um livro chamado: “O Inglês Tal Qual se Fala no Presente”, um livro de frases e pronúncias em inglês.

Capa da coleção "O inglês tal qual se fala no presente"
Capa da coleção “O inglês tal qual se fala no presente”

E aí, na hora de colocar a letra, eles abriam aquele livro e iam colocando o dedo em frases aleatórias. Foram juntando aquelas frases todas. Ninguém ia entender nada mesmo:

There was a place that I lived
Havia um lugar onde eu vivia

And a girl, so young and fair
E uma garota, tão jovem e formosa

Só que a escolha dessas frases acabou levando Hélio Santisteban e Oswaldo Malagutti, do Pholhas, a contarem uma história terrível. Mas, antes disso, a letra estava tão aleatória que não fazia sentido.

I have seen many things in my life
Eu vi muitas coisas na minha vida

Some of them I’ll never forget
Algumas delas eu nunca vou esquecer

Everywhere
Em todo lugar

E no refrão, a tragédia: o narrador confessa que foi mandado para a prisão por ter assassinado a própria esposa:

I was sent to prison
Fui mandado para a prisão

For having murdered my wife
Por ter assassinado minha esposa

Because she was living with him
Porque ela estava vivendo com ele

I lost my head and shot her
Perdi a cabeça e atirei nela

É claro que a letra não foi completamente aleatória. As frases aleatórias acabaram conduzindo a história pra esse lugar e a partir daí eles assumiram.

Acontecen que o Hélio e o Oswaldo não tinham um conhecimento profundo do inglês, por isso a letra não tem nenhuma metáfora, nenhuma ironia. É direta e reta. O homem foi preso porque matou a esposa depois de descobrir que ela estava com outro.

Pholhas na formação original.
Pholhas na formação original.

Mas pelo menos conseguiram levar esse homem ao arrependimento: nos versos finais, ele diz que aquela era a sua história no passado, que vai se regenerar, que está pagando pelo seu erro e que nunca mais será o mesmo homem.

“My Mistake” fez sucesso na Espanha e na América do Sul, mas nos Estados Unidos e na Inglaterra não teve jeito.

Ouça: “My Mistake”

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