Por que a música "Construção" de Chico Buarque é considerada uma obra-prima da música brasileira?
Chico conseguiu tirar uma fotografia ampla e complexa da vida de um trabalhador da construção civil, que representou a situação de milhões de outros trabalhadores pelo Brasil.
Era 1971. O Brasil vivia sob o regime militar mais duro da sua história, logo após o AI-5. A censura derrubava músicas, poemas e peças de teatro. Foi nesse clima sufocante que Chico Buarque lançou “Construção” e conseguiu dizer tudo o que não podia ser dito de uma maneira genial.
A música é dividida em três blocos, cada um com 12 versos. Todos os versos são alexandrinos, com 12 sílabas poéticas:
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Cada bloco termina com palavras proparoxítonas, com acento na antepenúltima sílaba: última, único, tímido. Chico Buarque usou essa estrutura complexa para criar uma poderosa crítica social.
A letra narra o último dia de vida de um trabalhador da construção civil. A repetição e a substituição das palavras ao longo da letra criam novas situações, o que reforça cada vez mais a desumanização do trabalhador. O pedreiro não tem nome, não tem rosto, ele é apenas mais um corpo descartável numa engrenagem que não para. E, apesar de toda essa crítica, a complexidade da narrativa conseguiu driblar a censura em pleno 1971.
A melodia de “Construção” é caracterizada por uma natureza repetitiva e circular, feita para refletir a monotonia do trabalho na construção civil. A cadência da melodia simula o ritmo do trabalho do pedreiro: constante, pesado, invisível.
“Construção” não é só uma obra-prima, é um monumento à vida de milhões de brasileiros que erguem cidades com as próprias mãos e ainda assim seguem sendo tratados como invisíveis.
Chico transformou a história de um homem sem nome em um grito que dura mais de 50 anos, que, infelizmente, ainda ecoa com muita pertinência nos dias de hoje.
Ouça “Construção”:
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