Rapper indígena e rezadores Kaiowá de MS lançam álbum com produtor do Pink Floyd

Com o lançamento no próximo sábado (18), “Shamans in Space” será distribuído a cerca de 5 mil lojas ao redor do mundo

O rap e a fé indígena de Mato Grosso do Sul se conectam à produção musical internacional em um álbum que está prestes a ganhar o mundo. O vinil “Shamans in Space” será lançado neste sábado (18) e traz o canto ancestral dos rezadores Guarani Kaiowá, além do rapper indígena Kelvin Mbaretê, integrante do Brô MC’s, o primeiro grupo de rap indígena do Brasil. O trabalho tem a produção do britânico Martin “Youth” Glover, nome por trás do último álbum do Pink Floyd, e do músico Tymon Dogg, que já trabalhou com o The Clash no auge do movimento punk rock nos anos 1970.

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Rezadoras que participaram do projeto. (Foto: Divulgação)

O álbum reforça o intercâmbio cultural entre a produção brasileira e internacional e registra, por meio da música, os saberes e as expressões tradicionais do povo Guarani Kaiowá. O projeto faz parte de uma parceria acadêmica liderada pela Universidade de Londres, em colaboração com a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).

Lançamento

Com o lançamento no próximo sábado (18), “Shamans in Space” será distribuído a cerca de 5 mil lojas ao redor do mundo. A partir de 1º de maio, o trabalho também estará disponível nas plataformas digitais, ampliando ainda mais o alcance de um projeto que nasce nos cantos sagrados dos povos Guarani e Kaiowá. Participam rezadores e rezadeiras de cidades como Dourados, Antônio João e demais cidades do Cone Sul.

No álbum, as lideranças espirituais Guarani Kaiowá não apenas assumem a participação, mas a direção do projeto, conforme explica uma das pesquisadoras e coordenadora, Fabi Fernandes.

“A gente fez questão de que tudo seja construído com os anciãos, etapa por etapa. Eles são os diretores de tudo. Não é só colocar o nome deles como coautores, é garantir que a decisão final seja sempre deles. Isso muda completamente a forma de produzir arte e conhecimento.”

Fabi Fernandes.

Ao lado dessas vozes, surge o rap indígena de Kelvin Mbaretê, membro fundador do Brô MC’s e embaixador do Prêmio Sim à Igualdade Racial – Multishow, que já colaborou com artistas do calibre de Alok.

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Kelvin Mbaretê. (Foto: Instagram)

“A música deixa de ser só música. Ela vira reza, vira mensagem, vira cura. O rap sempre foi minha arma de luta, mas os cantos sagrados são a voz dos nossos ancestrais. Quando essas duas forças se encontram, tudo muda.”

Kelvin Mbaretê.

“Antes, nossa luta era ouvida só aqui. Hoje, com a música, o mundo começa a ouvir. A flecha vira palavra que atravessa fronteiras. É uma forma de mostrar que a gente continua resistindo, mas também criando, vivendo e sonhando. Eu não penso só no beat ou na rima. Eu penso na energia, no que aquela música vai levar para quem escuta. É como se cada som tivesse um propósito maior.”

Kelvin Mbaretê.

A participação dos rezadores no processo de gravação reforça o caráter de preservação cultural do projeto, ao mesmo tempo em que a presença de produtores com experiência em grandes nomes do rock internacional amplia o alcance da iniciativa.

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Rezadora participando da gravação do vinil. (Foto: Divulgação)

O produtor britânico Martin “Youth” Glover, nome fundamental da música contemporânea, atualmente integra a banda de Paul McCartney, com uma trajetória que inclui ainda colaborações com Guns N’ Roses, U2, The Verve, entre outros grandes nomes da música mundial.

Para Youth, trabalhar com os rezadores Guarani Kaiowá desloca completamente o processo criativo.

“A ideia de transformar o estúdio em um espaço mais próximo de um ritual ou de uma cerimônia, onde tocamos juntos, guiados por essas tradições, é algo profundamente inspirador.”

Martin “Youth” Glover.

Já Tymon Dogg atravessa décadas conectando folk, experimentalismo e performance. Seu violino, historicamente associado à música erudita europeia, no vinil ganha novos sentidos ao dialogar com os cantos sagrados.

Ao lado de Youth, também participa Matt Black, cofundador da Ninja Tune e um dos pioneiros da cultura do sampling e da música eletrônica contemporânea.

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Rezadoras que participaram do projeto. (Foto: Divulgação)

Parte das faixas nasce do encontro entre a música eletrônica contemporânea e cantos tradicionais autorizados para experimentação, como os guahú e guaxiré — cantos ligados à alegria, à celebração e à conexão com os espíritos da mata e dos animais.

Ao mesmo tempo, as rezas sagradas, em sua forma pura, foram preservadas sem qualquer interferência. Esses cantos, considerados mais sensíveis dentro da cosmologia Guarani Kaiowá, aparecem como uma experiência complementar ao álbum.

No encarte do vinil, um QR Code direciona o público para um registro especial com cerca de 15 minutos dessas rezas, mantendo sua integridade e função espiritual.

“Shamans in Space”

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Capa do vinil “Shamans in Space”. (Foto: Divulgação)

“Shamans in Space” é fruto do projeto internacional de pesquisa Sounding Futures, desenvolvido em parceria entre o UCL Multimedia Anthropology Lab (UCL MAL), sediado na University College London, o Instituto para o Desenvolvimento da Arte e da Cultura (IDAC) e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS).

A gravadora Liquid Sound Design, responsável pela produção do álbum, é um selo independente sediado no Reino Unido, reconhecido por sua atuação na cena global de música eletrônica psicodélica.

O projeto ainda envolve as lideranças espirituais Guarani Kaiowá Nhandesy Roseli, Nhandesy Fausta e Nhanderu Tadeu (rezadoras e rezador responsáveis pela direção espiritual e curadoria dos cantos), além da coordenação de Raffaella Fryer-Moreira, Fabi Fernandes e o DJ indígena Scott Hill, entre outros artistas e pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da obra.

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