Raul Seixas chamou Ernesto Geisel de veado: a história de Capim Guiné
O Brasil inteiro canta essa música sem perceber que ela é um protesto contra o regime militar
Em 1982, Raul Seixas estava precisando se desintoxicar da cidade grande e resolveu fazer uma viagem para o interior do Brasil.
Raul era muito amigo do cineasta Beto Sodré, e ele vivia falando da cidade em que tinha nascido, no interior da Bahia. Então poderia ser um bom momento para conhecer a cidadezinha de que o amigo vivia falando.
E eles foram.

A música da pracinha
Quando chegaram na cidade, foram andar numa pracinha e começaram a ouvir uma música ao vivo. Era uma banda da cidade que estava ensaiando para um festival.
Só que a música que eles estavam tocando era tão boa que Raul Seixas teve que ir lá perguntar de quem era. Ele ficou tão encantado com a linguagem daquela música que até falou para Beto Sodré que aquela era uma música que ele gostaria de ter escrito..
Perguntou para os caras da banda quem era o compositor, e eles disseram que era de um cara ali da cidade, que estava morando na capital, em Salvador.
Raul ficou por ali, ouvindo a música mais vezes, e, quando voltou para casa, levou essa música junto na memória.

Quando foi escolher as músicas do disco novo que estava gravando, lembrou da música e resolveu que ia gravar. Ligou para o amigo Beto Sodré à meia-noite, cantou a música e pediu para ele tentar fazer contato com o compositor, que era da cidade dele.
Raul tinha feito algumas mudanças na letra da música e queria saber se o compositor ia concordar. A principal delas foi logo no começo: a letra original falava em pé de jabuticaba, mas ele trocou a jabuticaba pelo nome da cidade de Beto Sodré, que também era a cidade do compositor.
Ligou para o compositor e, para convencê-lo da mudança, falou:
“Ouve só, a sua cidade vai ficar famosa no Brasil inteiro:”
Plantei um sítio no sertão de Piritiba…
O compositor piritibano, Wilson Aragão, no telefone com Raul Seixas, aceitou a mudança.

Só que a frase seguinte falava de Guabiraba, uma planta que rimava com jabuticaba, como era originalmente, não com Piritiba.
Pra resolver isso, Raul Seixas inventou uma planta para rimar com Piritiba:
Dois pé de guataíba, cajú, manga e cajá
Ninguém nunca viu um pé de guataíba porque não existe.
A história real por trás da letra
Raul Seixas nem sabia que essa música estava falando de uma história real e violenta vivida pela família do compositor Wilson Aragão.
Alguns anos antes, a fazenda da família de Wilson tinha sido invadida por grileiros armados. Os caras cortaram as cercas e deixaram o gado comer toda a plantação de melancia deles.
Eles foram para Brasília, ao Ministério da Agricultura, para tentar alguma solução que evitasse a perda da terra para os grileiros. Só que a família dele fazia oposição à ditadura militar. Os militares ficaram sabendo disso e responderam que aqueles grileiros podiam invadir as terras à vontade.
Nenhum político ou figurão da cidade quis ajudar a família.
Wilson ficou com muita raiva e escreveu essa música usando animais para representar esses personagens:
Sussuarana só fez perversidade
Pardal foi pra cidade
Peruá minha saqué (qué, qué)
Dona raposa só vive na mardade
Me faça a caridade, se vire dê no pé
O presidente do Brasil na época era Ernesto Geisel, que, mesmo sabendo da invasão, não quis resolver.
Tá vendo tudo e fica aí parado
Com cara de veado que viu caxinguelê

Apesar das referências a censura nunca desconfiou de tudo o que essa letra falava.
Ouça “Capim Guiné”:
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