Trem do Pantanal: hino de MS nasceu “no susto” durante viagem a Machu Picchu
Uma viagem, um violão dedilhado dentro de um trem e o olhar atento para a paisagem do Pantanal
Uma viagem rumo a Machu Picchu, um violão dedilhado dentro de um trem e o olhar atento para a paisagem do Pantanal. Foi assim, entre improvisos e descobertas, que nasceu “Trem do Pantanal”, uma das músicas mais emblemáticas de Mato Grosso do Sul.

Em relato no podcast Na Língua do Primeira Página, o cantor, compositor e instrumentista Paulo Simões revelou detalhes pouco conhecidos sobre o processo de criação da canção, que tempo depois recebeu o nome “Trem do Pantanal”, feita em parceria com Geraldo Roca em 1975.
Segundo Simões, a ideia da viagem surgiu do desejo de explorar o desconhecido.
“Machu Picchu era um grande mistério. Algo que atraía como um ímã pessoas curiosas como nós”, contou.
A ideia inicial era atravessar a América do Sul, conhecer a cidade histórica e, de forma improvisada, custear a jornada. Eles pretendiam comprar obras de arte em Cuzco e vender para amigos e familiares e assim, pagar a viagem, além de uma continuação para a Califórnia.
A dupla embarcou em Campo Grande rumo a Corumbá, pela antiga linha da Noroeste do Brasil. Diferente de uma viagem anterior, feita às escondidas com um amigo, dessa vez as famílias estavam cientes, embora não muito satisfeitas.
“Minha mãe tentou me tirar do trem até o último minuto. O trem apitou três vezes e eu falei: ‘desce, minha mãe’”, relembrou.
A música nasce dentro do trem
Já instalados em uma cabine, escolha estratégica para proteger os instrumentos, Simões e Roca iniciaram a jornada sem imaginar que dali surgiria um clássico.
Após um brinde no vagão-restaurante para comemorar o início da jornada, voltaram para descansar. Foi então que a música começou a tomar forma.
“Antes de dormir, o Roca começou a dedilhar o violão e assobiar uma melodia. Eu achei interessante, desci do beliche e falei: ‘isso aí é uma música’”, contou.
A melodia, segundo ele, tinha algo diferente. “Era uma junção de ritmo, melodia e harmonia que soava nova. Tinha uma entonação que lembrava a ‘blue note’, aquela nota que sai do caminho e depois volta.”
Mesmo sem muita convicção inicial de Roca, Simões insistiu na ideia. A partir dali, a dupla passou a desenvolver a canção ao longo da viagem, entre paradas e momentos de descanso.
A letra de “Trem do Pantanal” começou a surgir a partir do cenário ao redor. Dentro do trem, cruzando o Pantanal, Simões buscou referências imediatas.
“Eu olhei pela janela e vi o Cruzeiro do Sul. Foi daí que começamos. Pensei: estamos num trem, atravessando o Pantanal… vamos escrever sobre isso.”
A composição foi construída aos poucos, sem pressa, acompanhando o ritmo da viagem. Em cada parada, a dupla colocava novas experiências em cada frase da canção.
De “Todos os Trilhos da Terra” ao sucesso
Inicialmente, a música recebeu outro nome: “Todos os Trilhos da Terra”. No entanto, o público acabou batizando a canção de forma espontânea.
“Todo mundo pedia: toca aquela do Trem do Pantanal. A gente não era teimoso”, disse Simões.
O título definitivo “Trem do Pantanal” se consolidou cerca de um ano depois, quando a música já circulava em apresentações informais entre amigos, em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo.
Curiosamente, a canção só foi gravada oficialmente em 1980, primeiro pela cantora Diana Pequeno, com participação de Almir Sater, que posteriormente também registraria sua própria versão e ganharia o mundo.
Desde então, “Trem do Pantanal” atravessou gerações, ganhou regravações e se consolidou como um verdadeiro símbolo cultural do estado.
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