A busca do corpo perfeito: até onde a saúde física não impacta a saúde mental?

Comparação não é mais com alguém importante, como uma atriz de sucesso, é consigo mesmo

Cada momento da história traz suas particularidades, seus costumes, seu jeito de agir. Dentro disso vem a preocupação com a forma de vestir-se e o modo de cultuar o próprio corpo, este que parece ser o retrato de cada época.

Saiba até onde a saúde física não impacta a saúde mental. (Vídeo: Marcos Estevão)

No período que vai da antiguidade até o século XVIII, a busca, principalmente pelo seguimento feminino, era de um corpo mais cheio, que transmitia saúde, fertilidade e riqueza. Já nesse tempo pretérito a magreza era vista exatamente como o oposto, seria sinal de doença e pobreza.

No século passado, vivemos a época da cintura fina, ainda que às custas de espartilhos; mamas pequenas. Já na segunda metade do século passado surgiu o culto ao corpo magro e sarado, que veio, sendo neuroticamente perseguido com atividades físicas extenuantes e dietas rigorosas.

Adolescentes e adultos jovens buscavam e ainda buscam não apenas a perda de peso, mas o chamado corpo perfeito, “Slim Thick” — cintura fina, bumbum grande e empinado, coxas grossas e seios médios — com necessidade, muitas vezes, de procedimentos estéticos invasivos e até mesmo o uso de anabolizantes para conquistar seu intento.

Ultimamente, e paralelamente a tudo isso, chegamos às cirurgias bariátricas e, mais recentemente, às famosas canetas emagrecedoras. Agora não mais apenas a perseguição àquele corpo perfeito, bem definido, mas à volta da magreza extrema dos anos noventa do século passado, tudo, desde pouco tempo, chancelado pela saúde das canetas.

A comparação não é mais com alguém importante, como uma atriz de sucesso, é consigo mesmo, com o espelho, que mostra a realidade imperfeita, encontrada na perfeição injetável de um sonho.

O corpo perfeito já foi um prêmio da natureza, hoje é mais um produto de laboratório; o corpo perfeito tende a ser modificado de tempos em tempos, de geração em geração, seguindo costumes e aspectos culturais de determinados povos, hoje amplamente influenciados pela comunicação globalizada, de propagação cada vez mais célere.

Pessoas tem enfrentado a comparação consigo mesmo, com o espelho. (Foto: Reprodução)
Pessoas tem enfrentado a comparação consigo mesmo, com o espelho. (Foto: Reprodução)

Quando o objetivo é a saúde física e emocional, como a resolução da obesidade mórbida, de altas taxas de colesterol, de altos níveis de glicose no sangue, de problemas osteoarticulares devido ao excesso de peso, o resultado, sem dúvida, é muito bom.

Quando, porém, a meta é a perfeição física, a saúde mental é quase sempre prejudicada. A obsessão por cálculos de calorias leva à manifestação de sintomas ansiosos permanentes, a comportamento bulímico ou anoréxico.

O fato de não chegar ao corpo ideal ou voltar a ganhar peso no chamado “efeito sanfona” aumenta sintomas depressivos, com prejuízo da autoestima; tudo culmina com um vazio existencial, quando há a percepção de que o corpo perfeito almejado e conseguido não traz consigo a felicidade.

É óbvio e notório que as canetas emagrecedoras quando utilizadas para tratamento de obesidade ou comorbidades, são ferramentas que salvam vidas. O lado negativo e antiterapêutico é visto nos casos usados por quem quer perder alguns poucos quilos para caber em um vestido de festa.

Quando a busca pelo corpo perfeito se torna obsessão, por meio de condutas radicais e nocivas à saúde, há necessidade de buscar ajuda profissional, de início psicológica e, frequentementente, ajuda psiquiátrica. A perfeição é utópica. A busca pela quase perfeição precisa ter como ponto de partida nossa saúde mental.

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