Álcool – Quando o prazer passa a ser problema
Leia mais uma edição da coluna Saúde Mental, com Marcos Estevão; toda segunda-feira tem texto novo no Primeira Página
Bonifácio aos 38 anos de idade vinha tendo desavenças no trabalho com alguns colegas, que haviam informado a chefia de que ele ou faltava às segundas-feiras ou chegava atrasado, com visível aparência de ressaca. Disseram também que algumas vezes sentiram seu hálito alcoólico, quando ele precisava fazer hora extra e seu expediente estendia-se até as 19h00, sugerindo que ele bebia no trabalho depois das 17h00, quando normalmente findava seu horário de serviço.
Ao tomar conhecimento das denúncias, Bonifácio ficou muito chateado e por isso, vinha chegando irritado em casa. Apesar disso, pouco havia discussão familiar, já que sua esposa e filhos sabiam que ele poderia tornar-se violento em estado de embriaguez.
Bonifácio bebia diariamente, sempre no final do expediente de trabalho, começava a beber antes de chegar em casa e lá dava continuidade à bebedeira. Sua experiência com álcool iniciou ainda muito jovem, por volta dos 15 anos de idade, no ano em que seu pai faleceu, vítima de cirrose hepática, causada pela bebida. Na verdade, quando criança, Bonifácio já dava umas goladas no copo de cerveja do pai, que ria da iniciativa do filho, ainda que a mãe fosse contra.
Aos 22 anos de idade Bonifácio concluiu seu curso técnico em computação e um ano depois entrou no grupo de TI de uma grande empresa. Foi sempre um profissional bom e dedicado, mas com o passar do tempo, aumentou seu consumo de etílicos, quase sempre cerveja e algumas vezes vinho. Já não lhe satisfaziam mais algumas latas de cerveja, precisava de um engradado; não lhe era mais suficiente meia garrafa de vinho, necessitava de uma garrafa inteira. Mesmo assim, conseguia arcar com suas responsabilidades familiares e profissionais, até seus 36 anos de idade. Nessa época, começou a ter conflitos em casa com o casal de filhos ainda crianças e com a esposa, que apesar de ter uma vida estressante de professora do ensino fundamental e médio, tolerava na maioria das vezes o mau humor do marido e esperava o momento certo de sobriedade de Bonifácio para tentar convencê-lo de que o álcool estava sendo prejudicial a ele. Lembrava-o do acidente que causou, em estado de embriaguez, ao atravessar um sinal fechado e que, graças a Deus, não houve vítima, nem ocorrência policial, apenas um acerto de boca, porque o outro condutor havia sido seu vizinho e era conhecedor do seu problema.
Pois bem, aos 39 anos de idade, um ano depois da primeira briga no emprego, seu descontrole com álcool era maior, com um consumo deveras exagerado e chegava ao trabalho já com sinais de embriaguez. Sempre foi considerado um excelente funcionário, porém nos últimos anos seu rendimento havia caído muito. Foi chamado pelo chefe imediato que lhe deu a oportunidade de tratar-se, caso contrário seria despedido. Paralelamente, o serviço social da empresa entrou em contato com a esposa de Bonifácio e lhe passou a sugestão da chefia.
Mesmo sem admitir a doença e sem aceitar de boa vontade o tratamento, ele resolveu procurar um profissional, apenas pelo temor de perder o emprego. Foi visto por um psiquiatra, que avaliou o grau de dependência alcoólica, classificou-a no estágio grave e solicitou inicialmente uma internação prolongada, de quatro a seis meses, para desintoxicação. Ainda hospitalizado, teve apoio médico, psicológico, de grupos de autoajuda e de espiritualidade. Depois de quatro meses internado, Bonifácio deu prosseguimento ao seu tratamento ambulatorialmente, seguindo os mesmos apoios que recebeu durante a internação.
Quando falamos em alcoolismo, estamos nos referindo à dependência de álcool. Antes disso, existe o uso social e o abuso; somente depois vem a dependência. O problema é que é muito tênue a fronteira entre os três, ou seja, é muito fácil passar do uso social ao abuso e, mais fácil ainda, do abuso à dependência. Em todos eles temos os casos de embriaguez, responsável por violências e acidentes de trânsito.
O abuso e a dependência podem levar a sérios problemas físicos, como gastrite hepatite, pancreatite, hipertensão arterial, tremores, fraqueza muscular, etc, além de problemas emocionais, como prejuízos da atenção e da memória, irritabilidade e alteração do sono. Ocorrem também prejuízos morais, sociais, familiares, profissionais, policiais e até judiciais por causa da embriaguez.
Chega-se à dependência quando o álcool passa a ser necessário à pessoa, seja todos os dias, seja aos fins de semana; quando sua falta causa ansiedade, desconforto, irritabilidade, muitas vezes tremores matinais; quando há necessidade de aumentar o consumo para sentir o mesmo efeito que antes era experimentado com doses menores; e quando ele passa a ser a maior preocupação na vida de uma pessoa, desde que acorda até a hora que vai dormir, sempre pensando e planejando o próximo copo.
Algo que a princípio seria ligado ao prazer, à descontração e à socialização, que faria parte das reuniões de amigos e das comemorações pessoais ou grupais, se não usado com ponderação, pode tornar-se abusivo ou deixar seu usuário dependente e assim transformar-se em provocador de problemas e doenças. Estima-se que hoje há cerca de 13 a 14% de dependentes de álcool, levando o alcoolismo a ser um sério problema de saúde pública no Brasil e no mundo.
Bonifácio está abstêmio há apenas dois anos, é muito pouco, mas parece focado em seu tratamento. Faz acompanhamento médico e psicológico. Não falta nenhuma semana à reunião dos Alcoólicos Anônimos (AA), assim como todos os domingos vai à igreja, acompanhado da esposa. Tem conseguido o apreço de volta de todos os colegas de trabalho e de sua chefia. Nós aqui de fora continuamos todos torcendo por ele.
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