Alzheimer: lembranças que se perdem

Alzheimer pode resultar em delírios e alucinações, além da perda de memória; saiba mais com o médico e colunista do Primeira Página

Daqui a três anos meus avós vão comemorar suas bodas de ouro. A família toda está esperando pela festa, eles são muito queridos e grandes exemplos para todos nós. Minha infância é sinônimo da casa da vovó. O lugar certo para uma criança crescer e ser feliz.

Foto mostra uma mulher idosa, de cabelos brancos e linhas de expressão, mas serena e tranquila
Alzheimer: saiba sintomas da doença (Foto: Imagem de Gerd Altmann/Pixabay)

Nem eu nem meus irmãos tínhamos do que reclamar, quando passávamos os fins de semana inteirinhos na casa da vovó. Era bom demais! Vovô nos chamava a atenção de vez em quando por nossas traquinagens, mas vovó sempre nos defendia e dizia que tudo era coisa de criança.

Há alguns anos vovó vinha falando sobre a futura festa de 50 anos de vida conjugal ao lado de vovô, mas de dois anos para cá, não fala mais, apenas repete quando abordamos o assunto, parecendo mostrar algum entusiasmo, somente nessa hora.

Ultimamente temos lhe perguntado sobre a festa e ela nem lembra, apenas devolve a pergunta: que festa? Quando a lembramos de que vai completar 50 anos de casada, parece não acreditar, acha que não faz tanto tempo assim. Sabe dizer exatamente quando contraiu matrimônio, mas esquece a data atual.

Vovó acabou de completar 68 anos de idade e sua memória parece bem mais velha que ela. Meu avô tenta manter suas lembranças vivas, mas elas morrem dia após dia. Se pararmos para pensar, nos últimos cinco anos, vovó vem tendo lapsos de memória, fazendo a mesma pergunta diversas vezes no mesmo dia ou até mesmo em poucas horas. Conta uma história passada, repetidamente.

São histórias, que sempre ouvimos com atenção e prazer, mas que agora nos mostram apenas a repetição e que vovó não lembra de ter contado isso hoje, ontem, anteontem e outros dias.
Semana passada, ela resolveu passar a ferro uma calça de meu avô, como fazia antigamente. Assim que terminou de passar, deixou a calça sobre a cama e guardou o ferro, ainda quente, dentro do cesto de roupa suja.

O cheiro de queimado fez que meu avô abrisse o cesto e lá encontrasse algumas peças danificadas pelo ferro quente, sem outros danos. Vovô ficou muito assustado, pois isso poderia ter causado um incêndio em casa.

Outro dia ela desceu até a quadra de esportes do prédio e confiscou a bola de futebol das crianças, que estavam jogando naquele horário, dizendo que ali não era lugar de brincadeira, algo que jamais havia feito e que, pelo seu perfil, jamais faria. Mais tarde, vovô soube disso e devolveu a bola, com um pedido de desculpas ao condomínio.

Vovó estava sofrendo de Doença de Alzheimer, já em sua fase demencial, quando deixa de ser uma enfermidade puramente neurológica e torna-se uma patologia neuropsiquiátrica, a Demência na Doença de Alzheimer ou simplesmente Demência de Alzheimer, onde além dos déficits cognitivos, há também alterações comportamentais.

Há comumente presença de delírios, quando, por exemplo, a pessoa se sente perseguida e de alucinações auditivas e visuais, quando o enfermo ouve ou vê coisas inexistentes.

A doença é progressiva, degenerativa e incurável. Acomete idosos e idosas geralmente acima dos 60 anos de idade, sendo mais comum acima dos 70 e mais comum, ainda, depois dos 80 anos. Em raríssimos casos a doença inicia precocemente, antes dos 60 anos de idade.

O prejuízo da memória e do raciocínio são os primeiros sintomas observados e relatados pela família, mas é importante saber que, ao lado desses, podem surgir sintomas depressivos, com retraimento e perda do interesse por coisas que antes lhe eram agradáveis.

Outros sintomas, como apatia, agressividade, fugas de casa, insônia, etc., frequentemente aparecem durante a evolução da doença.

O tratamento da Demência de Alzheimer é multidisciplinar e deve contar com médicos (geriatra, neurologista e psiquiatra), além de enfermeiros, cuidadores, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, preparadores físicos, etc.

Vovó agora está medicada e bem cuidada. Fazemos o que podemos por ela, que não é nem um terço de tudo que ela fez por nós. Seguramos em cada fio de lembrança e quando ela já tiver esquecido de tudo, inclusive de nós, ainda assim estaremos lá, porque nós não esqueceremos dela.

15/05/2023

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Saúde Mental, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

Leia também em Saúde!

  1. caneta emagrecedora

    'Ozempic brasileiro': Ozivy chega às farmácias com preço a partir de R$ 452

    Ozivy, versão brasileira da semaglutida, chega às farmácias com preços a partir...

  2. Remédio age diretamente nos mecanismos do câncer no sangue. (Foto: Reprodução)

    Pacientes com câncer no sangue ganham nova alternativa de tratamento

    Medicamento oral bloqueia enzimas ligadas ao crescimento descontrolado das células e é...

  3. caravanasaude

    Mutirão terá 30 cirurgias de vesícula por vídeo e de graça em Cuiabá

    Mutirão no HMC vai realizar 30 cirurgias de vesícula por videolaparoscopia entre...