É Amor ou Paixão?

Saindo um pouco da conotação puramente poética de prazer e dor, vamos entrar na cientificidade psicossocial, que não deixa de ser poética, mas perde um pouco da sua leveza

O que leva alguém a amar demais? O que leva alguém a matar ou morrer de amor? Isso tudo acontece mesmo ou não passa de um conto de fadas? Ou é apenas um momento poético que ocupa a vida dos seres mais vulneráveis ao encantamento? Olavo Bilac disse em versos que “só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas”. Será toda essa magia do bem ou do mal?

amor doentio
O amor-próprio é substituído pelo amor doentio pelo outro (Foto: Ilustrativa)

Saindo um pouco da conotação puramente poética de prazer e dor, vamos entrar na cientificidade psicossocial, que não deixa de ser poética, mas perde um pouco da sua leveza.

Ao contrário do que se fala ou do que se pensa, o amor e a paixão não estão alojados no coração e sim na mente humana, mas o coração continua sendo o símbolo destes sentimentos. Todos os sentimentos, bons ou maus, têm a mente como moradia com a contribuição de uma população daqueles hormônios cerebrais, conhecidos como neurotransmissores, dentre eles a dopamina, a vasopressina e a ocitocina.

Afinal de contas qual é a diferença entre paixão e amor? Eu costumo dizer que a paixão é um surto psicótico de amor, quase uma doença mental, que acomete pessoas que passam a ser denominadas de apaixonadas. Estas pessoas experimentam um sentimento alternado de satisfação e sofrimento.

A satisfação ou intensa alegria existe pelo enamoramento, que invade as profundezas da alma de quem vive intensamente o amor, algo desproporcional. O amor-próprio é substituído pelo amor doentio pelo outro.

O sofrimento, por seu lado, se faz presente, uma vez que a pessoa por quem a paixão é nutrida não se encontra sempre perto ou à disposição e, ainda, pelo medo de não ser correspondida em seus sentimentos, é o amor, sublime amor, causando dor.

O risco de um sentimento amoroso tornar-se obsessivo ou uma relação de dependência, depois ou durante o momento extremo de paixão, causa o que denominamos hoje de amor patológico.

Muitas vezes se faz presente um ciúme desproporcional, chegando a existir dentro de um contexto irreal ou improvável, quando então se fala em delírio de ciúme, onde desponta o risco de atos extremos como o suicídio ou o homicídio. O suicídio pela dependência do outro, quando o ser que ama não vê como possível viver sem o ser amado; o homicídio, quando a pessoa tira a vida do ser amado, porque se não pode tê-lo, ninguém mais o terá.

A partir do momento em que este sentimento se torna desproporcional, com dependência extrema ao ser amado, com ciúme exagerado, com comportamento obsessivo em relação ao outro, sufocando o relacionamento, deixa então de ser um amor sadio e passa a ser um amor patológico, com grandes riscos à integridade física e mental das pessoas envolvidas.

A paixão é um amor patológico, que traz alegria, tristeza, obsessões e pode ter um desfecho fatal. É preciso percebê-la a tempo. Cabe, neste momento, tentar recuperar-se, por meio de seu próprio esforço, deste mal. Caso não consiga, é chegada a hora de procurar ajuda psicológica, com possibilidade de haver necessidade de intervenção psiquiátrica para a prescrição de medicamentos, que visem ao controle desse comportamento nocivo à saúde.

É normal amar, ser feliz ao viver este amor, assim como sofrer a sua perda, mas tudo passa, inclusive a dor de um amor que chegou ao fim.

O amor, sem dúvida nenhuma, é lindo, é gostoso, é vivificante, desde que seja sadio, com empatia pelo ser amado, respeitando suas qualidades e defeitos, vivendo cada dia, não como se fosse o último, mas como um dia a mais, pleno de pontos positivos e negativos, dentro da realidade da vida.

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Saúde Mental, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

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