Estresse, sobrecarga e falta de reconhecimento levam policiais ao extremo da dor
Número de suicídios em 2022 não é confirmado pela Secretaria de Segurança Pública, mas apuração mostra que agentes de segurança estão tirando a própria vida
Redação trabalhando, chega a notícia: um policial tirou a própria vida nesta tarde. Vamos falar sobre o assunto? Como? Mais um dia de trabalho, outra morte. Ao todo, seis casos chegaram ao conhecimento desta redação de janeiro até aqui. Mas, pode haver mais. Homens e mulheres que trabalham na segurança pública estão em sofrimento e precisando de ajuda.
Em entrevista ao Primeira Página, o capelão da Polícia Civil, Andre de Souza, contou um pouco sobre a rotina de atendimentos. Acostumado a ouvir os policiais que estão próximos do limite, ele fala sobre a Síndrome do Super-Homem (pessoas sobrecarregadas, mas que continuam acumulando funções). Ele também cita o estresse como a porta para outras doenças graves, como a depressão.
“A Sociedade de forma geral está lidando com um estresse enorme. Período de pandemia. Estamos atônitos presenciando uma guerra acontecendo. Com os policiais não é diferente. O trabalho policial é muito estressante. Lidar com a criminalidade não é fácil e os policiais absorvem muita carga negativa, pois presenciam coisas pesadas no dia a dia”, explica.
“A nossa cultura é nociva a nós mesmos, o policial se autossabota muito. Somos bons para resolver problemas alheios, porém quando nós nos encontramos com algum quadro de sofrimento, via de regra, temos dificuldade em pedir ajuda”, completa Andre.
As queixas são muitas. Estresse, sobrecarga e insatisfação com o trabalho por falta de reconhecimento de chefias, ou financeiro, são alguns dos fatores que levam policiais ao extremo da dor, de acordo com estudo realizado pela Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção, de 2013. Vale ressaltar que a carga horária de trabalho de um policial civil é de 40h semanais + plantões. A faixa salarial para cargos como investigador ou escrivão é em torno de R$ 5.295.
“Os ‘policiais são treinados para resolverem problemas, e não para apresentá-los’. Diante desse cenário, muitos têm dificuldade em pedir ajuda, e é aí que mora o perigo, porque quando em algum quadro de sofrimento, o policial acaba se isolando, e aí tem os problemas do alcoolismo, drogadição, automedicação e por aí vai”, explica o capelão.

O QUE É FEITO ATUALMENTE
A redação do Primeira Página entrou em contato com a Polícia Militar e também com a Sejusp para entender como a saúde mental dos policiais é tratada em MS. A PM informou que seus policiais são atendidos por psicólogos e assistentes sociais do Fundo de Assistência Feminina. Já a Sejusp, por meio da assessoria de imprensa, afirmou que “assim como cada uma das unidades, tem atendimento biopsicossocial”.
Na Polícia Civil do Estado, além do auxílio mais que fundamental do capelão entrevistado nessa matéria, os profissionais podem contar com o Serviço Social e com psicólogos em um momento de crise – o problema é a falta de constância no atendimento (leia o depoimento no boxe 1).
Quando aparece um caso, Andre conta que a equipe multidisciplinar conversa e traça um plano de ação. Segundo ele, as famílias dos policiais acometidos de dor emocional são informadas e trabalham em conjunto com os demais.
“Via de regra, nós abordamos os familiares do policial adoecido, fazemos um trabalho de convencimento e orientamos todos sobre o procedimento que adotaremos. Explicamos a importância deles caminharem juntos conosco, o apoio da família é fundamental!”.
“Temos feito um trabalho de prevenção dentro da Instituição fomentando a cultura da valorização da vida, da prevenção do adoecimento mental, da importância de falar da sua dor. Temos difundido isso entre nossos policiais a fim de que nos primeiros sintomas de sofrimento, adoecimento mental, não se isolem, mas busquem ajuda”, revela.


Caso tenha algum familiar nessa situação, é interessante prestar atenção em frases como “não tenho mais vontade de fazer nada”, “não vejo mais sentido em viver”, “queria dormir e não acordar mais”. Isolamento e uso de drogas, em caso de agentes de segurança, também acontecem.
Por isso, ao menor sinal, procure ajuda ou ajude. É importante ter em mente que policiais possuem armas ao alcance das mãos, o que permite a decisão de tirar a própria vida de forma rápida.
“Eu diria que, no geral, as pessoas estão tendo dificuldade de lidar com a questão do adoecimento mental. Infelizmente, ainda é um tabu para as pessoas reconhecerem que precisam de ajuda, em vez de entrar no desespero procurar ajuda profissional. Da mesma forma que se eu estiver um problema no meu joelho, procurarei ajuda profissional de um médico ortopedista. Se as pessoas estão enfrentando um problema psicológico, emocional, uma depressão, é necessário quebrar esse tabu e buscar ajuda”, finaliza Andre.
CEAPOC
A Ceapoc fica na Rua Amazonas, 523 – Monte Castelo.
Telefone: (67) 3384-5427 ou 99627-6178.
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Comentários (1)
Que matéria forte e importante. Muito bom ver um problema assim sendo abordado de maneira tão clara, cuidadosa e séria. Muito bom, PP.