Mais de 30 casos de suicídio foram registrados em 2021 em Cuiabá
Os dados sobre casos de suicídio ou tentativas foram divulgados no Boletim Epidemiológico sobre Vigilância de Violência, da Secretaria de Saúde da Capital.
Falta de saúde mental, transtornos ansiosos ou depressivos, esses são alguns pontos de partida para falar sobre o suicídio, considerado uma violência autoprovocada e que, ao contrário do que muitos pensam, merece ser mais discutido em sociedade. Somente em Cuiabá, foram registrados 34 casos de suicídio no ano de 2021, de acordo com o Boletim Epidemiológico sobre Vigilância de Violência, divulgado pela Secretaria de Saúde da Capital.

Violência autoprovocada
A violência autoprovocada ou auto infligida engloba pensamentos suicidas, automutilações e tentativa de suicídio, ações que, muitas vezes, são vistas pela pessoa ou paciente como forma de aliviar o sofrimento que carrega no peito.
São casos preocupantes e que fazem parte dos casos de violência divulgados pelo Boletim da Prefeitura de Cuiabá, como violência física, psicológica, patrimonial, sexual, negligência, entre outros.
Os dados foram construídos com o objetivo de analisar os casos de violência notificados pelo Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação).

Em 2020, segundo o documento, foram 45 mortes por suicídio na cidade, número que diminuiu, em 2021, para 34 casos. As vítimas mais comuns são crianças a partir de 10 anos e adultos de até 29, representando mais de 53% dos casos.
Em seguida, estão os adultos entre 30 e 59 anos, que ocupam a segunda colocação das vítimas desse tipo de violência e que representava 42,6% dos casos em 2020 e passou para mais de 46% durante o período de pandemia de Covid-19 em 2021.
Dados gerais sobre Mato Grosso mostram que, em 2020, foram 262 registros de mortes por suicídio e, em 2021, uma pequena redução ocorreu, ficando em 256 óbitos.

De acordo com a psiquiatra cuiabana Amanda Namonier, os números acima mostram a necessidade da ampliação do cuidado com a saúde mental dos cidadãos, que é a grande responsável pela qualidade de vida e, quando não recebe a atenção necessária, entra em ruínas e abre espaço para transtornos mentais que podem levar uma pessoa a deixar de ver o colorido da vida e, até mesmo, passar a ter pensamentos suicidas.
Enquanto isso, um outro tema surge com importância: as políticas públicas de atendimento psicológico disponibilizados na Capital ou na baixada cuiabana.
Saúde mental, uma necessidade
Como explica a psiquiatra, os dados divulgados pela Secretaria representam casos em que as vítimas conseguiram concluir a tentativa de suicídio. Mas, antes disso, outras ações podem ser feitas pela pessoa que está passando por uns transtorno, como a automutilação.

Para Namonier, nem sempre as lesões causadas pela pessoa em si mesma têm a intenção de chegar à morte, porém, já apontam a aproximação dela com os pensamentos autodestrutivos e podem levar às primeiras tentativas de suicídio.
“Ela pode ser o alívio de um sofrimento mental, a dor física alivia a dor mental e, por isso, muitos pacientes ou pessoas com algum transtorno mental acabam cometendo”, explica a psiquiatra.
Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), mais de 700 mil pessoas morrem anualmente devido ao suicídio, o que representa uma a cada 100 mortes registradas, ou seja, um problema muito mais profundo do que se imagina.
O caminho que leva uma pessoa a isso passa por fatores psicológicos, biológicos, sociais e culturais.
Ainda de acordo com a OMS, mais de 96% dos pacientes que tentam tirar a própria vida possuem algum transtorno mental, que pode ser uma depressão, transtorno bipolar, transtorno de personalidade, esquizofrenia e ate o abuso de substâncias químicas.
Outro fator que deve ser discutido, segundo a Amanda Namonier, é que quem teve uma tentativa de suicídio prévia, tem de cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente. Cerca de 50% dos pacientes que suicidam já haviam tentado anteriormente.
São sentimentos como falta de esperança, desamparo, desespero e impulsividade. Quanto maior as sensações, maior a chance da pessoa realizar esse ato. Doenças crônicas também afetam o psicológico e também podem ser um ponto de partida.
E não para por aí. Eventos adversos da infância e adolescência, como ter sofrido abusos, maus tratos, Bullying, conflitos familiares, questões de orientação sexual ou identidade de gênero, exclusão social ou agressões também são causas de tentativas e de suicídios consumados. Por isso a grande importância do tratamento psicológico e do acolhimento!
Os mais afetados
Como mostra o Boletim da Prefeitura, os jovens e os idosos são os mais afetados. De acordo com Namonier, os jovens passam por uma fase brusca de mudanças de vida e identidade, com maiores chances de abuso de substâncias, problemas familiares ou sociais.
Enquanto isso, os idosos, em grande parte dos casos, enfrentam a solidão, doenças crônicas degenerativas, perda de familiares, e até a sensação de ser um peso e dar trabalho para a família. Além disso, vem a fragilidade do corpo com mais idade, o que faz qualquer tentativa de suicídio ser fatal.
Apesar de citar esses dois grupos, a psiquiatra não deixa de lembrar que o suicídio pode acometer qualquer pessoa, de qualquer faixa etária, gênero ou classe social.
E que, em qualquer um desses casos, o tratamento psicológico é de extrema importância, não somente para tentar salvar quem está em um momento depressivo ou de transtornos, mas, principalmente, como forma de apoio para lidar com as sensações da vida, sem deixar que elas afetem tanto a ponto de fazer a pessoa querer se destruir.
Perceber e afastar o pensamento suicida
Apesar da dificuldade em lidar com os assuntos citados acima, a psiquiatra cuiabana explica, ainda, que alguns fatores podem amenizar sensações ruins e, consequentemente, diminuir as chances de suicídio.
Como, por exemplo, ter uma autoestima boa, um bom suporte familiar, laços sociais bem estabelecidos, apoio religioso, estar bem na área do trabalho, capacidade de resolução de problemas e acesso à serviços de saúde mental.
Um outro aspecto importante na prevenção do suicídio é o apoio às pessoas que podem estar tendo os sintomas. Por isso, Namonier fala sobre formas de perceber sinais de um possível quadro depressivo ou suicida e, a partir daí, ajudar a pessoa, que pode até ser um familiar ou amigo.

Para começar, vale reparar na mudança de comportamento da pessoa.
“A pessoa deprimida fica mais isolada, vai deixando de atender telefonemas, de responder mensagens, fica mais tempo sozinha no quarto e não socializa muito com a família ou amigos, deixa de ir a eventos”, diz a psiquiatra.
Além disso, vem a falta de prazer e, para aquela pessoa, nada mais tem sentido ou graça. Sem disposição, ela não quer mais sair da cama, deixa de se cuidar, perde a vaidade, tem problemas como insônia ou hipersonia, mudanças no apetite.
Depois de perceber esses detalhes, o próximo passo é realmente conversar com a pessoa, perguntar sobre o que ela vem sentindo. Ao contrário do que muitos pensam, poder falar sobre depressão ou suicídio é um alívio para quem está em sofrimento, como explica Namonier.
“A partir da possibilidade de conversa, o principal é não julgar aquele paciente, aquele amigo, aquele parente, respeitar a dor e não minimizar o sofrimento. Mostrar que ele não está sozinho e que há uma solução para o problema, acolher e levar para uma ajuda profissional, seja psiquiatra ou psicólogo, para que a pessoa consiga passar por esse transtorno, se curar e viver bem”, aconselha Amanda.
Políticas públicas
No que diz respeito à prevenção de transtornos mentais, o papel do Estado começa pelo ponto de disponibilizar uma vida digna ao cidadão, com emprego, comida na mesa, garantindo que ele não sofra violência e que tenha lazer.
Quanto ao tratamento, a responsabilidade do poder público é disponibilizar locais que recebam pessoas com quadros de transtornos e necessidade de atendimento na área da saúde mental.
Em Cuiabá, existem cinco Caps (Centro de Atenção Psicossocial), que podem receber essas pessoas e que possuem equipes formadas por psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, médicos psiquiatras, médicos clínicos, pedagogos, terapeutas ocupacionais educadores físicos, técnicos de enfermagem.
De acordo com a coordenação de Saúde Mental da Secretaria de Cuiabá, nessas unidades, o atendimento é feito de portas abertas e o cidadão não precisa de nenhum outro encaminhamento ou atendimento prévio, como explica Fernanda. Veja abaixo a lista de locais:
CAPS AD II (Infanto-Juvenil)
– Atende crianças e adolescente até 17 anos e 11 meses de idade com transtornos mentais ou com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas.
– Endereço: Rua Ceilão, Nº 304, bairro Jardim Shangri-lá.
– Telefone: (65) 3617-1836
CAPS I
– Atende adultos maiores de 18 anos com transtornos mentais graves e severos.
– Endereço: Rua Pardal, Quadra 110, bairro CPA IV.
– Telefones: (65) 3649-1968 ou 3649-6618
CAPS II
– Atende adultos maiores de 18 anos com transtornos mentais graves e severos.
– Endereço: Rua Jessé Pinto Freire, nº 180, Centro Sul.
– Telefone: (65) 3313-3047
CAPSi (Gestão Estadual)
– Atende crianças e adolescentes com transtornos mentais graves e severos.
– Endereço: Rua Antonio Dorileo, s/nº bairro Jd. Lucinópolis.
– Telefone: (65) 3688- 3046
CAPS AD II (Adulto/Gestão Estadual)
– Atende adultos maiores de 18 anos com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas.
– Endereço: Rua Alziro Zarur, nº 728, esquina com a Rua 30, bairro Boa Esperança.
– Telefone: (65) 3661-1801
As UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) do Verdão, do Planalto, Coxipó e Morada do Ouro também atendem casos de transtornos, necessidade de tratamento em saúde mental e casos em que já houve a tentativa de suicídio.
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Um outro modo de apoio é o CVV (Centro de Valorização da Vida), um canal de atendimento que funciona 24h por dia, durante os sete dias da semana, e pode salvar pessoas que estão com pensamentos autodestrutivos, através do número 188.
Além disso, o CVV é um local sigiloso, a pessoa não precisa se identificar para receber um acolhimento naquele momento que a dor dela está mais intensa.
Por fim, vale lembrar que o Setembro Amarelo existe como uma campanha nacional de apoio e prevenção a esses casos, porém, todas as formas ou hábitos explicados para uma melhor vivência, todas as maneiras de perceber uma pessoa ao nosso redor com problemas que podem levá-la ao suicídio, não devem ser esperados para serem praticados em uma época específica do ano, mas diariamente!
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