Nicotina - O vício que nos faz perder o fôlego

A nicotina, quando fumada, alcança o cérebro em cerca de dez segundos, tempo necessário para seus efeitos iniciarem

Carlos Alberto aprendeu a fumar ainda adolescente e um pouco antes de completar 20 anos de idade já consumia uma carteira de cigarros ao dia e assim ficou por mais uma década, quando passou a fumar duas carteiras em 24 horas. Hoje aos 45 anos de idade chega a fumar três carteiras nos dias mais tensos e cerca de duas carteiras e meia quando os dias são mais tranquilos.

Atualmente, ele está com a orientação quase imperativa de largar totalmente o cigarro, isso depois de ter sofrido um infarto agudo do miocárdio, que quase lhe tirou a vida, se não fosse o socorro rápido e a colocação de dois stents coronarianos.

Tratamento para quem busca parar de fumar é oferecido em Várzea Grande (Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Apesar disso, largar o tabaco para ele é muito difícil. O cigarro é um mal que vem de família, seu pai fumou até morrer com um problema sério de pulmão; seu avô também não chegou muito longe por causa do cigarro; o tio por parte de pai está hoje lutando contra um câncer de pulmão.

Carlos tem conhecimento de outros casos de câncer na família do pai. Ainda assim, o vício é muito forte. Chega a dizer que é mais fácil morrer do que largar o tabaco. A esposa pede para deixar o vício, os filhos reforçam o pedido da mãe, mas acatar o pedido da mulher e filhos parece algo muito sofrido para ele, extremamente difícil.

A nicotina é uma substância que está presente no tabaco e, consequentemente, no cigarro, charuto, cachimbo e cigarros eletrônicos. É a substância responsável pelo abuso e dependência de seus usuários. É claro que além da nicotina, o cigarro contém alcatrão, monóxido de carbono e outras mais de três mil substâncias, que trazem grandes danos à saúde.

A nicotina, quando fumada, alcança o cérebro em cerca de dez segundos, tempo necessário para seus efeitos iniciarem. Depois do uso, vem o abuso e em seguida a dependência. A partir de então, passa a ser muito difícil largar o vício, apesar de o usuário ter ciência dos danos já causados ou que podem vir a ser causados à sua saúde, como problemas respiratórios, cardiovasculares e câncer.

A falta ou a diminuição de nicotina no organismo do dependente pode causar grande ansiedade, tristeza, irritabilidade, diminuição da concentração, sudorese, raiva, aumento do apetite, diminuição do sono, prisão de ventre ou diarreia. O dependente de nicotina tende, com o decorrer do tempo, a aumentar o número de cigarros para sentir os mesmos efeitos que antes sentia com menores quantidades; o dependente chega a evitar reuniões sociais e locais onde o uso do tabaco é proibido, porque teme não suportar abster-se do cigarro por um tempo considerável.

A exemplo de outras dependências, o tabagismo também pode ser tratado. Existem hoje os programas antitabagismo, com uma equipe multidisciplinar, formada por médicos pneumologistas e psiquiatras, além de psicólogos e enfermeiros. Alguns fumantes conseguem largar o vício sem nenhuma ajuda, a não ser deles próprios, mas isso, em geral, é muito difícil. O mais comum é que haja necessidade do uso de fármacos, adesivos, gomas de mascar e outros métodos não farmacológicos, como as psicoterapias individuais e de grupo.

A Organização Mundial da Saúde estima que as doenças relacionadas ao tabaco tirem a vida de oito milhões de fumantes por ano e que 60% dos dependentes de tabaco desejam parar de fumar, daí a necessidade de se expandir o número de locais de atendimento dessas pessoas e dos programas antitabagismo.

Carlos finalmente resolveu atender o pedido da esposa e filhos e seu próprio desejo, que ele não admitia, até porque achava que não conseguiria. Atualmente ele está participando do programa antitabagismo e conseguiu diminuir seu consumo para apenas uma carteira ao dia, diz que menos que isso ainda não é possível. Sabe que não é o bastante para evitar um novo infarto ou um acidente vascular cerebral ou um câncer ou outra doença qualquer causada pelo fumo. Por isso, continua tentando e se perseverar, é grande a possibilidade de lograr êxito.

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Saúde Mental, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.