Sete IMLs de MT têm ossos expostos, falta de insumos e risco biológico, aponta CRM

Relatório aponta irregularidades em sete unidades do IML em Mato Grosso, incluindo falta de equipamentos, problemas sanitários e risco de contaminação.

Ao menos 7 unidades do Instituto Médico Legal (IML) em Mato Grosso, que foram alvo de vistorias técnicas pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-MT) entre março e maio deste ano, apresentaram irregularidades estruturais, de biossegurança e de condições para realização dos atos periciais médicos. Relatório concluído nesta semana impõe prazos para adequações.

Segundo o documento obtido pelo Primeira Página, as unidades ficam em Água Boa, Barra do Garças, Cáceres, Confresa, Cuiabá, Rondonópolis e Sinop (MT). Entre as inconformidades estão falta de insumos básicos, ausência de equipamentos de diagnóstico, e exposição a risco biológico e sanitário severo.

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Câmaras frias estavam ligadas sem acesso a gerador de energia e materiais contaminantes junto de itens esterilizados. – Fotos: CRM-MT

Para o CRM-MT, as vistorias revelaram “cenário de precarização institucional crônica e sistêmica”, de modo que as inconformidades não são consideradas falhas isoladas de gestão, mas um “padrão omissivo de infraestrutura estrutural e administrativa no estado”, diz trechos.

Nenhuma das sete unidades possui inscrição ativa como estabelecimento médico no CRM ou diretor técnico médico legalmente formalizado.

IML de Água Boa

O IML de Água Boa apresentou uma série de irregularidades. O relatório aponta falhas na biossegurança, no atendimento às vítimas de violência sexual, falta de equipamentos e irregularidade administrativa.

Entre os problemas identificados estão o armazenamento inadequado de materiais utilizados em necropsias, como instrumentos de dissecção contaminados no mesmo armário de materiais esterilizados.

No atendimento a vítimas de violência sexual, os fiscais verificaram o descumprimento das normas como a ausência de auxiliar do mesmo gênero do paciente ou vítima na realização dos exames periciais.

Macas rasgadas e sujas são utilizadas por pacientes durante perícias. - Foto: Reprodução
Macas rasgadas e sujas são utilizadas por pacientes durante perícias. – Foto: Reprodução

Na sala de necropsia, não havia sistema de drenagem, recipientes para resíduos infectantes, lixeiras com acionamento por pedal e preparação alcoólica para higienização das mãos.

IML Barra do Garças

Considerada a unidade “mais crítica”, o IML de Barra do Garças foi alvo de interdição ética pelo CRM-MT devido às condições precárias e irregularidades sanitárias. A medida foi tomada nessa terça-feira (26).

De acordo com o relatório de fiscalização, a unidade apresentava materiais e produtos químicos vencidos há mais de 10 anos. Uma caixa com ossos humanos estava aberta dentro do Depósito de Material de Limpeza (DML), situação que, segundo o CRM-MT, representa risco severo de contaminação cruzada.

Ossos humanos em caixa aberta na sala de limpeza e balança para pesagem de fetos e órgãos no chão. - Foto: Reprodução
Ossos humanos em caixa aberta na sala de limpeza e balança para pesagem de fetos e órgãos no chão. – Foto: CRM-MT

IML de Cáceres

O IML de Cáceres também foi alvo de fiscalização. Entre os problemas apontados na sala de necropsia, estão ausência de aparelho de raio-X, tábuas antropométricas e balanças para pesar órgãos e cadáveres.

O relatório destaca ainda ausência de sistema de drenagem de efluentes, sabonete líquido e preparação alcoólica para higienização das mãos. As câmaras frias estavam desligadas do gerador de energia elétrica, enquanto a iluminação foi considerada insuficiente para a realização dos procedimentos.

As instalações elétricas foram classificadas como incompatíveis com as normas de segurança e a unidade.

IML de Confresa

No IML de Confresa os fiscais constataram a atuação de um médico sem a inscrição secundária ou autorização temporária exigida para exercer a profissão no estado.

A fiscalização identificou ainda riscos aos pacientes pela utilização e armazenamento de materiais para coleta de exames com validade vencida, incluindo seringas e tubos utilizados em procedimentos periciais.

Não havia recepção e sala de espera na unidade, e os fiscais verificaram que não havia equipe de vigilância presencial permanente, nem protocolo formal para resposta a situações de violência, o que compromete a proteção de servidores e usuários.

IML de Cuiabá

No IML da capital, segundo o documento, há registros recorrentes de episódios de violência dentro do estabelecimento, o que compromete a integridade física e mental de médicos, servidores e pacientes.

O relatório destaca que o cenário expõe pacientes a riscos à saúde, além de representar potencial desrespeito à dignidade, ao pudor e ao sigilo das informações.

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IML de Cuiabá foi alvo de fiscalização que identificou problemas relacionados à segurança. – Foto: Reprodução

A unidade funciona sem Alvará de Prevenção e Combate a Incêndios emitido pelo Corpo de Bombeiros e possui inadequações no espaço destinado ao repouso médico.

IML Rondonópolis

Na sala de necropsia do IML de Rondonópolis as câmaras frias funcionavam sem ligação ao gerador de energia elétrica e não havia sistema adequado de drenagem de efluentes, exaustão e preparação para higienização das mãos.

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Câmaras frias da sala de necropsia do IML de Rondonópolis não estavam ligadas ao gerador de energia elétrica. – Foto: Reprodução

A fiscalização também apontou ausência de equipamentos considerados essenciais para os trabalhos periciais, como aparelhos de raio-X, aventais para proteção radiológica, tábuas antropométricas e balanças utilizadas para pesagem de órgãos e cadáveres.

IML Sinop

No Instituto Médico Legal (IML) de Sinop foi constatado o armazenamento inadequado de materiais contaminados no mesmo armário de materiais esterilizados, ausência de sistema de drenagem de efluentes e de recipientes adequados para resíduos infeciosos.

Foi identificada a ausência de aparelho de raios X, balança de precisão, balança para órgãos/fetos e balança para cadáveres. Além disso, há falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) essenciais como máscaras com purificador de ar, aventais impermeáveis e luvas de PVC de cano longo.

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No IML de Sinop, no norte do estado, faltava até mesmo sabonete para limpeza. – Foto: Reprodução

Nos consultórios as condições foram vistas como inadequadas pela falta de materiais de assepsia, ausência de pias, lençóis, sabonete líquido, toalhas de papel e cadeiras para acompanhantes.

Recomendações

A entidade recomendou que em até 15 dias ocorra a regularização urgente da direção técnica de todas as unidades perante o CRM, do contrário, haverá suspensão imediata de atividades de qualquer profissional sem inscrição regular no estado.

Já em 45 dias deve ocorrer a adequação e normalização das escalas de plantão para sanar inconformidades assistenciais, com o fornecimento de máscaras com filtros, luvas de PVC de cano longo e aventais, suprimento de insumos clínicos e pias de higienização.

Que sejam sanadas em 90 dias a reestruturação física das salas de necropsia para instalação de drenagem de efluentes e sistemas de exaustão; reformas prediais para garantia de acessibilidade (PNE) e emissão dos alvarás sanitários e de prevenção contra incêndios.

Outro lado

A reportagem procurou a assessoria da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) que informou que as unidades passam por melhorias progressivas que estão em fase de implantação.

Confira a nota na íntegra.

A Politec informa que as adequações apontadas pelo relatório de fiscalização do Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso sobre as condições de trabalho e de atendimento da Gerência de Medicina Legal de Barra do Garças estão em fase de implantação, assim como está promovendo melhorias progressivas em equipamentos, insumos e condições de trabalho em todas as suas unidades.

Leia mais

  1. Ossos humanos jogados e balança de pesar fetos no chão: IML é interditado pelo CRM-MT

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Comentários (1)

  • Karlos

    Hilário! Só apontam a “falta de condições” que afetam a atividade dos médico, em momento algum, citam a precariedade em equipamento.
    Como o fato de a única unidade do Estado a ter equipamento de RAIOS-X ser a unidade de Cuiabá, que está a tempos parado e sucateado por falta de manutenção, obrigando a realização das necrópsia de forma mais demorada, invasiva e arriscada aos que de fato “botam as mãos” nos cadaveres e também com a “obrigatoriedade” em operar tais equipamentos por quem não tem a devida habilitação, oque gera sérios problemas de segurança a todos envolvidos nos serviços.

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