TOD – Quando a birra destrói o encanto da criança

Transtorno opositor desafiador é caracterizado por irritação, raiva, desobediência, com dificuldade de seguir regras e obedecer a figuras de autoridade

João Guilherme contava 11 anos de idade, quando foi levado a um psicólogo com a queixa de desobediência excessiva aos pais e aos professores. A mãe já estava incomodada com tantos chamados à escola, sempre por desacato aos professores, à coordenação e à direção do estabelecimento.

Marcos Estevão fala sobre TOD – Transtorno Opositor Desafiador

Certa vez o chamado foi devido à agressão contra um coleguinha de classe, porque este o teria chamado de menino maluquinho e lhe pediu para ficar quieto durante a aula. Na hora do recreio, João Guilherme empurrou o colega sobre um monte de folhas e lixo amontoados num canto do pátio da escola, que estava sendo recolhido por um funcionário do colégio. Não satisfeito, adentrou a sala de aula e rabiscou e rasgou o caderno de apontamentos do colega. Por isso, quase foi expulso, mas lhe deram outra chance, trocando-o de sala e de turno de estudo.

Mesmo com todo o ocorrido, João Guilherme permanecia com o mesmo comportamento, sempre agressivo, não aceitando regras, nem orientações de mais velhos ou de qualquer pessoa que se pusesse superior a ele, inclusive de seu psicólogo.

A raiva era sua principal companheira. Não tinha qualquer tolerância a tudo que julgava contrário à sua vontade, questionava as orientações das pessoas e chegava a desafiá-las, sempre com um Não bem contundente. Havia sempre um propósito de vingança quando se sentia agredido ou contestado.

O garoto não ia bem na escola, mais por desinteresse do que por dificuldade de aprendizagem. Além dos prejuízos escolares, havia também problemas em casa, visto que o comportamento do menino desestruturava a família toda. Mãe contava que desde os sete anos de idade, ele negava-se a tomar banho, sendo levado à força ao banheiro, mas nesse momento chorava e chutava sua genitora. Fazia o mesmo quando era cobrado a realizar as tarefas escolares ou sentar-se à mesa na hora estipulada às refeições, ou ainda para deitar-se na hora certa de dormir.

Seu psicólogo, depois de tentar um ano de psicoterapia como único tratamento, resolveu encaminhá-lo a um psiquiatra da infância e adolescência para um trabalho conjunto. E assim foi feito um tratamento integrado, com medicamentos e psicoterapia, além de suporte familiar e escolar.

O TOD (transtorno opositor desafiador) trata-se de um padrão de comportamento infantil que se manifesta em todos os ambientes de convivência da criança, caracterizado por irritação, raiva, desobediência, com dificuldade de seguir regras e obedecer a figuras de autoridade, como pais e professores. Geralmente são crianças teimosas e desafiadoras, com constantes reações de birra e choro e dificuldade de controlar seus impulsos agressivos. Há tendência à vingança quando contrariadas ou quando se sentem agredidas.

Sabe-se que fatores genéticos e ambientais podem contribuir para o aparecimento do problema, que geralmente tem início entre os seis e doze anos de idade, acometendo mais os meninos do que as meninas.

O tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível, por meio de psicoterapia, medicação e suporte familiar e escolar. Há necessidade de utilizar-se reforço positivo e negativo, sempre com paciência e compreensão do problema por parte dos pais e mestres. É importante ainda a orientação pedagógica visando a um melhor manejo desses casos, assim como a psicoterapia familiar.

O tratamento integrado (psiquiátrico e psicológico) e o suporte familiar e escolar, oferecidos a João Guilherme, têm lhe proporcionado um comportamento menos agressivo e mais tolerante, com aprovações escolares, ainda que não tenha se tornado um aluno entre os melhores da classe.

Leia mais

  1. Transtorno Dismórfico Corporal (TDC)

  2. Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) – Uma vida ou muitas vidas?

Este conteúdo reflete, apenas, a opinião do colunista Saúde Mental, e não configura o pensamento editorial do Primeira Página.

Comentários (1)

  • Silvania

    Minha filha vai fazer 4 anos. E estamos com situações assim. Se vc contrária ela, sai quebrando tudo, mesmo repreendendo, chamando atenção, deixando de castigo, não funciona. Ela arranha a gente… ainda estamos investigando. A primeiro momento achávamos que era Autismo. Mas duas médicas já descartaram.

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