Entre 'dois mundos', jovens indígenas enfrentam depressão e ansiedade
Levantamento revela sofrimento psíquico em aldeias e antecipa um cenário agravado por índices elevados de suicídio entre jovens indígenas.
Entre a aldeia e a cidade, jovens indígenas de Mato Grosso vivem um conflito silencioso que impacta a saúde mental dentro das comunidades. Uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) revela que mais de um em cada quatro indígenas Xavante apresenta sinais de sofrimento psíquico, dado que evidencia a dimensão do sofrimento mental nas comunidades.
Entre jovens indígenas, as taxas de suicídio estão entre as maiores do país, indicando que o problema vai além dos números e atravessa o cotidiano das comunidades.
O estudo, realizado em 10 aldeias pelos pesquisadores da UFMT, identificou prevalência de 27,3% de sofrimento mental, além de relatos autorreferidos de ansiedade (3,25%) e depressão (2,43%). Os pesquisadores destacam a escassez de estudos sobre o tema, o que reforça a necessidade de ampliar o conhecimento e as políticas voltadas à saúde mental dessas populações.
Mato Grosso está entre os estados com maior população indígena do país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Clique no quadro abaixo para ver o ranking completo por unidade da federação.
| Posição | Estado | Pessoas indígenas |
|---|---|---|
| 1 | Amazonas | 490.854 |
| 2 | Bahia | 229.103 |
| 3 | Mato Grosso do Sul | 116.346 |
| 4 | Pernambuco | 106.634 |
| 5 | Roraima | 97.320 |
| 6 | Pará | 80.974 |
| 7 | Mato Grosso | 58.231 |
| 8 | Maranhão | 57.214 |
| 9 | Ceará | 56.353 |
| 10 | São Paulo | 55.295 |
| 11 | Minas Gerais | 36.699 |
| 12 | Rio Grande do Sul | 36.096 |
| 13 | Acre | 31.699 |
| 14 | Paraná | 30.460 |
| 15 | Paraíba | 30.140 |
| 16 | Alagoas | 25.725 |
| 17 | Santa Catarina | 21.541 |
| 18 | Rondônia | 21.153 |
| 19 | Tocantins | 20.023 |
| 20 | Goiás | 19.522 |
| 21 | Rio de Janeiro | 16.964 |
| 22 | Espírito Santo | 14.411 |
| 23 | Rio Grande do Norte | 11.725 |
| 24 | Amapá | 11.334 |
| 25 | Piauí | 7.198 |
| 26 | Distrito Federal | 5.813 |
| 27 | Sergipe | 4.708 |
Fonte: IBGE – Censo 2022 (SIDRA 9718)
A coordenadora da pesquisa, Alisséia Guimarães Lemes, que é enfermeira e doutora em Ciências, conta que o estudo, iniciado em fevereiro de 2025, acompanha o cotidiano do povo Xavante em três territórios: São Marcos, Sangradouro e Parabubure e busca compreender como o sofrimento psíquico se manifesta dentro dessas comunidades.
“A gente precisa entender esses processos a partir da perspectiva deles, respeitando os modos de vida e as formas próprias de cuidado”, destaca Alisséia. Para a pesquisadora, fortalecer políticas públicas que dialoguem com essa realidade é um dos caminhos para garantir um atendimento mais eficaz e sensível às necessidades dessas populações.
O que mostra o estudo com indígenas Xavante em Mato Grosso
Pesquisa da UFMT identificou sinais de sofrimento psíquico em aldeias do estado.
dos indígenas Xavante apresentaram sinais de sofrimento psíquico
é a proporção aproximada de participantes afetados pelo sofrimento mental
indígenas participaram da pesquisa
aldeias de Mato Grosso fizeram parte do levantamento
Conforme ela, o estudo utiliza instrumentos adaptados ao contexto intercultural e conta com o apoio de intérpretes da língua Xavante, justamente para garantir que a escuta respeite as especificidades culturais de cada comunidade.
A saúde mental entre povos indígenas, conforme a pesquisa, está diretamente ligada a fatores como perda de território; enfraquecimento de tradições culturais; conflitos com não indígenas; discriminação e dificuldade de acesso a políticas públicas. Esse conjunto de fatores cria um cenário de vulnerabilidade que atinge, principalmente, os mais jovens.
Quando esse jovem vai para a cultura ocidental, muitas vezes ele não se sente pertencente. Mas, ao mesmo tempo, ao retornar para a aldeia, o pertencimento também já não é mais o mesmo. Isso gera conflitos de identidade, sensação de rejeição, ansiedade e aumenta os índices de depressão.
Aline Quintal, psiquiatra da infância e adolescência
Segundo a psiquiatra da infância e adolescência Aline Quintal, esse conflito de pertencimento tem impacto direto na saúde mental dos jovens indígenas.
“Quando esse jovem vai para a cultura ocidental, muitas vezes ele não se sente pertencente. Mas, ao mesmo tempo, ao retornar para a aldeia, o pertencimento também já não é mais o mesmo. Isso gera conflitos de identidade, sensação de rejeição, ansiedade e aumenta os índices de depressão”, explica.
A especialista afirma ainda que esse sofrimento pode favorecer o uso abusivo de álcool e outras substâncias psicoativas, agravando quadros de ansiedade, depressão e aumentando o risco de suicídio entre jovens indígenas.
‘Lidar com esses dois mundos não é fácil’
Com experiência na saúde indígena, o assistente social José Paravarsch, do povo Chiquitano, afirma que o sofrimento mental tem se tornado cada vez mais presente nas comunidades. De acordo com ele, embora o problema atinja toda a população, entre indígenas há fatores específicos que agravam o cenário.
“A saúde mental é uma questão que atinge tanto indígenas quanto não indígenas, mas, no nosso caso, existem especificidades, como o modo de vida, o meio social e, principalmente, a questão territorial”, explica.
Na avaliação dele, um dos pontos mais sensíveis está no deslocamento de jovens para fora das aldeias. Cada vez mais, indígenas saem em busca de estudo e trabalho e passam a viver realidades muito diferentes das que encontram dentro do território.
“Dentro da aldeia é uma vivência, fora é outra. Lidar com esses dois mundos não é fácil, principalmente para os jovens que saem muito cedo”, afirma. Esse contraste, segundo Paravarsch, impacta diretamente a saúde mental e o sentimento de pertencimento.
Conflitos territoriais
Ele também destaca que conflitos territoriais continuam sendo um fator determinante. A ausência de demarcação em algumas áreas, somada à pressão de atividades como desmatamento e exploração ilegal, expõe as comunidades a situações constantes de tensão. “Muitos territórios ainda não são demarcados e sofrem com desmatamento e invasões. Isso gera conflito, e o jovem acaba indo para esses enfrentamentos muitas vezes sem estar preparado”, relata.
“ Muitos territórios ainda não são demarcados e sofrem com
DESMATAMENTO E INVASÕES
Isso gera conflito, e o jovem acaba indo para esses enfrentamentos muitas vezes sem estar preparado
JOSÉ PARAVARSCH, ASSISTENTE SOCIAL
Outro problema apontado por ele está no acesso ao atendimento. Paravarsch explica que a saúde indígena dentro das aldeias se limita à atenção básica, enquanto os casos mais complexos são encaminhados para serviços como Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), já sob responsabilidade dos municípios e do estado. No entanto, como ele explica, esses serviços não estão preparados para atender a população indígena.
“Muitos profissionais não conhecem a realidade e a cultura dos povos indígenas do próprio município. Isso é muito grave”, critica. Para ele, a falta de preparo compromete o atendimento e evidencia a necessidade de capacitação. “Cada atendimento indígena tem suas especificidades. Não dá para generalizar.”
Para o assistente social, além de ampliar o acesso aos serviços, é fundamental investir em políticas públicas voltadas ao fortalecimento cultural dentro das aldeias. “O fortalecimento cultural ajuda muito na saúde mental, mas ainda faltam políticas públicas voltadas para isso”, conclui.
Assistência nas aldeias
Na região do Araguaia, que abrange municípios de Mato Grosso e Goiás, o atendimento em saúde mental nas aldeias é feito por equipes que atuam diretamente nos territórios, seguindo a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (Pnaspi). A presidente da Associação Indígena do Vale do Araguaia (Asiva), Eliana Karajá, afirma que há um grupo de profissionais que realiza atendimentos periódicos nas comunidades.
“ Há um índice alto de suicídio entre jovens e mulheres do meu povo. A gente já teve casos de suicídio até entre crianças. Por isso, essas conversas com jovens e adolescentes são constantes nas aldeias. ”
Eliana Karajá
Segundo ela, psicólogos realizam atendimentos periódicos nas aldeias e desenvolvem atividades coletivas voltadas ao cuidado com o sofrimento psíquico. As ações incluem palestras e encontros com a comunidade, com foco em questões como depressão e ansiedade.
“Os psicólogos participam das atividades dentro da aldeia, fazem atendimentos e também rodas de conversa para discutir saúde mental com a comunidade”, conta.
O trabalho é articulado com o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Araguaia, responsável por atender populações indígenas em Mato Grosso, Goiás e Tocantins. A atuação envolve tanto indígenas que vivem nas aldeias quanto aqueles em áreas urbanas, incluindo povos como Karajá, Krenak e Javaé.
Alcoolismo
Já na Aldeia Indígena Meruri, em General Carneiro (MT), o padre Angelo Cenerino, que convive com o povo Boe Bororo, afirma que o avanço do alcoolismo tem sido um dos principais desafios enfrentados nas comunidades.
“ O contato com a sociedade não indígena trouxe
PERDA DE TERRITÓRIO, ENFRAQUECIMENTO DAS TRADIÇÕES E DESVALORIZAÇÃO DA CULTURA
PADRE ANGELO CENERINO
Para ele, o problema está diretamente ligado às transformações no modo de vida indígena. “Uma das causas é a ruptura cultural e a perda de identidade. O contato com a sociedade não indígena trouxe perda de território, enfraquecimento das tradições e desvalorização da cultura. Isso gera um vazio, e o álcool muitas vezes entra como fuga”, afirma.
O religioso explica que muitos jovens deixam a aldeia para estudar, o que também impacta a dinâmica cultural e o sentimento de pertencimento.
Taxa de suicídio entre indígenas é mais que o dobro da média
Em abril de 2025, o jovem indígena Aridapi Juruna, de 25 anos, estudante do curso de Artes, Línguas e Literatura da Faculdade Indígena Intercultural (Faindi), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), no campus de Barra do Bugres, morreu após cometer suicídio. Ele era do povo Yudjá, da aldeia Tuba Tuba, no Parque Indígena do Xingu, território que reúne diversas etnias indígenas no Mato Grosso.
Aridapi Juruna
Amigo do universitário, o indígena Patxon Metuktire, liderança do povo Kayapó e neto do cacique Raoni Metuktire, uma das principais referências indígenas do país, lamentou a morte, contou que, nos dias anteriores à morte, o estudante mantinha um comportamento mais introspectivo e chegou a enviar mensagens dizendo que estava sofrendo e que precisava de ajuda.
“Ele mandou mensagem dizendo que estava sofrendo e precisava de ajuda. Naquele dia, ele ainda estava com os colegas, tudo parecia normal, mas depois aconteceu”, diz.
Aridapi adorava comunicação e, principalmente fotografar, e também tinha o desejo de contribuir com a comunidade a partir da formação superior, como revelou em uma postagem feita três meses antes de morrer.

Na legenda da foto em que aparece estudando, ele escreveu: “Estou aqui buscando ampliar meus conhecimentos para fortalecer minha formação e contribuir com minha comunidade, valorizando nossa cultura, nossa língua e nossos saberes tradicionais. A educação é um caminho importante para que eu possa ajudar meu povo e continuar construindo um futuro melhor para todos nós”.
Aridapi Juruna não fazia acompanhamento psicológico.
O caso não é isolado. Levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que a taxa de suicídio entre jovens no Brasil já supera a média da população geral. Enquanto o índice nacional é de 24,7 casos por 100 mil habitantes, entre jovens chega a 31,2 e sobe para 36,8 entre homens.
Acima da média nacional
Fonte: Fiocruz
No recorte indígena, o cenário é ainda mais grave: a taxa alcança 62,7 por 100 mil, mais que o dobro da média do país. Entre jovens indígenas de 20 a 24 anos, o número é ainda mais alarmante e chega a 107,9 casos por 100 mil habitantes.
Além disso, os dados divulgados em dezembro de 2025 apontam que o atendimento ainda é insuficiente. Apenas 11,3% dos atendimentos de jovens no Sistema Único de Saúde (SUS) são voltados à saúde mental, proporção bem abaixo da registrada na população geral.
O psiquiatra Gleisson Oscar Libardi explica que quadros de depressão costumam provocar sentimentos de desesperança, isolamento e dificuldade de enxergar soluções para os próprios problemas. Segundo ele, a presença de uma rede de apoio familiar e comunitária costuma ser fundamental para reduzir esse sofrimento.
No entanto, entre jovens indígenas, o conflito cultural pode tornar esse processo ainda mais complexo. “Muitos cresceram dentro de uma realidade cultural completamente diferente daquela em que passam a viver quando chegam à fase adulta. Eles precisam lidar com responsabilidades e cobranças de um mundo que muitas vezes é estranho ao que estavam acostumados, sem deixar de carregar também a responsabilidade de retornar para suas comunidades”, afirma.
Muitos cresceram dentro de uma realidade cultural completamente diferente daquela em que passam a viver quando chegam à fase adulta. Eles precisam lidar com responsabilidades e cobranças de um mundo que muitas vezes é estranho ao que estavam acostumados, sem deixar de carregar também a responsabilidade de retornar para suas comunidades.
Gleisson Oscar Libardi, psiquiatra
O psiquiatra pontua ainda que qualquer pessoa que enfrenta dificuldades de adaptação ao ambiente em que vive pode desenvolver níveis elevados de estresse emocional.
“Qualquer indivíduo que tenha dificuldade em se adaptar ao meio em que vive experimenta algum nível de estresse e insegurança. Dependendo da personalidade, especialmente em pessoas mais introspectivas ou com maior dificuldade de interação interpessoal, esse estresse pode durar tempo suficiente para provocar alterações químicas cerebrais ligadas a sintomas ansiosos e depressivos”, pontua.
Segundo Gleisson, entre indígenas, esse cenário é agravado pelo choque cultural e pelo preconceito enfrentado fora das aldeias. “Some-se a isso uma cultura totalmente diferente da sociedade atual e o preconceito sofrido por essa população. Nesse contexto, precisamos olhar com mais humanidade e compreensão para esses jovens”, conclui.
O lado do Ministério da Saúde
Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que ampliou o número de psicólogos e profissionais com formação intercultural nas equipes dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) e reforçou a articulação com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) para ampliar o atendimento nas comunidades indígenas.
Segundo a pasta, as ações incluem prevenção às violências autoprovocadas, identificação precoce de situações de risco e acompanhamento contínuo dos casos, com atuação integrada entre CAPS, atenção básica, agentes indígenas de saúde e lideranças tradicionais.
O ministério informou ainda que os atendimentos são realizados de forma territorializada e comunitária, com visitas domiciliares, rodas de conversa e incorporação de práticas tradicionais e medicinas indígenas no cuidado em saúde mental.
Você não está sozinho
Se você ou alguém próximo está passando por sofrimento emocional, existem canais gratuitos e sigilosos de apoio. Procurar ajuda pode fazer diferença.






