Há exatos 365 dias, famílias que viviam em propriedades próximas da BR-163, na divisa de Campo Grande e Jaraguari, tiveram a rotina transformada após o rompimento da barragem do Condomínio Nasa Park.
Casa da família da Gabrielle destruída após o rompimento da barragem. Vídeo: Antonio Bispo
No dia 20 de agosto de 2024, por volta das 9h, milhões de litros de água que formavam um lago cercado por mansões acabaram despejados área abaixo, derrubando tudo o que havia pela frente, principalmente árvores e residências.
Apesar do susto, nenhuma pessoa ficou ferida com a tragédia. Porém, em minutos, muitas famílias perderam tudo o que haviam construído ao longo de uma vida.
Há 1 ano, a família da, agora dona de casa, Gabriele do Prado Lopes, vê a casa onde ela e o irmão cresceram ser engolida pela mata nativa, após a enxurrada carregar tudo o que pôde para bem longe.
Diante da situação, a família precisou se mudar para a casa do pai, localizada metros à frente, mas em um nível mais alto, onde lutam todos os dias para conseguir sobreviver em meio às dificuldades financeiras e psicológicas causadas pelo evento.
Ao Primeira Página, Gabrielle contou que, à época dos fatos, a água levou toda a criação de porcos e peixes, além da plantação de hortaliças, responsáveis pelo sustento da família. Com a destruição do local, tiveram que encontrar formas para tentar equilibrar as finanças.
Vista aérea da área atingida pela enxurrada, onde vivem as famílias prejudicadas. Vídeo: Edmar Melo
“Estamos recomeçando até hoje, aos pouquinhos, tentando comprar a criação novamente [de porcos]. Tudo o que a gente tenta plantar, seja mandioca ou hortaliça, os animais nativos daqui, como capivara e anta, acabam com tudo. Hoje em dia você tem que pensar o que vai comprar, o que vai fazer, no que vai investir. Porque às vezes você compra a muda da planta, da hortaliça, vem os bichos e comem tudo. Já é prejuízo, então tem que pensar em tudo que vai ser feito”, disse.
Gabrielle e o irmão são alguns dos moradores que não firmaram acordo de indenização com o condomínio, por não concordarem com o valor estabelecido pela Justiça.
“A gente já não aceitou o acordo desde dezembro. Foi seguido na Justiça, ganhamos a antecipação de tutela já em segundo grau, porém infelizmente os proprietários da barragem, até hoje, não começaram a fazer esse pagamento. No dia 5 de agosto saiu em segundo grau a nosso favor, porém eles se negam a pagar e a gente esperava que a Justiça fizesse eles pagar. Como que você vai recomeçar do zero sem uma ajuda? Infelizmente a gente ainda não teve esse resultado”, desabafou.
Frente da casa da família de Gabrielle, “engolida” pela natureza (foto: Antonio Bispo)
Sentimento
Ao olhar para trás e ver tudo o que foi perdido, assim como aquilo que permaneceu de pé, mas segue ruindo com o tempo, Gabrielle afirmou que tudo se resume à tristeza.
“[O sentimento] é de tristeza, de indignação, revolta. Porque tudo aqui foi meu pai, minha mãe, meus avós que construíram. Você perder tudo por negligência dos donos da barragem, dos proprietários e dos órgãos competentes que deveriam ter fiscalizado, porque falta de denúncia não foi. Então a gente fica assim, triste. A gente vê que a Justiça não funciona igual deveria. Então já é um ano, um ano sem nada, sem receber um real de indenização. Perder tudo e não tem como falar que isso é normal, infelizmente a gente fica decepcionado com a nossa Justiça”, frisou.
Interior da casa da família um ano após rompimento da barragem (Foto: Antonio Bispo)
Além dos danos às famílias, Gabrielle ressalta o impacto que a tragédia causou ao meio ambiente, alterando toda a realidade da natureza no local.
“Até a natureza perdeu o total equilíbrio. A gente está tendo muito problema com animais peçonhentos, principalmente cobras jararacas. Animais como capivara e anta sempre tiveram, mas a gente tinha cercas com tela, não adentravam à propriedade. Agora isso também traz muito carrapato, que é outro problema grande pra gente”, disse.
A equipe de reportagem sobrevoou a área com ajuda de um drone e teve acesso à dimensão do estrago causado nas matas das propriedades, que um ano depois, tenta se regenerar diante da devastação causada pela força da água.
No local onde antes existia um lago, hoje restou apenas um grande buraco com terra, enquanto os responsáveis tentam, juntos aos órgãos responsáveis, uma licença para reconstruir o reservatório que servia de lazer para os moradores do condomínio.
Vista aérea do local onde ficava o lago do Nasa Park (Vídeo: Edmar Melo)
O Primeira Página entrou em contato com a defesa do Nasa Park, bem como com o Imasul mas não houve retorno até a publicação desta matéria.
O Ministério Público, por meio de nota, disse que o processo referente ao caso segue em andamento e as famílias que aceitaram o acordo por meio do TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), já foram indenizadas.
“Para aquelas que não aderiram, foi constituída garantia judicial em bens, e algumas já ingressaram com ações individuais. O valor bloqueado em juízo está vinculado a essas medidas e não pode ser acessado diretamente. A investigação está em fase avançada, com análise técnica e jurídica em curso. A possibilidade de responsabilização criminal não está descartada, e dependerá da conclusão do inquérito policial. A empresa responsável firmou o TAC, assumindo compromissos de reparação ambiental e indenização, mas outras formas de responsabilização podem ocorrer conforme o avanço das apurações”, destacou.
Desbloqueio de milhões
Em fevereiro, um acordo feito entre o loteamento e parte das famílias fixou indenização no valor de R$ 1,3 milhão. Entretanto, nem todos aceitaram o montante, alegando que o valor era inferior aos prejuízos sofridos. No mês seguinte, R$ 35 milhões em bens foram desbloqueados pela Justiça.
Na reunião, a promotoria conseguiu firmar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), para realizar o pagamento. Ao todo, foram realizadas três reuniões com os moradores atingidos para discutir a indenização, que não foi aceita pela unanimidade. Para aqueles que concordaram, a quantia está sendo paga em três parcelas a cada quatro meses.
“Tratamos aqui com dez, seis deles foram os sócios que aceitaram o acordo. Já em relação a quatro deles, não foi aceito. Em contrapartida, eles fizeram uma contraproposta apresentando um valor que valia o justo para essas pessoas”, disse o promotor de justiça, Gustavo Henrique Bertocco de Souza.
Barragem do Nasa Park rompeu e atingiu a BR-163 (Foto: Divulgação)
Desse valor, R$ 800 mil deverá ficar em uma conta judicial para os moradores que não aceitaram a oferta. Caso eles mudem de ideia, têm até dois anos para informar a mudança.
Além disso, imóveis dos empresários avaliados em R$ 4 milhões ficarão bloqueados para garantia de indenizações futuras das vítimas.
“Serão averbados cinco matrículas de imóveis do Nasa Park, que somam aproximadamente esses R$ 4 milhões. São cinco terrenos lá com cláusulas de impermeabilidade, inabalabilidade, eles ficaram em garantia de futura execução. A gente entendeu como razoável um ano e meio, 18 meses, que é o prazo que as pessoas vão ter para ingressar judicialmente, poder pedir o bloqueio eventual”, afirmou o promotor.
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