Cansado da prisão, Marcola organizou plano de fuga com ajuda de advogados

Em conversas com a mulher, o criminoso reforçou que enquanto “respirasse” ia continuar a luta para sair da cadeia

A angústia de viver 23 anos na prisão, nas celas de presídio federal para outro, foi a motivação do plano de resgate a Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, revelado pela Operação Anjos da Guarda, da Polícia Federal. O esquema audacioso, que tinha três etapas, começou a ser frustrado em Mato Grasso do Sul, através das conversas entre a advogada Kássia Regina Brianez Trulha de Assis e Esdras Augusto do Nascimento Júnior, em Campo Grande.

marcola pcc presidio capa
Marcola está preso em Porto Velho, no Presídio Federal (Foto: Reprodução Fantástico)

Muito antes da operação ser realizada, informações de que advogados recebiam e mandavam mensagens codificadas aos integrantes da maior facção criminoso do país, que estavam na Penitenciária Federal de Brasília, no Distrito Federal, aos criminosos que estavam soltos, deram inicio as investigações da “Anjos da Guarda”, mas foi Kássia quem “ajudou” a desvendar todo o plano.

Pelas conversas entre a defensora e Esdras em parlatório, ou seja, as cabines que separam preso e visitantes, os agentes penitenciários notaram uma excessiva repetição de processos em instâncias superiores. A partir daí, constataram que nenhum dos casos citados pela advogada estavam em julgamento e aos poucos, perceberam que termos conhecidos no direito eram apenas códigos para um plano de resgate cuidadosamente organizado pela facção.

A motivação era simples: Marcola, considerado o líder do grupo, estava cansado de ficar preso. Com 54 anos, Marcos Willians passou a maior parte da vida na cadeia. Começou cedo no crime, aos 9 anos foi pego por roubo. Foram anos de idas e vindas da prisão, até que em julho de 1999 foi capturado pela última vez. Desde então, 23 anos depois, vive nas penitenciárias federais do país e já soma uma pena de 342 anos.

O cansaço de Marcola e a vontade de voltar às ruas, para a polícia, ficou claro nas conversas com a esposa: Cynthia Giglioli da Silva. Os diálogos foram gravados durante as visitas e acabaram divulgados nesse domingo (15) em reportagem do Fantástico.

“Enquanto eu tiver vida, tiver respirando, você pode ter certeza que eu vou estar lutando para sair daqui”

“Então tá bom, é isso que eu queria escutar de você”, garante Cynthia

O primeiro diálogo foi interceptado quando Marcola ainda estava na penitenciária federal de Brasília. Na conversa para com a esposa, ele demostra preocupação com a apareci e reclama de ter “envelhecido”.

“Envelheci bastante? Ninguém me fala a verdade, sabe?”

“Mas e meu rosto, como é que tá? Fala a verdade.

Questiona o criminoso

A mulher tenta tranquilizar o marido, nega que os cabelos brancos dele aumentaram e fala que ele está bem. É nesse contexto, que mais de uma vez, Marcola garante que sua motivação de vida é deixar a prisão. “Minha vida é lutar para sair daqui”. Em São Paulo, o chefe da facção tentou escapar pelo menos três vezes e por isso foi enviado aos presídios federais, onde está há três anos.

O medo de uma nova tentativa de fuga fez com que ele fosse transferido de Brasília para Porto Velho, em Rondônia. No norte do país, ele volta a conversar com Cynthia sobre sua aparência e estado mental.

“Você acha que to muito mal aqui, amor?”

“Emocionalmente?”

“Não, no aspecto”

“Fisicamente não”

“Tô melhor que em Brasília”

“Tá melhor”, responde a esposa

Em resposta a esposa, Marcola revela que em Brasília vivia “esperando as coisas acontecerem”. Para a polícia, esse é o primeiro momento em que o criminoso fala sobre o plano de fuga. “Eu não sei eu posso ter esperança ou não, esse é o problema”. Usando os mesmos códigos que os demais colegas de crime, Marcos Willians demostra nervosismo com a demora e falta de informações e por fim, cobra uma posição sobre o planejamento do resgate.

“Eu to em uma neurose que você não acredita”.

“Eu to percebendo”, diz Cynthia.

“Você nunca me viu desse jeito”.

Códigos

O envolvimento de Kássia Regina Brianez Trulha de Assis, a advogado sul-mato-grossense presa no dia 10 de agosto durante a operação, foi essencial para a descoberta da rede de comunicação entre criminosos responsáveis pelo resgate e advogados que atuam como “pombo correio”.

kassia preso ms 1200
Esdras e Kassia em conversas gravadas no presídio (Foto:Reprodução Fantástico) )

Para a polícia, a conversa da advogada com Esdras e anotações feitas por ela, ajudaram a desvendar os códigos usados pelo grupo. Ficou comprovado então que todas as vezes que preso e defensor falavam de instâncias superiores, estavam, na verdade, falando sobre o plano de resgate a Marcola. Foi também através de Kássia que a polícia descobriu três fases do esquema:

Plano STF: invasão a Penitenciária Federal de Brasília.

Plano STJ: sequestro de autoridades ligadas ao Sistema Penitenciário Federal, como diretores, chefes de segurança e familiares. Os cativeiros seriam em estados diferentes. Entre os nomes citados estão Renato Gomes Vaz e Rodrigo Campo Porto, diretor e chefe de presídio. Nas interceptações, a ordem eram matar eles caso “Ciro” que para polícia é Marcola, não fosse liberado.

Plano Suicida: aqui, os criminosos estipularam um prazo de oito meses os faccionados das ruas executassem os planos, se isso não acontecesse, o próprio Marcola executaria uma missão considerada “suicida”, o que seria provavelmente uma rebelião dentro do Sistema Prisional Federal, com servidores públicos como reféns.

Tinham ainda outros códigos “importantes”. Advogados no contexto das conversas eram os criminosos que ainda estavam na rua e ajudariam no plano. Indiciado, um termo para quando a pessoa passa a ser processada pelo estado por um crime, era na verdade quem foi indicado por Marcola para participar do esquema.

Em outras interceptações, a polícia ainda encontrou indícios de que o material bélico necessário para o resgate estava nas mãos dos criminosos e os integrantes que executariam a ação já estavam definidos; faltava apenas colocar o plano em prática.

Leia mais

  1. Anjos da Guarda: OAB acompanha buscas em casa de advogada de MS

  2. Anjos da Guarda: PF faz operação contra plano de fuga em presídios

  3. Advogada presa é casada com um dos chefes de maior rebelião da história em MS

  4. Advogada investigada por envolvimento com organização pode ir para prisão domiciliar

  5. Escuta de advogada de MS “entregou” plano de fuga à Polícia Federal

  6. Advogada de Três Lagoas presa pela PF é transferida para a capital

Ligação antiga

O nome de Esdras e o envolvimento dele com Marcola já havia sido denunciado em outra operação em Mato Grosso do Sul: a “Operação Courrier”. Na época, a polícia revelou que Esdras dividia cela com o líder da facção paulista, mas foi transferido para Campo Grande e lá recebeu a visita de Kássia para repassar as informações da cúpula do grupo criminoso sobre o esquema. Tudo foi gravado.

Consta que a advogada foi até o presídio de Mato Grosso do Sul a pedido de Devanir de Lima Moreira, chefes do grupo criminoso que está foragido e é apontado como um dos principais responsáveis pela elaboração do plano de fuga dos detentos.

FALE COM O PP

Para falar com a redação do Primeira Página em Mato Grosso do Sul, mande uma mensagem pelo WhatsApp. Curta o nosso Facebook e nos siga no Instagram.