Do blindado ao túmulo: a queda de Jorge Rafaat e a ascensão do crime organizado
Era manhã do dia, cheguei na redação e como de costume abri o celular destinado a editoria de polícia, que nunca saia da redação, conversas e mais conversas traziam a mesma informação: o Rei da Fronteira foi assassinado
Em 2016 eu ainda era foca, jargão jornalístico para quem começou a pouco tempo na redação. Bem, naquela altura já conhecia muita coisa, mais não entendia a dimensão do nome Jorge Rafaat Toumani. Descobri justamente no dia se sua morte.

Rafaat foi assassinado em uma cena cinematográfica. Era noite do dia 16 de junho de 2016.
O “Rei da Fronteira” andava pelas ruas de Pedro Juan Caballero em um carro blindado, acompanhado por seguranças, exatamente como se espera do homem que comanda o tráfico de drogas entre Brasil e Paraguai. Mas naquele dia, todo o esquema não foi suficiente. O grupo foi surpreendido por mercenários e o veículo em que Rafaat estava fuzilado.
A arma não era qualquer uma. Se tratava de uma metralhadora .50, de uso exclusivo das Forças Armadas e com força suficiente para derrubar um avião. O carro blindado não foi suficiente.
Os seguranças revidaram aos disparos. O tiroteio foi intenso. Rafaat foi morto com 16 tiros e o responsável por manusear a metralhadora, o ex-militar carioca Sérgio Lima dos Santos, ferido. Ele acabou preso e mais tarde condenado a 35 anos pelo crime.
Depois do crime, lojas de Rafaat foram atacadas também: incendiadas e fuziladas, inclusive no lado brasileiro. Era um aviso: a fronteira tem um novo dono.
As imagens que chegavam à redação eram de guerra. Tanques do Exército Brasileiro desfilaram nas ruas de Ponta Porã, na época, a informação era de que as equipes já estavam na cidade para uma operação, mas os veículos militares aumentaram a proporção do que havia acabado de acontecer.
Rafaat foi morto pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Tudo porque a facção queria ter o controle da principal rota do tráfico para o Brasil. A execução, no entanto, era apenas o começo da guerra pelo poder. Nos anos seguintes o número de morte em Pedro Juan Caballero e Ponta Porã disparou.
Execuções com diversos tiros eram quase diárias.
Para demonstrar o tão sonhado controle, os integrantes do PCC foram além. No dia 15 de junho de 2017, um ano depois da morte de Fafaat, três integrantes da facção paulista foram ao cemitério municipal de Ponta Porã, desenterraram o caixão do narcotraficante e atearam fogo em seu corpo.
Toda a cena ainda foi gravada pelos criminosos. O vídeo foi encontrado por acaso, meses depois, após a prisão de um dos envolvidos em uma outra situação. As investigações da Polícia Federal de Mato Grosso do Sul apontaram que Elton Leonel Rumich da Silva, o “Galã”, ordenou a violação do túmulo.
A ação, nas palavras deles mesmos, era para “causar pânico e demonstrar que eles estavam fortemente na pista”.
Depois de anos de conflito intenso, as coisas na fronteira se “acalmaram”. Aquela falsa calma que existe quando só um grupo domina o tráfico na região, assim como era na época do Rafaat.
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